Opinião: Pode o LGBT falar?

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Por Marselle Nobre de Carvalho*

Foto em destaque: Raphael Renter/Unsplash

Inspirada no livro Pode o subalterno falar?, da pensadora indiana Gayatri Spivak, começo esse texto perguntando: podem ter voz gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, assexuados, intersexuados e uma gama enorme de outras possibilidades de gêneros?

Antes de responder a essa questão, pergunto primeiro se os LGBTs podem existir? Alguns responderão prontamente que sim, é claro. Podem existir sim. “Tenho um amigo gay, uma prima lésbica, um vizinho ou vizinha trans. Eles existem!”. Quem nunca ouviu essas expressões. Também é fato que há quem deseje que “eles” não existam. Há quem pense que são doentes, marginais, violentos e que precisam ser “varridos da face da Terra”.

O pensador esloveno Slavoj Zizek, em seu livro Violência, nos convida a refletir sobre os diversos tipos de violência na sociedade capitalista contemporânea, em que os direitos humanos estão assentados no direito de não ser assediado, ou seja, no direito de permanecer a uma distância segura dos Outros,  e que o medo passa a ser elemento mobilizador da ação política: o medo dos imigrantes, o medo do crime, o medo da liberdade sexual ou religiosa, o medo da intromissão excessiva do Estado nas relações. etc. O medo do Outro acaba por resultar em violências justificadas, e até naturalizadas, porque o “outro” é o inimigo, e não é visto como alguém semelhante a mim.

Além do medo, Zizek nos alerta que na sociedade capitalista “não basta ganhar, o Outro tem que perder”. A violência é impulsionada pela preocupação excessiva com o Outro, sobretudo aquele que tem o que não temos e que, se continuar a ter o que queremos ter sem tomar o que ele tem, não poderemos controlá-lo e explorá-lo.

Em relação ao direito de existir das pessoas LGBTs, recorro a Zizek para refletir primeiro sobre aqueles que desejam “varrer os LGBTs da Terra”. Para essas pessoas, não basta a garantia do seu próprio modo de existir. Precisam ir além e aniquilar o outro que “ameaça o seu modo de existência”. Em suma, quem não segue o padrão imposto por essas pessoas, não tem o direito de existir.

Como mencionei anteriormente, há quem “permita” e até “reconheça” a existência das pessoas LBGTs. Contudo, reconhecer a existência não torna o comportamento dessas pessoas menos violento do que o daqueles que desejam a aniquilação dos LGBTs. Os LGBTs podem existir, contanto que “permaneçam a uma distância segura”. Ora, permanecer a uma distância segura pode significar tanta coisa. Os LGBTs podem existir contanto que não se expressem publicamente; podem existir contanto que sejam “socialmente passáveis”, ou seja, ocupem posições sociais sem que as pessoas saibam da sua sexualidade e/ou gênero. Podem existir contanto que aparentem aquilo que sociedade espera, do padrão imposto por um grupo suspostamente hegemônico que dita as regras sociais. Podem existir contanto que se expressem como são nos guetos e nos cercados destinados a eles, longe dos olhos ferozes e amedrontados da sociedade.

Me apoiando nas ideias de Spivak, que pergunta se o subalterno pode falar e se refere exatamente sobre a possibilidade de camadas baixas da sociedade terem suas lutas e reivindicações inseridas no discurso hegemônico, retomo a questão: os LGTBs podem falar? Poder falar significa terem espaço social garantido para a sua expressão como sujeitos políticos.

Para Spivak, os subalternos – aqui traço um paralelo com as pessoas LGBTs – não podem falar porque sempre têm a sua voz intermediada por outrem e, geralmente, “passam a ter voz” por meio de alguns intelectuais, que acabam se colocando na posição de porta-vozes e abrem caminho para a sua fala em espaços aos quais possivelmente não chegariam sozinhos. Mas isso é pouco, muito pouco, porque os LGBTs pensam, formulam e falam por si, dentro da sua diversidade de ideias e demandas.

Termino aqui afirmando que existir, todos existimos. Todavia, alguns vivem, outros sobrevivem. Por que tanta desigualdade? Somos diferentes, mas não deveríamos ser desiguais, sobretudo nos direitos. As diferenças não deviam ser argumentos para a exclusão, para o silenciamento. Ora, a humanidade é diversa e plural. Por que precisamos aniquilar ou alijar da sociedade “o diferente”? Não podemos coexistir? Se podemos e devemos coexistir, por que uns têm voz e outros são silenciados?

As pessoas LGBT existem e podem (e devem) falar!

*Marselle Nobre de Carvalho: lésbica, professora, pesquisadora, cidadã

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