Os perigos de ser mulher em 2021

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A retomada do poder pelo regime Talibã no Afeganistão tem gerado preocupações em relação ao futuro da população afegã, sobretudo em relação à condição das mulheres daquele país. Se há desafios para os afegãos sob o novo regime, para as mulheres afegãs o estado de medo se instala em um nível mais aterrorizante e profundo.

O apagamento de imagens de mulheres em cartazes e outdoors nas ruas de Cabul, a capital afegã, dá uma prévia do apagamento que pode atingir a vida das mulheres daquele país. A possibilidade de perderem seus direitos de ser e existir enquanto potência e as incertezas com relação ao futuro vêm da experiência traumática de já terem vivido, de 1996 a 2001, sob o regime talibã.

Cenário

Há varias camadas de opressões que acometem as mulheres afegãs neste momento. Neste texto vou me ater a apenas uma delas, o patriarcado. E traço aqui um paralelo entre o cenário afegão e o brasileiro no que diz respeito à opressão às mulheres.

Quando falo em mulheres geralmente delimito de quais mulheres estou falando, mas aqui, excepcionalmente, falo apenas do gênero feminino, ou seja, falo de mulheres no geral. E da busca por liberdade para nossos corpos, independente da raça, cultura ou religião.

O patriarcado é o mesmo sistema sociopolítico de opressão que coloca os direitos e os interesses dos homens acima dos direitos e interesses de mulheres, tanto no Afeganistão quanto aqui no Brasil.  Mais do que restrição de nossos direitos, há enraizado culturalmente, aqui e lá, um desprezo pelas mulheres.

Construção Histórica

A imagem da mulher é construída nas esferas social, cultural e religiosa como algo ruim. Já fomos consideradas bruxas. Rousseau no século XIX era um ferrenho defensor de que mulheres eram alguma estranha criatura entre a santa e a pecadora. Platão acreditava que a mulher era um homem que cometeu muitos erros e reencarnou como mulher. Na Mitologia Grega, Pandora possuía uma caixa com os males do mundo. E na tradição judaico-cristã, Eva é considerada a responsável pelo pecado do homem.

Tais ideias fazem parte, ainda hoje, dentro do imaginário masculino, do que se imagina ser uma mulher. E tal construção resulta em uma espécie de legitimação da violência contra o corpo feminino.

A discriminação de gênero em números

Um exemplo deste comportamento social é que no Paraná o número de feminicídios aumentou 8% em 2020 em relação a 2019. Segundo dados do Ministério Público do Paraná, foram 225 mulheres mortas ou agredidas com intenção de que fossem mortas no estado em 2020. Em Londrina, onde os números de feminicídio aumentaram 20% em relação à 2019, só esta semana estão sendo julgados três casos.

Ainda assim os tempos seguem confortáveis para os homens, uma vez que o sistema patriarcal lhes garante uma posição de dominação e de poder sobre mulheres e grupos minoritários.

Dados do IBGE divulgados em março deste ano apontam que mulheres recebem 77,7% dos salários de homens na mesma posição. Quando se trata de cargos de gerência e direção, esse percentual pode chegar a apenas 61,9% em relação ao salário dos homens. Os dados são referentes ao ano de 2019.

As mulheres são a maioria da população no Brasil, mas nossos direitos ficam muito aquém dos direitos dos homens. Vide o Estatuto da Gestante, Projeto de Lei 5435 que tramita no Senado Federal, no qual mais uma vez se impõe o controle do Estado sobre o corpo feminino. O projeto ameaça direitos previamente adquiridos como, por exemplo, a interrupção da gravidez em caso de estupro.

Ao que parece, ao Estado, formado majoritariamente por homens, pouco importa se a gravidez advém de uma violência sexual ou não.

A legalização do aborto – uma questão de saúde coletiva, de justiça social e de autonomia reprodutiva – é um clamor por liberdade, para que as mulheres tenham controle sobre seus próprios corpos, mas segue sem aprovação.

E em pleno ano de 2021 nos deparamos com planos de saúde exigindo autorização de maridos e parceiros para liberar procedimento de inserção do dispositivo intrauterino (DIU) em mulheres casadas.

Esses são apenas alguns pontos em comum que a opressão patriarcal impõe sobre as mulheres. O sistema que oprime brasileiras e afegãs no que se refere à liberdade em relação ao próprio corpo continua sendo o patriarcado. E há quem ainda duvide que o corpo feminino continua sendo controlado por Estado e Religiões dominadas por homens.

Muda-se o idioma, muda-se o país, muda-se a lei, mas a opressão é a mesma. E este é um dos perigos de ser mulher em 2021.

Manas vamos para Themyscira!

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

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