Leitura infantil: contar histórias também é brincar

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Debate virtual realizado pelo Ecoh explica como aliar contação de histórias e brincadeiras pode incentivar a leitura em crianças de 0 a 3 anos

Mariana Guerin

Contar histórias também é brincar. Como aliar brincadeiras e leitura na construção do vínculo do artista, do educador e da família com as crianças foi o tema de um debate virtual que aconteceu esta semana no canal do Encontro de Contadores de Histórias (Ecoh) no Youtube.

A mesa virtual “Histórias e brincadeiras com os pequeninos” contou com a participação da docente do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Cassiana Magalhães, a professora de Educação Infantil Carolina Matos e os atores e contadores de histórias Marlon Chucruts e Leticia Lisenfield. Eles debateram a importância destas atividades para o desenvolvimento de crianças de zero a 3 anos. A mediação foi da produtora do Ecoh, Gracieli Maccari.

A professora Carolina Matos, que trabalha com educação infantil desde 2003, trouxe ao debate sua experiência em sala de aula, de como as histórias e brincadeiras, especialmente as brincadeiras populares, aquelas que aprendemos em casa, fazem parte da rotina e da construção de todo o trabalho da educação infantil.

“O ser humano, na sua constituição, que inicia nesse momento bebê, é um eterno leitor:  um leitor de si, do outro, do mundo, da vida, dos acontecimentos e um leitor de palavras. No nosso contexto social, as letras, as palavras de um texto, a escrita, a leitura são muito importantes. Fazem parte da construção das relações. Então, aprender a ler e escrever é algo muito valioso e necessário para a sobrevivência. Não é à toa que tivemos momentos históricos de fortalecimento da alfabetização, como a educação de jovens e adultos. Tudo para que seja uma sociedade realmente apta a fazer uma leitura e uma escrita com autonomia.”

“Acredito que nosso momento de encantamento para chegar a um livro com autonomia e ser gostoso é, sim, ouvir histórias e ser ouvido contando histórias”, opina Carolina, lembrando que existem muitas formas de contar uma história.

Contação de histórias ‘cria’ leitores com autonomia

“A contação vai permitir que a criança, o bebê, desde pequeno, vá se encantando, vá se envolvendo, até que, no momento da sua história pessoal, ele seja um leitor com autonomia. Um leitor com autonomia significa também um escritor com autonomia, uma pessoa crítica, com percepção do que está lendo, com escolhas do que se lê e tudo mais.”

“Como educadora, eu percebo que, em Londrina, a gente tem uma oferta maior de materiais, então as crianças têm tido mais acesso aos livros e tem um ‘lado benéfico’ da internet, com as interações, então você encontra hoje mais cursos, mais possibilidades. O Ecoh, por exemplo, fez várias oficinas muito bacanas para professores interessados em contar histórias, instrumentalizando esse corpo e essa voz para contar história”, avalia a educadora.

Para ela, uma preocupação é se os adultos estão sendo exemplos suficientes de leitura para as crianças, “porque ver o adulto lendo é uma forma de sustentar também o desejo deles pela leitura”. “Eu percebo em alguns educadores a necessidade de procurar se encaixar em histórias diferentes, tempos e espaços diferentes, povos diferentes. Claro que é muito bacana trazer essa diversidade humana por meio das histórias. A gente aprende na relação com o outro, então, quando a criança observa o outro lendo, pesquisando, ela vai querer fazer o mesmo.”

Carolina alerta sobre a preferência das crianças em ver o filme ao invés de ler o livro, especialmente na literatura infantil. “É bem complexo porque muitos materiais são de qualidade inferior, com textos muito simplistas e ilustrações estereotipadas, que desconsideram toda a potência da criança de se apropriar do texto.”

Outro fator que compromete a leitura, na opinião da professora, é a escola considerar a leitura apenas como ferramenta pedagógica. “O cerne de tudo isso é o prazer. O prazer de ler uma história, de ouvir, de contar, de recontar, essa oralidade, essa troca. A importância do que eu falo e de que você me escute, porque o que a gente fala importa”, alerta a educadora.

“Se toda vez que a história aparecer ali só para aprender aquilo e não poder extrapolar, transbordar, sentir, vivenciar, degustar a história, então é como se você lesse só para fazer uma prova e isso compromete muito prazer e a formação de leitores”, opina Carolina.

Relação entre brincadeira e leitura é fundamental

Para a atriz e contadora de histórias, mestre em Comunicação e Artes pela Universidade Nova de Lisboa, Leticia Liesenfeld, a relação entre a brincadeira e a leitura é fundamental. “Seria muito importante que a gente introduzisse no ambiente de brincar a leitura como mais um elemento do jogo. Muitas vezes, nós, adultos, separamos isso.”

“A relação da criança com a leitura ganha muito quanto mais ela é integrada na ideia de brincar, do jogo, do abrir livro e do poder percorrer aquelas páginas fazendo uma leitura, aproveitando a questão visual que o livro traz, aproveitando as texturas do objeto livro e que ela possa visitá-lo quando ela quiser, que ela não tenha uma obrigação de ter um momento especial da leitura”, comenta a atriz.

Para ela, é ótimo se os pais ou os cuidadores da criança puderem ler para ela, “mas que ela também possa se aproximar do livro sozinha, que ela possa também ter o livro junto do ambiente de brincar”.

“A gente tem um país muito desigual, então, quando a gente fala em leitores, quando a gente fala na aproximação, na relação da criança com o livro, a gente tem que pensar em todo um panorama, que é muito diverso. É muito difícil falar disso no Brasil como algo unificado. De fato, é preciso uma delicadeza de abordagem, mas com certeza a literatura nas infâncias ganha muito se é vista também como ligada ao brincar.”

Segundo Leticia, a pandemia “contribuiu” para um aumento na procura e nas vendas de livros, “isso desde o adulto até a criança, mas, com certeza, a literatura para a infância tenha tido ainda mais destaque”. “O que reflete um pouco a situação dos pais e cuidadores, mas numa situação mais fechada, mais em casa, e o que pode proporcionar para que essa criança se desenvolva e continue fazendo as viagens.”

“Eu sempre entendo muito a leitura como uma espécie de viagem, mesmo que ela não esteja experimentando o mundo de uma forma tão direta, que ela possa experimentar o mundo e o que ele traz de experiência e conhecimento através da leitura. Isso tem sido, no mínimo, mais estimulado como hábito e a gente espera que se mantenha assim”, comemora Leticia.

Leitura e contação proporcionam o desejo de conhecer

Pós-doutora em Educação pela Universidade de Évora, Cassiana Magalhães entende tanto a leitura como a contação de histórias, com recursos variados, como uma maneira de criar necessidades nas crianças, como o desejo de ler e de conhecer. “É importante ressaltar que as histórias contribuem para o desenvolvimento da percepção, da linguagem, da atenção, da memória e do pensamento, funções que precisam ser desenvolvidas. Por meio das histórias, as crianças entram em contato com diferentes ideias e estabelecem relações com outras ideias e situações que já viu, ouviu, experimentou, sentiu”, explica.

Ao contrário do que pensa Leticia, Cassiana vê crianças e pais mais vinculados aos aparelhos eletrônicos, em pouco contato com os livros. “A leitura precisa ser apresentada para as crianças. Em outras palavras, o adulto precisa encantá-las. Criar o desejo do ato de ler. Quanto mais e melhor as histórias forem contadas e lidas, maiores serão as possibilidades de as crianças se aproximarem do universo literário”, propõe a professora.

Ela acrescenta que é importante que as crianças tenham acesso aos materiais de leitura, “que possam manuseá-los, observá-los, aprender por meio da participação em situações de leitura e como usar esses materiais vendo o adulto fazer uso”.

Segundo Cassiana, os diferentes recursos e linguagens utilizados contribuem para o encontro da criança com a literatura. “Sempre lembrando que o livro é o ‘portador’ da história, por isso, a importância de apresentá-lo para as crianças.”

“É um movimento: a leitura e contação de histórias fomentam a arte e a brincadeira, ao mesmo tempo, a arte fomenta a literatura que fomenta a arte. Cabe ressaltar tanto a importância das experiências com as crianças, como a escolha dos materiais, com qualidade de texto e imagens, capazes de provocar nas crianças a vontade de aprender, de conhecer, de ouvir a história novamente”, completa a professora.

Brincadeiras ensinam a ler e escrever de forma leve

O pedagogo Marlon Chucruts pesquisa brincadeiras, canções, linguagens artísticas, educação e contação de histórias. Já percorreu a rota dos contos de fadas na Alemanha, intensificando sua pesquisa sobre os contos dos irmãos Grimm. Em 2007, se apaixonou pela arte de contar histórias e criou a Cia. Malas Portam, se apresentando em nove estados brasileiros e representando o país em festivais internacionais de contação de histórias. “Acredito que o ato de contação de história é fundamental para a formação de pequenos leitores, pois amplia o vocabulário, apresenta formas diferentes da escrita e amplia a capacidade de imaginação”, define.

Segundo ele, as crianças brasileiras ainda não leem muito. “Essa resposta depende muito de qual região do nosso país estamos falando. De qual classe social nos referimos. Infelizmente, não somos um país de bons leitores”, opina Marlon, citando a falta de programas educativos que incentivem a literatura nas escolas e o alto valor a ser pago em um bom livro como empecilhos à leitura infantil.

“Posso falar de experiência vivida. Antes de conhecer o teatro, não tinha muito acesso a livros. Foi atuando que fui descobrindo autores e histórias que me incentivaram a ter uma vida mais ativa com a leitura. Ampliando meu repertório literário”, confessa.

Para ele, as brincadeiras possibilitam aprender a escrita de uma forma leve e gostosa. “E posso falar isso com propriedade, pois fiz a publicação do meu livro ‘99 brincadeiras cantadas’ pela editora Sesi-SP por incentivo de uma professora que cantava em sala de aula as brincadeiras cantadas, me fazendo querer entender como aquelas palavras que estavam soltas pelo ar se transformavam em escrita. Então, comecei a colecionar e ampliar meu repertório como leitor”, sugere.

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