CECA cria Comissão de Prevenção à Violência Sexual e de Gênero

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Após questionar a contratação de professor suspeito de assediar alunas, movimento estudantil celebra decisão da universidade de não efetivar o docente

Mariana Guerin

Em reunião realizada na última segunda-feira (13), foi aprovada, por unanimidade, a formação da Comissão de Prevenção à Violência Sexual e de Gênero do Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

A criação da comissão é uma resposta aos estudantes do curso de Jornalismo da UEL, que, em agosto, realizaram uma roda de conversa intitulada “Comunicação UEL Contra o Assédio” para discutir a possível contratação de um professor que foi aprovado em teste seletivo, mas é suspeito de ter cometido assédio sexual contra diversas alunas. As estudantes comemoraram a decisão da universidade em não efetivar o docente.

“Sem dúvida alguma tranquilizou não só a mim, mas a todas as pessoas que se sentiram ameaçadas de alguma forma por esse professor que entraria na faculdade”, comenta Geovana Ferreira, 17 anos, aluna do primeiro ano de Jornalismo noturno da UEL.

“Eu fiquei muito contente quando soube da notícia e do quanto a movimentação de diversos estudantes fez toda a diferença. Acho que isso é o mais surreal de tudo! Do quanto podemos mudar determinadas questões que acontecem na nossa sociedade. Se não fossem essas mobilizações e a contribuição do colegiado, dos professores e da faculdade em si, isso não teria acontecido. Mas eu fiquei extremamente contente em saber disso”, completa Geovana.

Para Isabella Abrão, 21, aluna do terceiro ano de Jornalismo da UEL, foi uma vitória dos estudantes. “Nós estamos muito satisfeitos com isso. Dá uma sensação de vitória mesmo e a gente percebe que com união e com organização é possível a gente conseguir tudo, inclusive questões sérias como essa. Então estamos todos muito felizes, muito satisfeitos com o resultado da nossa movimentação”, declara.

Com a Comissão de Prevenção à Violência Sexual e de Gênero, o CECA espera constituir uma rede de suporte para estudantes vítimas de violência sexual e prevenir que tais violências ocorram, promovendo ações concretas de suporte e prevenção. A Comissão do CECA se inspira na Comissão de Prevenção à Violência Sexual e de Gênero do Centro de Letras e Ciências Humanas (CLCH), criada em 2017, e nos relatos de assédios no campus levantados pelos alunos de comunicação.

Segundo a professora do Departamento de Comunicação Márcia Neme Buzalaf, a iniciativa partiu do corpo de estudantes e cada departamento e órgãos vinculados ao CECA deverá indicar um nome para integrar a comissão, que será oficializada posteriormente, mediante portaria.

Conforme Márcia, além dos membros nomeados, grupos de pesquisa que também discutem a violência já demonstraram interesse em fazer parte da comissão. “A comissão exercerá o importante trabalho de acolher as vítimas e encaminhar as denúncias às instâncias competentes, com ênfase no apoio de todas as formas, seja psicológico, jurídico, entre outros”, cita a docente.

Cenário de violência aponta culpabilização da vítima

Um artigo intitulado “Protocolos de prevenção e enfrentamento da violência sexual no contexto universitário: uma análise do cenário latino-americano”, publicado, este ano, na revista Saúde e Sociedade, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), identificou que de 100 universidades latino-americanas pesquisadas, 60 não possuíam protocolos para prevenir casos de assédio e amparar as vítimas.

Ao contrário, existe a recorrente culpabilização da vítima – violência institucional -, que frequentemente tem sua palavra, quando ouvida, posta em dúvida. Este cenário desestimula a denúncia e agrava o ciclo de violência.

Há poucos dados sobre a violência sexual e de gênero na UEL. O SindiProl/Aduel fez uma pesquisa sobre as violências praticadas no campus entre 2015 e 2017. Conforme dados do estudo, publicado em março de 2018, os casos de assédio sexual registrados na UEL somaram apenas três ocorrências em 2015 e nenhuma em 2016 e 2017.

Ainda conforme a pesquisa, dados consolidados disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná, relativos a crimes cometidos em Londrina em 2015, 2016 e 2017, apontaram 307 casos de crimes contra dignidade sexual em 2015, 303 em 2016 e 337 em 2017.

Os registros de assédio sexual protocolados na UEL representam apenas 0,03% dos crimes desta natureza registrados na cidade em 2015 e 0% em 2016 e 2017.

Ações da comissão incluem diálogo com CLCH

A Comissão de Prevenção à Violência Sexual e de Gênero deve participar da recepção de ingressantes do CECA, promover eventos sobre o tema, relacionar-se com grupos de pesquisa e extensão sobre esta temática e acolher e encaminhar denúncias de violência contra mulheres e as pessoas LGBTQIA+ aos canais competentes.

Márcia Neme Buzalaf observa que o diálogo com a comissão do CLCH será constante e intenso, já que o Centro de Letras e Ciências Humanas foi pioneiro na iniciativa. Além disso, a professora antevê a criação de uma política institucional, que será implantada no intuito de prevenir e combater todas as formas de violência na UEL e de suporte para as vítimas.

(Com informações da Agência UEL)

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