Doação de marmitas marca dia de luta da população de rua

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Movimento Nacional da População de Rua se une ao coletivo Faz a Boa e leva refeição a 150 pessoas em diversos pontos de Londrina

Cecília França

Fotos: Bruno Mazzoni

Alessandra reaparece de dentro do prédio abandonado onde vive, na área central de Londrina, para elogiar a marmita que havia acabado de receber: “Que comida boa, gente”, diz, saboreando o estrogonofe produzido pelo grupo Faz a Boa e distribuído pelo Movimento Nacional da População de Rua (MNPR)-Núcleo Londrina. A ação marcou o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, lembrado em 19 de agosto, e a Lume acompanhou.

Foram 150 marmitas entregues em diversos pontos da cidade, começando pela Concha Acústica, onde poucas pessoas se encontravam no fim da manhã de quinta-feira. Um grupo de mulheres recebe a marmita e conta que não costuma ficar ali. “A gente fica na frente do pernoite, do Centro Pop, por ali”, diz uma. Sobre o acesso a alimentação, fala que nem sempre é fácil. “A gente tem que ficar pedindo, né. Mas tem dia que passa fome mesmo”, afirma.

Na porta do Centro Pop, mais alguns recebem o almoço, após o banho e atendimentos oferecidos no local. Nos fundos de vale, casais e grupos de amigos agradecem o alimento. Um jovem sentado no gramado era atendido pela equipe de abordagem e me olha quando digo que sou jornalista, diz que gosta de ler jornal. Todos pedem refrigerante, insistimos para que tomem também água. Já de saída, um tênis esquecido no carro cobre os pés descalços de um deles.

Passando em frente ao pernoite masculino e feminino, muitos já tinham almoçado. As mulheres que se encontravam na Concha mais cedo já estavam lá, esperando a abertura do serviço às 19h. Um homem me conta que é açougueiro experiente e busca uma oportunidade de trabalho. Ele elogia as e os profissionais e a janta oferecida no pernoite: “Ontem teve até pavê”, destaca, dizendo que a sobremesa fora doação de uma estagiária de serviço social.

Nossa peregrinação termina na área central, no prédio onde vive Alessandra e outras 10 pessoas. Um dos jovens, como muitos, nos agradece com um “Deus abençoe”. Antes de sairmos, ele reaparece na porta e repete a benção com a marmita nas mãos.

Data lembra massacre da Praça da Sé

O coordenador local do MNPR, Leonardo Aparecido Gomes, lembra que o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua marca a data do massacre da Praça da Sé, ocorrido há 16 anos em São Paulo, quando 15 moradores de rua foram brutalmente agredidos por policiais e sete morreram.

“Em memória deles, e de tantos outros companheiros que perdemos no caminho, fazemos de todos os dias, dias de luta. Não somos invisíveis, somos invisibilizamos por uma sociedade que nos exclui e não nos enxerga como pessoas”, diz Gomes.

Segundo ele, o papel do movimento é cobrar a efetivação de políticas públicas que beneficiem a população de rua.

“Temos que cobrar os direitos de políticas públicas. No Brasil inteiro tem que melhorar mais a qualidade dos atendimentos nos Centros Pops, muita coisa ainda pra melhorar as condições da população de rua”, avalia.

‘Faz a Boa’ quer expandir ações

O coletivo Faz a Boa nasceu há pouco mais de um ano, durante a pandemia. “Juntei com uns amigos porque eu gosto muito de cozinhar mesmo. Fizemos duas vezes e na terceira decidimos criar um perfil no Instagram”, conta Fábio Anizelli, que é subchef de cozinha.

O coletivo recebe doações e obtém recursos também por meio da venda dos bonés personalizados. As ações ocorrem, no mínimo, duas vezes por mês. “O pessoal acredita mesmo no nosso trabalho, então sempre tem doações“, comemora.

Anizelli tem o objetivo de expandir a atuação do Faz a Boa junto à população de rua. “Estamos com várias ideias legais para por em prática. Vamos começar em Curitiba, com uns amigos de lá. E vamos também fazer uma série, pra começar a explorar outros lados, não só a parte da doação, mas conhecer as histórias da rua também”, revela.

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