Cense 2 vence prêmio nacional com projetos de leitura e RAP

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Centro de Socioeducação de Londrina leva os dois primeiros lugares em prêmio do Conselho Nacional de Justiça

Cecília França

Foto em destaque: Adolescentes durante Clube de Leitura do Cense 2/Divulgação

Dois projetos do Centro de Socioeducação 2 de Londrina ganharam o 1º e o 2º lugares na premiação “Prioridade Absoluta”, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O “Clube de Leitura” ficou com a primeira colocação e o “Se liga RAPaz”, com a segunda, pela categoria Poder Público – Eixo Infracional. A premiação reconhece um intenso trabalho da equipe do Cense 2, em parceria com o poder judiciário, que vem mudando paradigmas com foco na socioeducação.

“O projeto ‘Clube da Leitura’ e o segundo colocado, o ‘Se Liga RAPaz’, plantou sonhos em quem sempre acreditou em uma socioeducação simples, afetiva, que pode trabalhar todos os temas e sair da velha lógica prisional para reviver sonhos na gente”, disse o chefe do Departamento de Atendimento Socioeducativo (Dease), ligado à Secretaria de Justiça, Família e Trabalho, David Antonio Pancotti.

Para o diretor do Cense 2, Amarildo de Paula Pereira, o prêmio é a coroação de um trabalho feito a muitas mãos. “Os Projetos Clube de Leitura e o Se liga RAPaz foram pensados por nossa equipe para atender os adolescentes internos ao Cense 2 e por sua potencialidade pedagógica com apoio do DEASE, reverberou por todo o Estado do Paraná, evidenciando a força de um trabalho socioeducativo pautado pela horizontalidade das relações”, diz ele.

“Ser premiado a nível nacional é muito bom, traz luz e credibilidade ao nosso trabalho mas, melhor que isso, é ouvir dos adolescentes que esses projetos trouxeram a eles novos sonhos e consequentemente novas possibilidades.”

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Garantir acessos aos adolescentes

Angelita Martins Siqueira, professora de Língua Portuguesa na unidade, diz que o prêmio traz visibilidade para a Socioeducação. “Para a grande maioria da população, os adolescentes estão apenas ‘presos’ pagando pelos ‘seus erros’. É muito importante mostrar que ali dentro ocorre um esforço gigantesco de toda uma equipe para que o menino tenha acesso à cultura, lazer, ao mundo, verdadeiramente”.

Entusiasta da leitura desde antes da consolidação dos projetos, Angelita contribuiu decisivamente para a conquista e montagem da biblioteca Capitães de Areia, e garante que “ os meninos leem muito, independente de encontros do Clube de Leitura ou não! É uma rotina linda e necessária!”.

A professora destaca que o RAP entrou como projeto a partir da demanda dos próprios adolescentes, que o apontaram como instrumento de transformação. Hoje os projetos extrapolaram a cultura hip hop e os adolescentes têm contato com diversidade musical, com acesso, inclusive, a aulas de piano.

“Sobre a relevância desses projetos, ontem, numa audiência de reavaliação, um adolescente tocou Beethoven e Asa Branca para os presentes. Esse mesmo adolescente leu Torto Arado, amou e conversou com o autor. Não é preciso dizer mais nada, é”, finaliza Angelita.

Paradigmas foram quebrados

Os olhos da assistente social do Cense 2, Andressa Cândido, brilham ao falar dos projetos, que abriram o sistema socioeducativo justamente no momento em que o mundo se fechava diante da pandemia. Para ela, o prêmio consolida um trabalho que muitas vezes é banalizado e desacreditado.

“Prêmiações como essa, do Conselho Nacional de Justiça, dá visibilidade às práticas inovadoras, como as nossas, e incentivam os demais para sair da velha lógica prisional do estudar, ‘trabalhar e fazer uma família’. Amplia a visão no atendimento socioeducativo que atenda as necessidades dos nossos adolescentes, desconstruindo preconceitos, barreiras e quebrando paradigmas”, comenta.

Andressa diz que os dois projetos empoderam os adolescentes.

“São encontros para ouvir o adolescente sobre um livro ou sobre RAP, mas, subjetivamente, para ouvi-lo. Espaço de expressão e horizontalidade. Nossos projetos abriram as portas da nossa unidade em tempos mais fechados do que nunca para o mundo e nesses espaços temos refletidos temas tabus e proibidos. O mais significativo também foi a junção das demais unidades socioeducativas, rompemos abismos entre as unidades prisionais de adolescentes e toda sexta feira nos encontrams, adolescentes, servidores e toda rede protetiva”.

Mundo ‘de fora’ entra na unidade

A psicóloga Thayane de Almeida Rodrigues completa o quarteto premiado. Coube a ela o contato com o escritor baiano Itamar Vieira, autor de Torto Arado, um dos participantes do Clube da Leitura. Ela diz que o prêmio só foi possível graças a cada “adolescente, diretor, técnico, agente de segurança socioeducativo do Paraná que foi se achegando, folheando um livro, ouvindo histórias, para aos poucos protagonizar a nossa, um espaço de vozes múltiplas, sotaques tão diversos quantos as ideias que fizeram circular.”

Para ela, os diversos autores e participantes do clube da leitura trouzeram vida “lá de fora” para dentro da unidade socioeducativa e “não saíram de mãos vazias”. “(…) levaram esperança, a amplitude de um olhar alargado para a realidade dos adolescentes e das adolescentes, da potência de um movimento que a partir da literatura fez sua própria história através dos meninos, meninas e toda uma gente que se fez equipe, e que se fez maior do que os limites territoriais”, completa.

O projeto “Se Liga RAPaz” e outros que dialogam com o clube da leitura somaram, sustentando o fazer socioeducativo.

“Quando nosso projeto recebe o olhar e o reconhecimento aos nossos adolescentes, não nas estatísticas das páginas policiais, mas na literatura, no lugar do crescimento e da prioridade absoluta nós certamente comemoramos, muito, e permanecemos firmes na construção da socioeducação que queremos ver acontecer.”

No total, o prêmio contempla 58 iniciativas em todo o País voltadas à promoção, valorização e respeito ao direito das crianças e adolescentes colocadas em prática pelo Poder Judiciário e sociedade civil organizada. A premiação está prevista para ocorrer em solenidade no dia 1º de dezembro, com as respectivas ações inseridas no Portal de Boas Práticas do CNJ. Conheça todos os ganhadores aqui.

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