Grito dos Excluídos terá programação descentralizada em Londrina

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A 27ª edição do Grito dos Excluídos na cidade começa no sábado e termina na terça para evitar aglomerações por conta da pandemia

Mariana Guerin

Foto em destaque: Divulgação

A 27ª edição do Grito dos Excluídos terá uma programação descentralizada em Londrina este ano, por conta da pandemia. As manifestações começam no sábado e culminam num ato na terça-feira, 7 de setembro, no Conjunto União da Vitória, na Zona Sul da cidade, onde haverá distribuição de cestas básicas. Desde 1994, o Grito dos Excluídos mudou o modo como os trabalhadores comemoram a Semana da Pátria: idealizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a ação convoca anualmente a população invisibilizada pela sociedade a manifestar seus direitos nas ruas dos centros e periferias de todo o País.

Este ano, o Grito terá como tema “Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda, já!”, o qual reflete a crise política e econômica enfrentada pelos brasileiros e agravada pela pandemia do novo coronavírus. “A única forma de mudarmos essa situação é a troca de comando para termos a possibilidade de retomar uma caminhada mais digna. Por isso o Grito não pode ser deslocado da defesa da democracia”, avalia o padre Dirceu Fumagalli, agente regional da Comissão Pastoral da Terra no Paraná e um dos organizadores do ato em Londrina.

Segundo ele, para evitar grandes aglomerações por conta da pandemia, o Grito foi descentralizado em três grandes atos em Londrina. O primeiro será no sábado, às 9 horas, em prol da saúde pública. O movimento irá concentrar-se em frente aos hospitais da Zona Sul e da Zona Norte em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e contra o projeto de privatização de hospitais públicos proposto pelo governo estadual.

No domingo, a partir das 9h30, o grupo realizará um Café Solidário no Centro Cultural Kaingang, que sofreu um incêndio em agosto, deixando algumas famílias indígenas sem moradia. “A ideia é estimular a solidariedade, com a arrecadação de material para a reconstrução das casas queimadas. Com o Café Solidário queremos propor também uma reflexão sobre a questão da falta de teto que, no caso dos indígenas, passa pela demarcação de suas terras”, alerta Fumagalli.

Na terça-feira, 7 de setembro, o grito será no Conjunto União da Vitória 4, no extremo Sul de Londrina. “Vamos descentralizar para a periferia, onde faremos uma celebração em memória do Grito dos Excluídos e sobre o contexto da 27ª edição, que fala de trabalho, renda e comida. Vamos fazer uma caminhada até o União da Vitória 1, onde serão distribuídas cestas básicas à população local, num gesto de reflexão sobre comida”, informa o padre, citando que parte dos alimentos das cestas básicas que serão doadas foram produzidos por agricultores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e parte foram doados pelos movimentos sociais.

Participarão do Grito dos Excluídos em Londrina as pastorais sociais, os coletivos sindicais, o Levante Popular da Juventude, a organização Periferia Viva Londrina, entre outros movimentos sociais. “Será um grito bem articulado e um bom momento reflexivo. Será fracionado, por conta da pandemia, mas esperamos de 300 a 400 pessoas na terça-feira. Será um ato político e de peso, apoiado nas representações dos movimentos, já que não está prevista uma grande marcha para evitar aglomerações”, resume o padre Dirceu Fumagalli.

Grito dá voz à população excluída do programa político da nação

Ele lembra que o Grito do Excluídos acontece em todo 7 de setembro para que a população invisibilizada pela sociedade possa dar seu próprio grito de liberdade. “No 7 de setembro comemoramos o grito pela independência, mas na realidade temos uma multidão de pessoas que não são independentes econômica e politicamente e que não foram incluídas no programa político da nação. O Grito dos Excluídos existe para eles se manifestarem e ocuparem espaços de fala nesse contexto”, explica Fumagalli.

Para ele, mais do que nunca temos uma população de brasileiros excluídos do acesso a comida, teto, saúde, trabalho e educação. “Estamos dando voz aos que não são ouvidos. Se não temos saúde hoje é por conta de uma política genocida”, opina o padre, reforçando que a pandemia tem forçado cada vez mais as famílias a uma situação de miséria.

Só em Londrina, 1,1 mil pessoas viviam em condição de rua antes da pandemia e, segundo o agente da Pastoral da Terra, este número aumentou significativamente no último ano. “Além das pessoas em situação de rua, outro indicativo da crise é o inchaço das ocupações urbanas. Em Londrina, não temos novas ocupações, mas as existentes estão superlotadas. Passaram de 30 a 40 famílias para 90 a 150 famílias. As pessoas estão sendo empurradas para fora da cidade”, lamenta o padre.

Quem quiser doar cestas básicas ou materiais de construção para serem distribuídos pelo Grito dos Excluídos, pode entrar em contato com a agente da Pastoral da Terra em Londrina Isabel Cristina, pelo telefone (43) 99943-7279.

Ato foi inspirado em campanha da fraternidade

A proposta do Grito dos Excluídos e Excluídas surgiu em 1994, a partir do processo da 2ª Semana Social Brasileira, da CNBB, cujo tema era “Brasil, alternativas e protagonistas”, inspirado na Campanha da Fraternidade de 1995, com o lema “A fraternidade e os excluídos”. Entre as motivações que levaram à escolha do dia 7 de setembro para a realização do Grito estão a de fazer um contraponto ao Grito da Independência.

O primeiro Grito dos Excluídos foi realizado em 7 de setembro de 1995, tendo como lema “A vida em primeiro lugar”, e ecoou em 170 localidades. A partir de 1996, o Grito foi assumido pela CNBB, que o aprovou em sua Assembleia Geral, como parte do Projeto Rumo ao Novo Milênio (PRNM). A cada ano, se efetiva como uma imensa construção coletiva, antes, durante e após o Sete de Setembro.

O coordenador nacional do Grito dos Excluídos, Alderon Costa, pede a adesão cuidadosa da população aos protestos. “Neste momento difícil que o Brasil atravessa temos que ‘sair da arquibancada’ e, com todos os cuidados, irmos para as ruas nos juntarmos com as vozes dos indígenas, das periferias, da população em situação de rua, que já são mais de 200 mil em todo o País. Juntar-nos ao grito das mulheres, das pessoas transexuais e travestis, dos trabalhadores (…) que estão cada dia mais perdendo seus empregos, contra a carestia e a inflação.”

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