Jovem com displasia óssea celebra o amor ao palestrar sobre inclusão

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A mineira Nana Datto confessa que foi escolhida pela profissão que lhe permite falar sobre inclusão social de pessoas com deficiência para diferentes públicos

Mariana Guerin

“Amor. Tudo que eu faço é acreditando que o bem vence o mal.” É disseminando o respeito ao próximo que a mineira Nana Datto, 22 anos, decidiu construir sua carreira de palestrante corporativa e inspiracional. Convivendo com a displasia óssea nas duas pernas desde que nasceu, ela confessa que foi escolhida pela profissão, que hoje lhe permite falar sobre inclusão social de pessoas com deficiência para diferentes públicos.

“Eu falo e trabalho com pessoas, com histórias. Todos nós precisamos e queremos ser amados e respeitados. A luta não é sobre ter mais que ninguém, a luta é sobre ter igualdade de verdade. É sobre as pessoas entenderem que cada um tem um papel importante demais na sociedade e que não tem como a gente avançar se não temos o mínimo: respeito, equidade, empatia e noção”, ensina.

Prestes a se formar em Publicidade e Propaganda, ela realizou o sonho de deixar a pequena Nova Lima, em Minas Gerais, para se aventurar no Rio de Janeiro, onde vive sozinha desde 2018. “Um sonho realizado é morar no Rio de Janeiro. Um grande sonho é me tornar reconhecida pelo meu trabalho e história em prol de uma sociedade inclusiva de verdade, por meio da empatia, respeito e equidade.”

Nascida em Belo Horizonte, ela cresceu feliz em Nova Lima, num ambiente de muito amor e amadurecimento. “Tenho três irmãos: o Felipe, de sangue, e o Rafael e a Fernanda, de coração. Meus pais são separados desde quando eu era bem nova, mas eles se casaram de novo e eu sempre me dei bem com todos. Tenho quatro famílias: da minha mãe, do meu pai, da Lili, minha madrasta, e do Fafa, meu padrasto. Sempre tive muito apoio e amor da minha família. Sou muito apegada neles, até hoje quando estou precisando de um colo, eu corro para Nova Lima.”

Amor para celebrar inclusão

Ela lembra que a adolescência foi mais difícil. “Comecei a ter problemas de autoestima, achando meu corpo feio. Principalmente minha perna torta e minha baixa estatura me incomodavam demais. Eu achava que o problema estava em mim”, recorda a palestrante, que conviveu com o preconceito.

“Os olhares sempre existiram, mas na adolescência as pessoas eram mais cruéis. Falavam que eu não ia achar um cara bacana, falavam que eu não era bonita o suficiente. Toda hora minha capacidade era colocada à prova. Eu realmente achava que o problema ou o defeito estavam em mim. Então, às vezes eu preferia me esconder em casa”, rememora Nana, que pensava melhor, e escolhia sair: “Erguia a cabeça e enfrentava. Mesmo que estivesse destruída por dentro.”

Ela confessa que não sabia que era uma pessoa com deficiência quando jovem. “Na minha infância e adolescência eu não me via. Eu sabia que tinha nascido com displasia nas duas pernas, mas eu achava que eu ia me tornar adulta e que tudo ia ‘normalizar’, inclusive o preconceito iria cessar, pois ninguém tinha me dito claramente: você é uma pessoa com deficiência”, diz Nana, reforçando que a sociedade ainda se refere à deficiência como algo negativo, pejorativo.

“As pessoas preferem não falar do assunto. Eu passei 18 anos procurando métodos e cura para minha perna e para minha estatura. Achando que o problema estava em mim.”

Foi só quando decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro, em 2018, que ela se descobriu. “Em uma apresentação sobre quem eu era, na faculdade, eu me descobri. Eu entendi sobre o meu universo, eu entendi sobre quem eu era. E isso mudou toda a minha vida e a relação com o meu corpo.”

“Eu me perdoei de todas as vezes que eu machuquei minhas pernas para estar dentro de um padrão. Eu ficava horas andando de um lado para o outro, imaginando uma linha reta na minha frente, para que eu pudesse andar o mais linear possível. E aquilo me gerava frustração e incômodo, pois eu tenho um outro jeito e ritmo de andar e está tudo bem”, descreve.

Autoconhecimento culminou em palestras

Seu processo de autoconhecimento foi, sem dúvida, a maior lição que a vida lhe deu até o momento. “Hoje eu não deixo as pessoas venderem fórmulas mágicas, como se eu precisasse de um milagre. Hoje eu sei que não tem nenhum problema ou anormalidade comigo. E é por isso que eu luto, porque eu sei que ainda existem milhares de pessoas achando que o problema está nelas.”

Namorando há seis anos, Nana sempre foi adepta de uma farra e de estudar assuntos de seu interesse. “Se não me interessava, eu enrolava mesmo”, brinca. Nas horas vagas, ela adora ver novelas e reality shows. “Tudo que conta histórias de pessoas reais ou inspiradas em fatos reais me fascina. Eu me enxergo nas histórias e aprendo muito com elas. Eu realmente nasci para lidar com pessoas e histórias”, define a palestrante, que também gosta de ler romances e livros que propõem reflexões e visões diferentes do mundo. “Sou muito eclética com música, escuto do gospel ao funk. Depende muito do meu humor. Mas adoro mpb, pagode, pop, funk.”

Hoje, conviver com a displasia tornou-se algo normal na sua rotina. “Eu nasci com displasia óssea nas duas pernas, ou seja, desde que eu me entendo por gente eu sou assim, me amo assim e faço tudo que eu preciso assim. Tem épocas que eu sinto dores mais intensas e constantes nas pernas, principalmente nos joelhos, mas já me acostumei e vou sempre adaptando até tudo melhorar de novo.”

Sua rotina é bem intensa e agitada: “Sou aquela pessoa que não consegue ficar parada e faz mil coisas ao mesmo tempo. Eu estudo, estou no último período da faculdade, então estou dedicada e imersa no TCC. Trabalho em tempo integral na Globo, na área de marca e comunicação. Também sou palestrante, estudo, produzo conteúdos e me dedico a essa função. E nas horas vagas, faço academia em casa. E sempre que dá (sem pandemia), gosto de viajar, passear, conhecer restaurantes, ir à praia, beber com os amigos etc.”.

As palestras sobre inclusão surgiram naturalmente, conforme ela foi se autoconhecendo. “Eu brinco que eu não escolhi esse trabalho, eu fui escolhida. Eu me reconheci como palestrante em 2017, mas eu gosto de dizer que sou palestrante desde quando me entendo por gente. Eu sempre amei reunir pessoas para falar das minhas experiências e escutar as delas.”

“Eu sempre acreditei em um mundo melhor e mais justo e para isso ser possível precisamos que as pessoas também queiram e façam sua parte. Então eu sabia, desde muito nova, que a minha semente precisava florescer. Eu não sabia como, mas eu sabia que essa era a minha missão. Em 2017, fui convidada oficialmente para contar a minha história de luta e fé para um auditório com umas 60 pessoas e foi ali que aconteceu meu despertar: é isso que eu quero e preciso fazer para o resto da minha vida”, conta Nana.

Desde então, ela faz vídeos, lives e palestras sobre diversos temas, entre eles inclusão, setembro amarelo e saúde mental, propósito de vida e comunicação não violenta na prática da diversidade. Segundo ela, a política de inclusão social não é um problema recente: “É nítido que tivemos um retrocesso muito grande de 2018 para cá, mas também não podemos achar que um dia tivemos inclusão social de verdade no nosso país”.

Inclusão pela equidade

“O que eu sempre digo é: quem está com o poder de decisão, seja ela em nível federal, estadual ou municipal, não tem interesse em fazer diferente, em promover uma inclusão de verdade, que funcione na teoria e na prática. Por que não? Porque não existe essa preocupação ou não acham que seja tão necessário, pois eles não vivem na pele essa necessidade por inclusão e mudança.”

Para Nana, a primeira solução para uma sociedade mais justa e inclusiva é equidade: “Que os cargos políticos tenham diversidade, de todas elas, negros, indígenas, pessoas com deficiência, LGBTQIA+. Pois como você vai falar de assuntos e propor soluções de situações que você não vive e nem sabe como funciona?”.

Militando com apenas 22 anos, Nana mantém um blog, onde escreve sobre os temas de suas palestras inspiracionais. Atualmente, ela tem comentado sobre as Paralimpíadas de Tóquio e faz um convite a todos os brasileiros: que tal torcer pelos atletas brasileiros com empolgação, mas sem capacitismo?

“Minha primeira dica é que você se interesse sobre a rotina, o cotidiano e os diferentes aspectos da vida dos nossos atletas paralímpicos, sem focar apenas na deficiência. Como eu sempre digo em minhas palestras, a deficiência é um aspecto da vida das PCDs, mas não define quem somos. Afinal, somos todos diferentes, com necessidades diferentes, mas direitos iguais”, finaliza a futura publicitária, que se define “metade resiliência e a outra metade vulnerabilidade”.

2 comentários

  1. Aprendo, amadureço e me torno uma pessoa melhor a cada dia com essa luz que Deus colocou na minha vida, minha grande filha Nana!!! Meu amor, meu tesouro!!! Gratidão!!!

  2. Nana Datto exemplo de superação!!
    Através das suas palestras, aprendo e me fortaleço, muito obrigada!!
    Que Deus continue te abençoando imensamente!!

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