Opinião: Não suportamos mais corpos negros violentados

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Por Cecília França

Veio a público ontem o vídeo de uma mulher negra sendo “contida” pela Polícia Militar do Espírito Santo com chutes e socos. São cenas grotescas que se somam às tantas outras que nos chegam quase que semanalmente, cada vez mais violentas e truculentas. Não suportamos mais ver corpos negros empobrecidos violentados à luz do dia, seja por forças de segurança, seja por criminosos empoderados em suas fantasias de “justiceiros” e cidadãos de bem. Ou vocês imaginam uma cena dessas nos Jardins?

Longe de mim querer ocupar o lugar de fala que cabe à comunidade negra. Me posiciono aqui como pessoa branca antirracista que não suporta mais ver essas cenas. Como elas abalam pessoas negras eu só posso imaginar, e me solidarizar, e me comprometer a denunciar e não promover tais atos.

Só nos últimos dias um quilombola amarrado e surrado por um comerciante no Rio Grande do Norte; uma travesti negra amarrada e arrastada também por comerciantes, no Piauí, às vistas da Guarda Municipal, inerte. E quantos casos de mortes e agressões em estabelecimentos comerciais contra pessoas negras vieram à tona nos últimos tempos? Inúmeros. São sempre os mesmos corpos e isso não é justificável.

As ocorrências aumentaram ou elas nos chegam mais hoje por conta da facilidade de registro, em fotos e vídeos? Na verdade pouco importa. O que importa é nos assumirmos como uma sociedade e um Estado adoecido, racista, que precisa com urgência admitir seu passado escravagista a fim de superá-lo.

Não existe superação sem aceitação. Esse discurso de que “eu nunca escravizei ninguém” é burro e limitante. Temos que assumir um compromisso histórico e coletivo com nosso passado vergonhoso que repercute ainda hoje em corpos negros por todo o País. “Numa sociedade racista não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, disse Angela Davis.

Sejamos.

*Cecília França é jornalista, uma das editoras da Rede Lume

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