O fim do propósito: ‘felicidade é verbo’

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Terapeuta holística desconstrói o conceito de propósito de vida e mostra como a ciência quântica pode contribuir para a busca da felicidade

“Felicidade é verbo.” Em meio ao caos do isolamento pandêmico, navegando pela internet despretensiosamente, me vi diante de uma moça de voz doce e palavras assertivas, que ao dizer essa frase me convenceu a participar de um curso chamado “O fim do propósito”. Estava eu, novamente, buscando conforto na ciência quântica para lidar com a realidade. Um pouco de espiritualidade na minha vida focada no material. E viver o agora, como a professora propôs, me trouxe de volta à escrita, uma das minhas grandes paixões.

A paulistana Cristina Lemos de Araujo Bonavigo, 33 anos, é a moça de sorriso acolhedor que trocou a rotina corporativa pelo trabalho com terapias holísticas em 2017 e já ressignificou a vida de mais de mil alunos em seus cursos e meditações, eu inclusa. Ela usa as redes sociais para promover seu trabalho, mas como todo mundo, tem seus momentos de dúvidas e medos provocados pela ansiedade da vida moderna. É quando ela para, respira e lembra que somos todo um só.

“Todo mundo acredita que ao encontrar o propósito vai encontrar a felicidade, numa visão de mundo material. Mas a felicidade é um estado de espírito, não é algo que é conquistado. É um movimento que eu faço para dentro. Então, o fim do propósito vem com essa ideia de chacoalhar as pessoas. Você não precisa mais buscar o seu propósito porque olhar para você e reconhecer o ser que você é já é o seu propósito sendo vivido”, explica Cris Lemos.

Felicidade comprometida: bullying transformou seu corpo

Casada há seis anos com o também palmeirense Filipe, Cris trocou a capital pelo interior, onde vive cercada pela natureza e onde se diverte com os pets dos vizinhos. A atividade preferida do casal é viajar, algo que eles pretendem retomar quando a pandemia estiver controlada.

“Eu cresci na Zona Norte de São Paulo. Morei por um tempo em Guarulhos e durante a infância e começo de adolescência eu estudava de manhã e passava o dia na casa dos meus tios, no Jardim Japão. Voltava para casa em Guarulhos só para dormir. Como meus pais tinham uma empresa juntos, eles ficavam praticamente das 7h às 22h trabalhando e eu e minhas irmãs éramos cuidadas pela minha tia, irmã da minha mãe e minha madrinha”, recorda a terapeuta.

Ela é a irmã do meio entre Juliana, 35, e Marcela, 26. “Pela diferença de idade, eu acabei tendo mais desafios com a Juliana do que com a Marcela, mas hoje em dia temos uma parceria muito linda de cuidado, apoio e respeito.”

Da infância, ela guarda momentos bons, de brincadeiras na rua e viagens para a praia e o campo. “Claro que, como todo mundo, minha infância também teve experiências dolorosas, nas quais me senti rejeitada, excluída e não amada. A partir de uns oito anos, eu fui me tornando uma criança mais gordinha e enfrentei alguns episódios de bullying sobre aparência e autoestima. Na fase adulta e com o suporte de processos de autoconhecimento, fui entrando em contato com essas feridas e as ressignificando”, confessa.

Esses episódios reverberaram na adolescência, que foi bastante desafiadora: “Eu me sentia um peixe fora d’água, estranha e com baixíssima autoestima. Para compensar esses ‘pontos fracos’, entendi que deveria ser simpática, divertida e agradável. Me sentia a garota feia, gordinha, mas gente boa, sabe?”.

“Aos 15 e 16 anos, depois de ouvir coisas muito doloridas sobre aparência numa rodinha de amigos, resolvi que iria mudar completamente. Comecei uma dieta maluca e emagreci bastante. Mudei meu cabelo, passei a fazer a sobrancelha e vestir roupas diferentes. Foi uma mudança bem radical e não muito saudável, mas ao mesmo tempo foi um momento importante de virada para mim”, lembra Cris, que sempre foi boa aluna e gostava de festar nas matinês.

“Depois dos 18 anos, quando eu tirei a carta de motorista, eu saia muito. Frequentava bares, baladas e festas de quinta a domingo”, conta Cris, que aproveitou bastante a liberdade de ser solteira. “Meu marido foi praticamente meu primeiro namorado sério.”

Emagrecer aos 15 anos e a morte da mãe, aos 19, foram períodos transformadores na juventude da terapeuta. “A mudança radical de aparência foi um período de muita tristeza e transformação, mas eu descobri em mim uma força de vontade e de comprometimento com os meus objetivos que eu desconhecia. Já a morte da minha mãe foi inesperada e precoce e me fez refletir muito sobre o sentido da vida. Com certeza a experiência de maior dor da minha vida até hoje”, lamenta.

Propósito: vivendo o agora

Sua busca por uma vida com foco no hoje passa pela sua rotina matinal de autocuidado, que inclui exercícios físicos, leituras e contemplação, e nas horas vagas ela gosta de estudar e assistir a séries e filmes que lhe provoquem algum tipo de reflexão. Suas tardes são focadas no trabalho.

“Quando não dou aula na parte da noite, costumo encerrar as atividades lá pelas sete, oito da noite. Aproveito o período noturno para conversar com o Filipe. Ele costuma me colocar a par das notícias do mundo, já que não tenho o hábito de acessar sites de notícias e assistir aos jornais, e trocamos um pouco mais sobre como foi nosso dia.”

“Já realizei o sonho de viver uma relação com um homem que eu amo, admiro e respeito e que me apoia em todos os outros sonhos; de sair de São Paulo e morar mais perto da natureza; de viajar e conhecer vários países e culturas diferentes; de trabalhar com e por uma causa que, além de me inspirar diariamente, eu sinto ser real caminho para a cura e transformação do mundo”, elenca Cris.

Ela diz que ainda quer ter filhos e cachorros, viajar para a Finlândia, assistir a uma aurora boreal e tornar sua empresa uma escola de transformação, “com vários outros profissionais contribuindo e agregando suas expertises com esse projeto de educação”.

Mapa astral direcionou transição de carreira

Ela recorda como foi sua transição de carreira, que começou em 2015, a partir de uma leitura do seu mapa astrológico. “A astróloga, que se tornou minha amiga, viu que eu teria um trânsito muito importante relacionado ao trabalho num período de quatro anos e me trouxe um alerta para eu me manter atenta e consciente para não ser surpreendida”, conta Cris, que, na época, trabalhava no setor de comunicação de uma grande empresa e começou a se interessar pelas terapias alternativas.

Em 2017, a empresa onde ela trabalhava foi comprada e no período de reestruturação, ela conseguiu fazer um acordo. “Em 2017 eu sou desligada e começo esse caminho como empreendedora, nessa via das terapias holísticas, autoconhecimento, espiritualidade. Eu me preparei para isso, mas o momento da transição é sempre muito desafiador e eu tive muito medo.”

“Mesmo quando a gente está muito segura daquilo que a gente quer e quando as coisas acontecem mesmo dá um baque. É uma linha muito tênue, que eu ainda estou descobrindo até onde eu seguro um pouquinho do ritmo de trabalho e foco mais na vida pessoal, no prazer, no lazer ou não. É um grande desafio”, declara a terapeuta.

“No mundo corporativo, o conflito, para mim, estava nos valores, na hierarquia. Para mim, aquilo não fazia sentido. Acho que era um pouco dessa dinâmica pautada no ego, influência do poder, e isso me incomodava bastante”, completa.

Produzir conteúdo gera ansiedade

Em seus atendimentos holísticos, Cris já impactou mais de mil alunos, que ela chama de “girassóis”. “Tem muita coisa ainda para acontecer, mas, para mim, é muito gratificante ver esses projetos amadurecendo com calma, perceber o quanto o meu trabalho, o quanto aquele sonho que surgiu anos atrás, agora já impacta e faz parte do sonho de outras milhares de pessoas. É olhar para trás e celebrar aquela Cris por ela ter tido coragem de seguir adiante”, avalia a terapeuta, que dos tempos corporativos, celebra as amizades que até hoje a acompanham.

Como todo produtor de conteúdo na internet, Cris se vê sufocada pela pressão das redes sociais vez ou outra. Recentemente, ela deu um tempo do Instagram, uma das suas principais plataformas de conversa com seu público, e o detox lhe trouxe novos insights sobre o modo de vida quântico que ela ensina.

“Produzir conteúdo era realmente algo que me trazia estresse, ansiedade, irritação. Eu me percebia consumindo muito conteúdo e me desconectando da minha essência, comparando meu trabalho com o dos outros.”

“Quando me dei conta disso, comecei a voltar mais para dentro. E eu acho que ressignificar a necessidade de atender algumas regras das redes sociais me fez desacelerar e compartilhar muito conteúdo sobre aquilo que eu estou vivendo. Não consigo mais ficar criando coisas aleatórias e desconexas do meu momento”, pondera.

Segundo ela, a própria busca é combustível para a gente se abrir para as experiências e contemplar que já somos aquilo que buscamos, como propõe o modo de vida quântico. “Eu me descrevo como uma curiosa, apaixonada e investigadora da consciência. Uma buscadora desse viver, reconhecendo-me como esse ser quântico, usando muito a curiosidade e a amorosidade, a gentileza e o servir para trilhar esse caminho.”

“Uma vez que eu desperto para isso, eu consigo trazer presença, conexão, trazer os arquétipos. Eu gosto muito de trazer nos cursos a frase de Epíteto: ‘Felicidade é um verbo’. É uma ação contínua, dinâmica, de atos de valor. Então, a felicidade não é algo que eu encontro como um resultado, é algo que eu experimento na ação. E não é qualquer tipo de ação, é uma ação qualificada por virtudes e valores, que na ciência quântica a gente chama de arquétipos”, descreve Cris.

‘Sou aquilo que eu busco’

“Quando a gente segue nesse caminho de autoconhecimento, com essa crença de que precisamos melhorar e não somos bons o suficiente, a gente ainda está atuando numa visão de separação. É como se eu fosse separada dessa fonte criadora, dessa consciência.”

“Agora, eu não só entendo conceitualmente, mas eu vivo a partir dessa premissa de que eu já sou aquilo que eu busco. Então, quando surgem medos, invejas, tensões, ansiedades, eu consigo repousar num lugar de contemplação. Eu não quero mais me libertar da ansiedade ou da pressão, eu apenas observo isso e permito que todas essas informações passem. É uma coisa muito bonita, que está se desdobrando com cada vez mais clareza dentro do meu trabalho e com certeza isso vai se atualizado em todos os outros projetos e cursos que surgirem”, completa.

Para ela, as pessoas se sentem perdidas porque se desconectaram de sua própria essência. “A gente cresce se preocupando com a nossa autoimagem, que é a maneira como os outros nos veem. Se seremos amados a partir desse comportamento, dessa atitude, dessa personalidade, desse jeito de agir de falar. E, dessa forma, a gente vai construindo a ideia do ego, da separação.”

“O que nos traz infelicidade, tristeza e a sensação de que estamos perdidos, porque é como se à medida em que a gente crescesse, esse canal de comunicação com aquilo que a gente verdadeiramente é começasse a ser silenciado”, declara a terapeuta, alertando para o padrão do ser humano de sempre buscar o prazer, tentando evitar a qualquer custo dor e sofrimento.

“Isso é uma questão biológica, que acaba tendo um impacto mental e emocional: eu estou sentindo um desconforto e quero uma solução rápida para isso. E se a gente faz isso na nossa vida, com certeza a gente leva isso para o coletivo.”

Hoje, sua produção de conteúdo está totalmente conectada ao seu viver e seu foco está também em seu público, que já conhece sua linguagem e com quem ela mantém uma relação de “amizade”. “Estou aqui para ser um ser humano dividindo e partilhando experiências, aprendizados. Há soma na partilha, há soma no processo do outro. E quando as pessoas se inspiram em algo que elas enxergam em mim é porque esse algo existe, brilha e pulsa dentro delas mesmas.”

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras. Siga @bolachinhasdamari

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