Lorena é feminista!

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Crônica de ficção baseada em uma realidade bem real

Lorena é o nome dela. Mulher negra, diarista, mãe de dois filhos, avó. Retrato de tantas e tantas brasileiras. Mas Lorena, Lorena é única, assim como cada uma das mais de 58 milhões de mulheres negras no Brasil.

Tentei entrevistá-la dia desses para o jornal, e ela me respondeu:

– Deixa de ser tonta! Me entrevistar pra quê?

Expliquei que sou uma feminista negra e antes que pudesse acrescentar qualquer outra informação, Lorena me interrompeu.

– Não gosto desta história de feminismo, de ativismo ou desse monte de “ismos” que não ajudam em nada na lida do dia-a-dia.

Lorena disse mais algumas coisas que a distância e a máscara não me deixaram captar, mas aceitou conversar, desde que sem frescuras e se ela dissesse algo de útil eu poderia usar para o jornal. E assim começou nossa conversa, à distância, mais de três metros, porque Lorena está com covid-19.

– Só vou falar com você porque é preta também. E mulher preta nesse país não adianta, tem que se unir, porque sofremos tudo igual por causa do racismo e por causa dessa homarada que só quer tirar vantagem da gente.

Lorena me contou que tentou o quanto pode se esquivar da “praga do século”, como ela chama o vírus e também o presidente, mas foi pega na última semana por ele. Digo o vírus, não o presidente. Este não sabe de sua existência, não se importa. O outro, o vírus, não escolhe cor, raça nem gênero.

– Escolhe sim, moça! – diz ela me corrigindo.

– Vocês estudam, mas não percebem que o vírus escolhe sempre nós pobres, nós os pretos, nós mulheres, porque para a gente o vírus tem passe livre.

E Lorena tem razão, para as mulheres pobres, da periferia, em sua maioria mulheres negras, o isolamento não foi possível durante a pandemia. A necessidade de colocar comida na mesa fez com que saíssem todos os dias de casa para trabalhar.

– Mas sempre me cuidei! Nossa, como me cuidei! Mas agora, esse diacho desse vírus me alcançou. E só estou aqui de trololó com você porque não tenho como ir trabalhar. Faço faxina cinco dias da semana e trabalho como manicure no sábado, mas por causa da praga vou ficar quinze dias em casa. Quem paga minhas contas? A patroa, que me passou o vírus, me pagou uma diária para eu ficar em casa, mas e os outros dias? Quem paga?

– Acham que nós pobres somos tontos, mas sei fazer essa conta rapidinho e sei falar o preço das coisas todas do supermercado. Não o preço das comidas de granfinos, mas o arroz e feijão, as comidas de gente simples, sei tudinho. Faço as contas tudo aqui de cabeça mesmo, porque se você não sabe contar, não sobrevive.

– Pensam que pobre é burro. Pobre é mais inteligente que muito doutor por aí. Pobre só se faz de bobo pra sobreviver.

– Acho engraçado que vocês vão para a escola estudar tudo aquilo que nós aqui na periferia já sabemos de cor. Esses dias a menina da vizinha veio com uma história lá de colorismo. Falei pra ela: – Preto escuro sofre mais que preto mais claro. Ela ficou boquiaberta, perguntou se eu já tinha estudado fulano, sicrano e não sei quem mais. Eu respondi que não. Que besteira! Acha que tenho tempo pra isso! Eu sei sobre esse tal de colorismo porque sou mulher preta e basta olhar pra saber que inteligente como sou, se fosse mais clara tava trabalhando numa loja ou num escritório, mas como Deus me deu três demão de cor, tô eu aqui, de diarista em casa de madame.

Passei cerca de uma hora sentada na varanda conversando com Lorena. Em alguns momentos ríamos um riso solto, como se fossemos íntimas, em outros me sentia completamente distante dela. Mas ali estávamos nós, duas mulheres pretas conversando sobre nossas experiências. Sobre ser mulher e sobre ser negra.

Num dado momento o silêncio se instaurou, mas não era um silêncio desconfortável. Era apenas o silêncio de duas mulheres que se reconhecem. E ela disse:

– É, tô achando que esse feminismo aí que você fala serve pra todo mundo.

Fiquei emocionada. Uma das intelectuais negras que mais admiro, Bell Hooks, defende exatamente a ideia de que o feminismo é para todos e ali, na minha frente estava ela, Lorena, discutindo pautas importantes do feminismo negro com a sabedoria de quem conhece com precisão o peso das violências que nos atingem por sermos mulheres e por sermos negras.

Percebendo isso, falou:

– Você fica confusa porque nós somos tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo. É só que nós somos humanas, somos gente e gente é assim.

Assenti com a cabeça, ainda emocionada. E ela prosseguiu.

– Tô aqui, fia. Só não te abraço porque você sabe, né?! O tal do vírus, mas passa aqui em casa outro dia. Quando as coisas estiverem melhores, compro um café e a gente conversa mais um pouco sobre a nossa resistência. E ah, gostei de falar com você. Foi bom! Pode escrever lá para o jornal que eu também sou feminista. É, põe:  A Lorena é feminista!

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

3 comentários

  1. Lorena é o retrato de muitas mulheres brasileiras que buscam apoio uma nas outras para viver(sobreviver) nessa sociedade… parabéns Ana! Excelente crônica!!! Muito inspirador ❤️🖤💚💛💜🤍🤎💙🧡

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