‘Arte de Maria’: feminismo e antirracismo retratados em colagens

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A designer mineira Maria Rosa, com sua ‘Arte de Maria’, conta histórias de personagens importantes do feminismo negro em cadernos e planners feitos a mão

Mariana Guerin

“Mulher que não desiste da luta, busca e realiza.” Foi assim que a personagem desta coluna se descreveu. Poderia ser também a descrição da minha busca pelo relato dessa mulher. Contar histórias implica em conhecer pessoas dispostas a responder perguntas nem sempre confortáveis. Eu conheci a Maria Rosa por acaso, pelo Instagram. Nem lembro bem como fui parar na página @arte.de.maria, que soma mais de 30,4 mil seguidores e onde a Maria Rosa publica seu trabalho na arte da colagem em papelaria. Eu me peguei lendo um post do dia em que ela finalmente inaugurou sua loja física e pensei: preciso conversar com essa garota.

Entrei em contato com ela, ela topou a entrevista, então enviei as perguntas, mas passaram dias até eu receber uma resposta negativa. Meu questionário é bastante extenso, eu sei. Mas como eu queria muito conhecê-la, ofereci a possibilidade de a resposta vir quando ela se sentisse pronta. Então, hoje, com muito orgulho, vocês também vão conhecer um pouco da vida dessa artista mineira que me instigou e inspirou a coluna desta semana.

A designer gráfica Maria Rosa tem 29 anos e é natural de Três Marias. Foi na zona rural, morando em fazendas, que ela cresceu ao lado dos pais. “Minha infância foi no interior. Meu pai sempre foi trabalhador rural, então sempre morei em fazendas até meus 17 anos. Tive dois irmãos, um não cheguei a conhecer por ter morrido ainda bebê. Ele foi o primeiro filho dos meus pais.  O segundo era meu maninho, José Carlos, que faleceu com oito anos de idade, em um acidente em uma das fazendas onde moramos. Na época, eu tinha sete anos”, recorda.

Maria Rosa conta que teve uma adolescência difícil, “morando sempre muito afastada de tudo e sem possibilidades de interações com outras pessoas e com o resto do mundo”. Ela lembra que em Divinópolis, onde morou antes de ir para Belo Horizonte fazer faculdade, não pegava nem sinal de telefone direito.

“Eu adorava ir para a escola, não porque gostava muito de estudar, mas era onde encontrava minhas amizades. Sempre me destaquei nos estudos, mesmo sendo muito bagunceira”, diz a designer, confessando que apesar de não ter sido muito namoradeira, beijou muito. “Meus pais me seguraram muito na minha adolescência, então quando eu tinha oportunidade eu não deixava passar”, brinca.

‘Arte de Maria’: ressignificando a realidade

Um início de vida permeado pela perda dos irmãos e do contato com amigos deixou marcas na mineira, que decidiu usar seu trabalho para ressignificar sua realidade. “Minha vida é toda marcada de acontecimentos traumáticos, mas o trabalho que faço hoje é o contrário do que tive. A lição que tirei disso é que preciso conscientizar as pessoas para algumas problemáticas que muitas não fazem ideia de que existem e nem que estão inseridas nela. Hoje trabalho para espalhar informação e representação para quem não teve e não tem. Alertar sobre racismo e sobre machismo.”

Em sua papelaria em Belo Horizonte, ela produz arte inspirada em grandes mulheres da história mundial. “Já realizei o sonho de me emancipar vivendo de arte. Estar me tornando uma voz potente e influenciadora é uma realização também. Pretendo, futuramente, abrir uma ONG que auxilie crianças vítimas de abuso, ser uma empresa grande, que emprega mulheres minorizadas e transforma socialmente de todas as formas”, lista Maria Rosa, que ainda sonha com a casa própria. “E pretendo, também, conhecer toda a América Latina ou, como diria Lélia Gonzalez, toda a ‘Améfrica Ladina’.”

Colagem exalta histórias de mulheres fortes

Formada em design gráfico, Maria Rosa se apaixonou pela colagem durante o curso. “Hoje sou conhecida como colagista e utilizo da técnica para exaltar, representar e contar histórias de mulheres fortes e potentes para nossa luta. Essa arte é aplicada em produtos de papelaria para que a informação e a arte cheguem com mais facilidade até as pessoas, em um produto essencial e afetivo”, descreve.

Entre suas conquistas profissionais, ela ressalta o momento em que foi a artista da semana no programa Encontro com Fátima Bernardes e quando fez uma parceria artística com Eliane Dias, empresária e feminista. “Tive o prazer de conhecer pessoalmente Conceição Evaristo, uma das autoras que homenageio nas artes, e ver que ela apoia e gosta do meu trabalho. Me tornar microempresa, abrir minha loja física, enfim, muitas realizações.”

“Meu trabalho eleva, dá escuta e faz com que mulheres negras consigam se ver representadas em rostos de mulheres fortes e revolucionárias. Abordo questões de raça e gênero para que meu público se conscientize e passe para frente a informação de forma antirracista e empática”, explica Maria Rosa, que além da loja física, mantém uma loja virtual, que contém um blog onde ela conta mais sobre seu processo criativo e as personagens que lhe inspiram.

“Uma vez, recebi um feedback emocionado de uma cliente que comprou um caderno com a representação da Aqualtune, princesa do Congo e dos Palmares. Ela disse como foi importante poder comprar um caderno que tinha a arte de uma princesa que se parecia com ela, que era uma princesa real e muito diferente das princesas da Disney. Essa é a importância do meu trabalho e é por isso que não desisto”, reforça a designer.

Quando não está produzindo itens de papelaria como cadernos, planners, calendários, pôsteres e adesivos com colagens de imagens de mulheres como Antonieta de Barros, Dandara, Aqualtune, Ângela Davis, Conceição Evaristo, Chimamanda, Marie Curie, entre outras, ela gosta de assistir séries e ler. “Tenho lido os livros das autoras que conto as histórias e escuto de tudo um pouco. Acho que cada momento pede um ritmo diferente. Isso em um contexto de pandemia, que não dá para sentar-se em uma mesinha de bar para conversar, porque amo também.”

Aliades em causas importantes

Para ela, mais importante do que ser feminista em uma sociedade machista, é ser feminista negra em uma sociedade machista e racista. “É difícil ter que trabalhar inúmeras vezes mais para conseguir o mínimo do que um homem branco consegue sem fazer muito esforço, mas eu nunca fui do tipo de pessoa que desiste de algo.”

“Minha causa é feminista e antirracista e acho que não temos que nos atentar apenas às nossas causas, podemos também ser aliades de outras tão importantes ou mais importantes que as nossas. Acho que a sociedade precisa de uma grande mudança em vários aspectos e tudo começa com a informação e acesso a ela, seja com palavras pacíficas ou protestos, de alguma forma precisamos nos fazer ter escuta, porque fala sempre tivemos”, ensina.

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras. Siga @bolachinhasdamari

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