Londrina está no topo nacional de mortes por agentes de segurança

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No ano passado, foram 57 óbitos por intervenções policiais, segundo Anuário Brasileiro da Segurança Pública; número é maior que o da maioria das capitais

Nelson Bortolin

Foto em destaque: Protesto em Londrina lembra a morte de Cristiano Rorigues, em abril de 2021/Isaac Fontana

Londrina apresentou no ano passado o 12º maior número de mortes em decorrência de intervenções policiais (MDIPs) entre os mais de 5.500 municípios brasileiros. Foram 57 óbitos, mesmo número que o de Fortaleza, capital cearense com uma população quase cinco vezes maior que a londrinense.

Londrina teve mais mortes em confrontos com agentes de segurança que a maior parte das capitais brasileiras e que metrópoles como Guarulhos (28 mortes) e Campinas (23).

Curitiba, com 104 MDIPs ocupa o 6º lugar na lista. Já as outras duas capitais da região Sul, Florianópolis e Porto Alegre, nem estão no ranking dos 50 municípios com mais mortes em decorrência de intervenção policial, tiiveram menos de 15 casos.

Os números são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2021 – elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Essa é a primeira vez que a entidade publica a lista dos 50 municípios com mais violência policial, o que dificulta comparações. Mas os números do Ministério Público do Paraná mostram que não é de hoje que Londrina apresenta um número grande de MDIPs. Foram 17 em 2016; 27 em 2017; 23 em 2018; e 36 em 2019.

Fonte: Anuário da Segurança Pública 2021

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Quando a comparação é feita proporcionalmente pelo tamanho da população, Londrina vai para o 18º lugar nacional, com 9,9 casos por 100 mil habitantes. À frente na lista, em geral estão pequenas e médias cidades como Tomé-Açú, no Pará, com 37,5 mortes por 100 mil habitantes, Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, (19,3) e Belford Roxo, na Baixada Fluminense (13,8).

Por esse indicador, a única capital que tem maior número que Londrina é Salvador (13,2). Só para se ter uma ideia, o Rio de Janeiro teve 6,2 mortes por 100 mil habitantes e, São Paulo, apenas 3,2.

No ano passado, as polícias estaduais mataram 6.416 pessoas em todo o País, um crescimento de 190% na comparação com 2013, ano em que começou o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mas há um lado positivo: a desaceleração das MDIPs totais. De 2013 a 2018, o crescimento foi de 179,2%. Já, entre 2018 e 2020, de apenas 3,9%.

“Evidentemente, o patamar atingido ainda é bastante alto, e, em 2020, há o fator ADPF 635 no Rio de Janeiro”, diz o relatório em referência à determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) que limitou as intervenções nas comunidades cariocas durante a pandemia.

A taxa de mortalidade por intervenções policiais variou bastante no Brasil em 2020, sendo a taxa média nacional de 3 por grupo de 100 mil habitantes. As menores taxas, ou seja, as polícias menos letais foram as do Distrito Federal (0,4), Minas Gerais (0,6), Mato Grosso do Sul (0,7), Paraíba (0,9) e Piauí (1,1). Já os estados em que as polícias estaduais foram mais letais foram Amapá (13,0), Goiás (8,9), Sergipe (8,5), Bahia (7,6) e Rio de Janeiro (7,2), taxas muito elevadas e que indicam uso excessivo da força por parte das polícias locais.

O Paraná é o 7º estado do ranking nacional, com 3,2 casos.

Dennis Pacheco, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que há muita diferença na atuação dos policiais em cada estado do País. Clique aqui e leia a entrevista.

Outro critério usado pelo Fórum para comparar a violência policial foi a proporção de MDIPs em relação às mortes violentas intencionais. No Paraná, as mortes em decorrência de intervenção policial corresponderam a 15% do total de mortes violentas intencionais. É o 8º maior índice. O Amapá de novo é o mais violento, com 31,2%.

Bem menos significativos foram os números de Santa Catarina 10,6%; Rio Grande do Sul, 7,3%; e Minas Gerais, com 4,5%.

Outra comparação feita pela entidade é entre o número de civis e policiais mortos nas operações. No Paraná, para cada policial morto foram 185 mortes de civis. No Rio de Janeiro, esse número baixa para 28; em São Paulo, para 16; e em Santa Catarina, para 43.

A Rede Lume pediu entrevista para tratar dos números apontados pelo anuário ao 5º Batalhão de Polícia Militar e à Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp). O primeiro não respondeu. Já a secretaria enviou nota à redação.

“Apesar do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontar aumento nos dados de mortes violentas no Paraná no comparativo entre os anos de 2019 e 2020, os dados mais recentes (deste trimestre) da Secretaria da Segurança Pública do Paraná (Sesp) apresentaram redução no primeiro trimestre de 2021, se comparados ao mesmo período de 2020”, diz o documento.

“A redução é resultado das ações da Sesp, juntamente com as forças policiais estaduais, que têm trabalhado diuturnamente e feito análises constantes dos índices criminais, atuando de forma estratégica e integrada, promovendo ações para combater e reduzir a criminalidade no Estado”, segue a nota.

“Sobre os crimes contra a vida, a Secretaria informa que as análises feitas pela Pasta indicam que grande parte deles são derivados de outras práticas delituosas, como o tráfico de drogas, o que vem sendo combatido com ações diárias e operações pontuais e estratégicas. Além disso, a presença ostensiva da Polícia militar nas ruas, aliada à celeridade nas investigações da Polícia Civil, é fator que tem contribuído para a redução de mortes violentas intencionais no Paraná, além de ajudar no combate de outros crimes correlatos.”

“A Secretaria da Segurança Pública também informa que faz reuniões semanais para discussão das estratégias de segurança, determina ações de investigação e de patrulhamento, que elas sejam constantes e ágeis para coibir e reduzir a criminalidade em todo estado. Por isso, diversas operações policiais são desencadeadas semanalmente, por meio de planejamento estratégico, baseadas pelo georreferencial e pelas estatísticas criminais.”

“Para a Sesp, desta forma é possível agir diretamente no foco do crime, o que tem gerado resultado positivo para a melhoria da segurança pública do Paraná.”

“A Sesp ainda informa que suas forças policiais não buscam resultado morte em suas ações, e que elas atuam dentro dos parâmetros dos direitos humanos. Os confrontos existentes são respostas e reações às ações de pessoas que estão cometendo crimes e procuram confrontar com policiais.”

“A Sesp informa também que a abordagem policial pode ser feita a qualquer cidadão conforme prevê a lei, e é uma ferramenta fundamental para identificar criminosos que estejam entre os cidadãos de bem.”

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