Luto Colonial

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Dias atrás, conversando com um amigo, íamos discutindo sobre a intencionalidade de se recontar a história imperial numa novela em 2021.

Estamos prestes a completar 200 anos de Independência do Brasil e, muito provavelmente, é motivo de as elites brancas tentarem esquecer o luto colonial e reviver a fantasia dos tempos em que as mulheres eram recatadas e do lar, os negros eram escravizados e indígenas e comunidade LGBTQ+ sequer tinham possibilidades de existência.

Uma telenovela tem a função de entreter, mas também de educar e, no caso de uma novela de época, qual seria a função social senão reviver um passado? A novela se propõe a contar parte da história do Brasil, mas de que parte estamos falando?  E contada a partir da perspectiva de quem?

Pacto Social da Branquitude

O pacto social da branquitude garante o domínio das narrativas e, assim a história do Brasil é contada e recontada a partir do olhar branco eurocentrado do colonizador. Um viés que banaliza questões como a escravidão, a exploração pautada em raça e em gênero e invisibiliza os povos indígenas.

Na versão da história do Brasil contada a partir do ponto de vista do colonizador, as posições de respeito e de heroísmo são sempre ocupadas por homens brancos. Esta versão também cria e reforça estereótipos a partir do momento em que define uma parte como sendo o todo. E assim a história fica restrita a uma única versão, que é aquela contada por quem detém o poder para contá-la.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie, sabiamente diz: comece a história com a flecha dos indígenas, e não com a chegada dos colonizadores, e a história contada será completamente diferente. E eu acrescento, conte a história do Brasil a partir da perspectiva dos negros escravizados e veremos que os tais mocinhos não são assim tão bonzinhos. E que muitos feitos atribuídos a povos europeus, foram criações de pessoas negras, a partir de conhecimentos trazidos de seus países de origem na África.

Imagem dos Negros na Mídia

Todas as vezes em que é dada visibilidade às pessoas negras na grande mídia, é por meio de um retrato alienante. A imagem do homem negro está sempre atrelada ao papel do escravo, do malandro, ou do criminoso. E no caso da mulher negra, pela associação de nossa figura à da mulata, da serviçal ou da mulher raivosa. Reduzir a população negra a este lugar de marginalidade e subalternidade e reforçar estes estereótipos em rede nacional é, no mínimo, perverso.

Confinar as pessoas negras a estes lugares, e somente a eles, é ignorar por completo as feridas causadas em nós pela escravidão e pelo racismo. E romantizar essa história é ainda mais cruel.

Reviver a história da escravidão no Brasil sob essa perspectiva é banalizar a dor e a luta dos povos negros que foram retirados de seus países de origem, tratados como mercadorias, explorados de todas as formas possíveis e mantidos, até os dias atuais, à margem da sociedade.

Mas uma versão negra da história, assim como a versão indígenas dela, não atende aos interesses da elite branca, por isso não é contada. A história do Brasil contada pela novela é resultado do pacto social da branquitude e das relações desiguais de poder de gênero, de raça e também de classe.

A novela atende aos anseios de um grupo a quem interessa que seja enaltecido o homem branco de outrora, inclusive com títulos de nobreza e interessa também relembrar, reviver e enaltecer um tempo de exploração de seres humanos como mercadorias, de mulheres como objetos de decoração e de indígenas como selvagens.

Luto Colonial

A dificuldade do grupo dominante em superar a perda do passado colonial é o que faz com que ele tente viver, por meio da novela, essa fantasia de que o passado triunfará. Ou seja, estamos lidando com a intranquilidade de um grupo que insiste em viver numa lógica colonial. Um grupo que se imagina superior às outras raças e que não consegue associar a ideia de igualdade racial.

Mas as minorias políticas seguem resistindo e, felizmente, avançamos numa trajetória por conquista de direitos, de espaços e de humanidade. Portanto, ainda que a mesma história seja contada por mais 200 anos, as elites terão que amargar o luto colonial, porque enquanto negros e indígenas estiverem em desvantagem social, haverá Rexistência!

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

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