‘Existe muita gente querendo ser filho nesse mundo’

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Mãe de dois por adoção aos 27 anos, Fernanda Silva usa sua própria história de superação para ensinar aos filhos que autenticidade é um ato de coragem

“Não importa o que dizem sobre você e sim o que você pensa.” Foi conquistando uma autoestima perdida por viver uma realidade periférica e se responsabilizando por suas escolhas com coragem que Fernanda Aparecida Silva se tornou exemplo para muita gente com apenas 27 anos. Formada em química e pedagogia, empreendedora, filha da Cida, irmã da Laura, casada com o Rafa, mãe do Victor e do Gabriel por adoção e de outro filho que “está no céu”, ela ensina: “Se impor não é errado, é coragem”.

Fernanda nasceu em Assis, no interior de São Paulo, em uma família matriarcal e tem recordações divertidas da infância. “Eu lembro de brincar bastante com a minha mãe, na rua. Como eu ficava com a minha avó porque minha mãe tinha que trabalhar, lembro do cuidado que minha tia Luciana tinha em arrumar meu cabelo, levar na escola. Minha mãe fazia piquenique no quintal, brincava de esconde-esconde todo dia quando chegava do trabalho.”

Aos 11 anos, o nascimento da irmã Laura mudou tudo. “Na época, eu não aceitava, tinha um certo ciúme e costumo sempre falar que a Laura me ensinou amor e altruísmo me amando primeiro, pois ela andou para mim, falou meu nome antes de tudo e me abraçava a cada dois minutos, mesmo eu odiando contatos físicos. Ela foi insistente e hoje é a minha pessoa favorita.”

Quando tudo parecia caminhar bem para a família, o pai de Fernanda sofreu um atentado. “Ele levou três tiros e um dos disparos fraturou sua coluna e ele nunca mais andou.” Como trabalhava como pedreiro, e sem estudos, ele não conseguiu emprego e a mãe precisou assumir as contas da casa. “Por oito anos minha mãe cuidou de nós quatro sozinha, ela trabalhava fazendo faxinas em diversos lugares.”

“Tudo se tornou difícil. Eu era adolescente na época, então já comecei a ver a situação de outra forma. Consegui trabalho pela legião mirim e com 15 anos passei a ajudar minha mãe”, conta Fernanda.

“Eu lembro de ganhar R$ 350 no meu primeiro emprego, que era em uma creche municipal, onde eu ficava com os bebês de três anos. Foi o emprego mais feliz que tive, mesmo com essa remuneração horrorosa”, brinca. Com o salário, ela pagava a conta de luz da casa e outras despesas. “Eu amo cinema, então fiz dessa paixão algo entre mim e a Laura: sempre que eu recebia, eu separava o dinheiro das entradas e da pipoca e íamos ver um filme. Até hoje eu odeio ir ao cinema sem ela.”

Esta relação de amor incondicional é o que define o conceito de família, na opinião da jovem. “Para mim, família são pessoas que amam a gente, não importa sangue. Eu tenho amigos melhores que irmãos e parentes que nunca nem vi.” Ela reconhece que tem ótima relação com a mãe e com a irmã, mas que com o pai a situação sempre foi conturbada. “Isso se estendeu aos meus meios-irmãos, que são filhos dele, e com quem nunca tive grandes contatos. A maioria foram brigas ou coisas ruins”, confessa.

Mas quis o destino que os caminhos dos irmãos se cruzassem e o encontro mudou a vida de Fernanda mais uma vez. “É aí que entra a família que construí: o Rafa, meu marido, Gabriel e Victor, meus filhos. Gabriel, na árvore genealógica, é meu sobrinho, filho do meu meio-irmão. Já o Victor é filho da minha sobrinha, irmã do Gabriel, então seria meu sobrinho-neto. A nossa família se construiu a partir de situações difíceis e tristes vividas pelas crianças, que passaram por um abrigo antes de chegarem a mim”, explica Fernanda, que hoje tem a guarda dos sobrinhos, embora eles tenham convívio com suas respectivas mães biológicas de tempos em tempos.

Quando ela os encontrou, Gabriel tinha completado 14 anos três dias antes de ser acolhido no abrigo e Victor tinha apenas um ano e cinco meses e enfrentava problemas nutricionais e de fala. “Fizemos um aniversário de trufas para o Ga quando ele chegou em casa porque ele não gostava de bolo”, recorda a tia-mãe.

Por questões raciais e financeiras, Fernanda sempre se sentiu deslocada na adolescência. “Pelo meu cabelo crespo eu era meio excluída na escola. Depois de um tempo, eu encontrei no handebol algo em que me encaixava. Na quadra, no time, eu não era a esquisita e isso me fazia bem”, recorda a pedagoga, reforçando que não era bullying o que ela sofria: “Era exclusão mesmo, como se eu não estivesse ali. Passei a ficar mais com os meninos, que foram criados comigo. É engraçado dizer, mas a minha avó é a avó do bairro todo e buscava todo mundo na escola e todos os vizinhos da minha idade eram meninos”.

“Tive até uma fase de me vestir como eles, o que piorou mais a situação porque na igreja que a minha mãe frequentava eles implicavam. Eu comprava roupa dita como masculina e começaram a falar para minha mãe não deixar. Aí começou a saga de me aceitar, que, na real, eu usava aquelas roupas porque eu não queria que os meninos me vissem como menina e me excluíssem também”, confessa.

Foi o que aconteceu quando ela usou saia pela primeira vez. “Foi o basta, não me deixavam jogar bola com eles. Eu fiquei sem amigos até aparecer o Fabio, que foi a melhor coisa da minha adolescência, pois éramos estranhos juntos, pretos juntos, e estávamos na mesma escola.”

“Eu faço de toda desgraça uma piada, então absolutamente tudo que vivi de ruim eu levo da forma mais leve possível”, ensina a pedagoga, que tem como exemplo a mãe Cida. “Acho que a pior de todas as situações que vivi foi ver o sacrifício de minha mãe em cinco empregos para pagar meu aluguel em Bauru, quando comecei a faculdade de química, aos 17 anos, além de cuidar da Laura com 7 anos e ainda do meu pai na cadeira de rodas”, cita Fernanda, que precisou abandonar o sonho de se formar numa universidade pública por questões financeiras. “Mas fiz Fies e terminei a graduação numa faculdade municipal da minha cidade”, orgulha-se.

“A maior lição da minha vida é o trabalho e eu sei que isso veio da força da minha mãe, porque doeu demais, mas foi recompensado. Eu não uso para nada minhas faculdades no presente momento, mas ela usa. Ela enche de alegria o rosto e fala ‘Fernanda tem duas faculdades, ela é muito inteligente’”, completa a química e pedagoga, reafirmando que estudar sempre foi seu maior objetivo na vida: “Sempre irei defender que a arma do pobre é o estudo”.

Hoje, a rotina da Fernanda se resume em cuidar da casa, do bebê e do restaurante que mantém com o marido, que conheceu na faculdade de química. “Me formar era um dos meus maiores sonhos e consegui. Depois foi o espaço físico do restaurante, que durou apenas um ano, por conta da pandemia. Mas, mesmo assim, me sinto feliz pela oportunidade, e espero viver para ter ele de novo e melhor”, declara a empreendedora, que hoje vive com o que tem no dia. “Não por não desejar mais, mas por toda situação que passamos, eu não consigo organizar os desejos futuros, eu só peço para sobreviver e ter mais um dia com os meus.”

Trabalhando com alimentação desde 2015, ela achou nesse ramo o seu “trabalho no que amo”. “Nesses últimos dois anos tem sido difícil. A instabilidade, duas crianças, aluguel, então empreender ficou bem frustrante em alguns dias. E eu fico meio desesperada agora, pois eu tenho pessoas que dependem de mim e essa instabilidade faz com que trabalhemos mais, ficando com menos tempo para estar junto da família.”

Nas horas vagas, Fernanda adora dormir, mas com a chegada do bebê, essa possibilidade é quase inexistente. “As poucas horas vagas que consigo ter eu dedico a ficar com o Rafa, a comer na minha mãe, a brincar com o Victor e a me exercitar. Algumas vezes gosto de assistir séries e ouvir músicas também. E eu gosto de dançar, então eu ouço tudo que tiver como colocar um remelexo.”

A maternidade era algo que sempre esteve nos planos da jovem, que até engravidou, mas sofreu uma perda, pouco antes de se casar, em 2018. “Eu sempre quis ser mãe por adoção. Gerar alguém hoje se tornou algo difícil para mim. Depois da perda do meu bebê eu bloqueei isso, mas mesmo antes do aborto eu sempre tive o pensamento que existe muita gente querendo ser filho nesse mundo. Eu não queria colocar mais uma pessoa aqui e sim conseguir amar quem já tinha nascido. Eu tive uma bisavó que foi mãe por adoção aos 60 anos. Ser mãe, para mim, é cuidado, é amar, aceitar os limites, as personalidades e tentar orientar da melhor forma a bondade no coração deles.”

Segundo ela, sua maior dificuldade é entender que os meninos não são seus, “que ser família extensa não tem garantias. Então eu me pego no medo de ter que deixá-los ir embora algum dia se os pais biológicos tentarem judicialmente”.

Hoje, ela dribla com amor os momentos de rejeição do adolescente Gabriel, hoje com 15 anos, que às vezes não se sente tão amado quanto o bebê Victor, de quase 3 anos. “Isso me magoa muito, porque ele é tão meu filho quanto o Victor e eu fico triste quando ele não se sente bem-vindo. Eu entendo que são situações difíceis para todos, que gostar de cara de um bebê é muito mais fácil.”

Ela brinca que ser mãe do Victor é horrível: “Você não dorme em paz, não come em paz, mas é bem o padecer no paraíso, pois ele me faz rir constantemente, me dá beijos e abraços quentinhos. A parte difícil de ser mãe do Ga é que até ontem eu era a própria adolescente chata e agora eu tenho que por alguém de castigo porque tirou nota baixa”, comenta.

A maternidade por adoção modificou a forma como Fernanda vê o mundo: “Eu, além de preta, tenho agora um filho preto e outro que se expressa de forma não-convencional para sociedade, não só em questão de sexualidade, mas no vestir, no falar. Tem 15 anos e está se descobrindo e eu estou fechada 100% com eles serem o que quiserem, mas o mundo pode não estar. A gente sabe que não está e isso me preocupa, porque meu desejo de mãe é que meus filhos sempre voltem para casa”, compartilha. Desde 2019, mesmo antes da chegada dos meninos, ela e o marido estão na fila oficial de adoção.

Empreendendo como mulher preta periférica que não leva desaforo para casa, na bandeira feminista erguida por Fernanda estão escritos conselhos como não desista e não deixe que comentários racistas e machistas te façam pensar que você não é capaz. “Eu costumo dizer que esse país inteiro mamou na teta da nega e é desrespeito demais ver que essas mulheres tenham tanta dificuldade em conseguir espaço para brilhar, mesmo sendo a melhor naquilo que faz. Se a branca meia boca também faz é ela que contratam e a maioria das pessoas não quer gente que fala isso por perto, mas eu estou acostumada a lutar e a não ter medo, então eu não me calo.”

Não bastasse o empreendedorismo, o casamento e a maternidade, Fernanda agora decidiu mudar seu corpo porque não se sentia feliz com sua imagem e apostou em exercícios e dieta balanceada, que ela divide com seu público nas redes sociais. “Não estava com uma boa saúde por estar acima do peso e eu quero ter mais tempo nessa terra, tempo de qualidade, ter mais disposição, me amar, olhar para mim e gostar do que eu vejo”, justifica, lembrando a importância da terapia na construção da autoestima.

“Eu sempre tive a autoestima elevada, acho que ter ficado com a minha avó e as três tias enquanto minha mãe trabalhava cooperaram para isso. A tia Lu é a melhor tia do universo e ela sempre me arrumava, penteava meu cabelo, falava que eu estava linda. Minha mãe também e isso é algo necessário para se falar a um filho: você é lindo, seu cabelo é lindo, sua cor é linda. Construir uma imagem de amor por si mesmo é algo diário e difícil, mas extremamente importante porque dentro da casca está você e eu vejo que quanto mais eu cuido fora, mas eu consigo cuidar dentro.”

Ela nunca se enxergou como influenciadora, mas depois que decidiu mostrar os cuidados com seu corpo nas redes sociais percebeu o quanto compartilhar é importante para empoderar outras mulheres. “Eu fico feliz de inspirar alguém a querer saúde. Eu sempre começo com ‘gordura não é problema, se você está feliz e sua saúde está boa’. Mas se quer mudar, faça por você e não pela sociedade que vivemos. Nada nesse mundo vale nosso desgaste emocional.”

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