fashion man love people

Alzheimer corresponde a 60% dos casos de demência no mundo

Publicado por

Em setembro, celebra-se o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença de Alzheimer, com o objetivo de esclarecer a população sobre a importância do diagnóstico precoce da doença

Mariana Guerin

Foto: Pexels

Em 21 de setembro, celebrou-se o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença de Alzheimer, uma enfermidade que corresponde a 60% dos casos de demência no mundo. E, anualmente, a associação Alzheimer Disease Internacional (ADI) publica um relatório sobre a Jornada do Diagnóstico da Demência, com dados mundiais, com o objetivo de esclarecer a população sobre a importância do diagnóstico precoce da doença.

Segundo dados da pesquisa deste ano, a subnotificação de casos demência chega a 75% em todo o mundo e esse número sobe para 90% em países mais pobres, como o Brasil. Uma em cada três pessoas entrevistadas pela ADI acredita que nada pode ser feito após receber o diagnóstico da doença. Outro dado importante do estudo é o aumento dos casos de demência no mundo, que podem ir de 55 milhões para 78 milhões até 2030, com a falta do diagnóstico precoce.

Este ano, o relatório apontou ainda o impacto da covid-19 em pacientes com Alzheimer. Segundo a presidente da Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz), Elaine Matheus, docente na Universidade Estadual de Londrina (UEL), o material produzido pela ADI é um dos mais importantes na área e mostra como o diagnóstico a tempo permite que as pessoas planejem a vida e organizem o futuro, fazendo escolhas que garantam qualidade de vida no processo de desenvolvimento da doença.

“Um dos aspectos tratados no relatório é o impacto sobre aqueles que já vivem com diagnóstico de Alzheimer e que, no processo de isolamento e distanciamento físico, sofreram bastante porque perderam em estímulo, em presença, perderam na possibilidade de manterem suas memórias, suas atividades ativas. Então, é um estudo que vai indicar como é que nós podemos, mesmo diante da pandemia, buscar manter a atividade de interação da melhor maneira possível, com a maior presença possível”, pontua Elaine.

Ela ressalta que o relatório fala ainda de estudos que têm analisado os efeitos, ainda pouco conhecidos, da covid em pacientes com demência. “Estima-se que possa haver consequências de médio a longo prazo no comprometimento cognitivo das pessoas, em razão de terem contraído a covid. Sem dúvida é um relatório importante. É sempre uma referência nos estudos no campo das demências”, opina a professora, citando que a pesquisa foi aplicada em mais de 100 países e contou com mais de 3,5 mil respostas.

Alzheimer é o tipo de demência mais comum

Elaine explica que o conceito de demência é um termo guarda-chuva que trata de várias doenças: “A doença de Alzheimer é o tipo de demência mais comum, corresponde a 60%, aproximadamente, dos casos de demência, mas não é a única. Quando a gente fala em demência, falamos de uma síndrome que abrange um conjunto de algumas doenças como Corpos de Lewy, AVC, doença de Parkinson, doença do lobo-frontal”, cita.

De acordo com Elaine, o diagnóstico é clínico, então é importante procurar um profissional da área da saúde, como geriatra, neurologista ou psiquiatra e realizar o exame clínico, embora existam outros exames que podem ser solicitados para confirmar ou dar mais clareza ao diagnóstico.

“O diagnóstico elimina outras causas que provocam confusão, alteração na memória e comportamento e, eliminados esses fatores, começa-se a investigar a doença de Alzheimer ou outro tipo de demência.”

O sinal mais comum da doença de Alzheimer é a perda da memória. “É importante dizer que é uma perda da memória de fatos, como se eles nunca tivessem acontecido. É um apagamento de partes da história, de momentos da sua vida ou de coisas que você fez. É uma perda de memória que gera bastante angústia e sofrimento.”

“Mas outros sinais são importantes de serem observados: dificuldade em resolver problemas e coisas que são comuns no cotidiano, se atrapalhar com as finanças, dificuldade para fazer planejamento, completar tarefas comuns do dia a dia. Também a confusão com o espaço e com o tempo, não reconhecer em que dia está, se perder com mais facilidade, dificuldade para encontrar palavras, então começa a substituir, a gaguejar mais, às vezes até inventa palavras, elenca Elaine.

“Às vezes, pode ser a manifestação de julgamentos pobres, equivocados em relação a situações, um distanciamento das atividades sociais, um isolamento que se confunde muito com tristeza, com depressão. Todos esses são sinais importantes de serem observados e quem normalmente observa e percebe são pessoas que têm um convívio próximo”, completa a professora.

Segundo ela, é preciso investigar e o tratamento está relacionado aos sintomas. São tratamentos que vão lidar com a depressão, com a angústia, com a mudança de comportamento, a perambulação, mas também alguns medicamentos que são prescritos na tentativa de retardar a velocidade do desenvolvimento da doença.

 “Quanto às formas de prevenção, sabemos que não há muito o que fazer com fatores de risco não-modificáveis, como a idade, fatores hereditários e genéticos, embora acredite-se que fatores hereditários têm menor influência do que o ambiente e as escolhas que fazemos ao longo da vida. Mas hoje são conhecidos 12 fatores de risco sobre os quais podemos atuar, entre eles, nível educacional, tabagismo, consumo abusivo de álcool, diabetes, hipertensão, obesidade, sedentarismo, perda auditiva.”

Estigma da Doença de Alzheimer contribui para isolamento

Entre as principais dificuldades que as pessoas com Alzheimer e seus familiares enfrentam estão o estigma, os mitos e as concepções equivocadas em relação à doença, como, por exemplo, achar que a doença de Alzheimer é simplesmente esquecer de coisas recentes. “É muito mais complexo, a doença de Alzheimer altera emoções, comportamentos, traz confusão, medo insegurança e desconhecer isso provoca um profundo isolamento”, reitera a professora.

Para Elaine, o maior desafio que temos que superar como sociedade é o estigma que decorre de conhecermos pouco sobre a doença e acabarmos proliferando ideias equivocadas e mitos que impedem, inclusive, um diagnóstico precoce. “Na medida em que nós começarmos a superar o estigma e a olhar mais para a pessoa que está ali presente, nós vamos reorganizar os modos como nos relacionamos com as pessoas com Alzheimer e com a própria doença.”

Quanto mais ampliada a rede de apoio, melhor: “Com rede de apoio eu quero dizer as pessoas que estão próximas, o vizinho, o porteiro, a pessoa que conhece a família há anos no bairro, na comunidade religiosa. Essas pessoas são fundamentais no processo de inclusão e aceitação dessa nova condição”.

“E isso se dá procurando conhecer sobre a doença, procurando conhecer o que eu posso fazer para ajudar, perguntando para a família como posso apoiar, o que você precisa que eu faça”, reforça Elaine, destacando ainda o cuidado multiprofissional de psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, que garantem qualidade de vida ao paciente. “Quanto mais fortalecida essa rede de apoio e quanto mais presente, mais tempo essa pessoa tem com qualidade de vida para usufruir dessa nova etapa no seu processo.”

Campanha ‘Seu Afeto Humaniza’ propõe olhar empático sobre a doença

Elaine destaca a importância da campanha lançada este mês pelo Instituto Não Me Esqueças – fundado em 2017 em Londrina -, intitulada “Seu Afeto Humaniza”.  “A campanha busca convidar as pessoas para olharem menos para a doença e mais para as pessoas que convivem com a doença, sejam aquelas que têm o diagnóstico, sejam aquelas que cuidam dessas pessoas.”

Segundo Elaine, as definições e o modo como as pessoas falam da demência e da doença de Alzheimer, em geral, têm foco na perda, no comprometimento cognitivo, no declínio das funções cognitivas, físicas, afetivas, aquilo que vai deixando de existir, que se apaga. E pouco se fala sobre o que ainda está lá presente, que há muita vida.

“É só uma vida diferente, é só uma nova etapa, é só uma vida nova. Então, a campanha busca sensibilizar as pessoas para isso: olhe para quem convive com a doença, seja empático, busque conhecer, leve carinho, seja amoroso, busque o diálogo. Você vai ver o quanto ainda existe, quanta vida está presente e quanta dignidade tem neste processo”, propõe Elaine.

“É um processo que pode ser tratado de modo amoroso, aproximar as pessoas, promover intimidade muito maior entre as pessoas e, de fato, levar o convívio para um outro patamar, para além daquilo que mora na cabeça, mas para o que é mais importante: aquilo que mora no coração. Porque o amor não vai se esquecer, não vai se apagar”, ensina.

Confira o vídeo da campanha “Seu Afeto Humaniza”.

Deixe uma resposta