Diversidade? Onde?

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Vi essa semana na TV uma propaganda de turismo que dava uma amostra da ‘diversidade’ do Brasil. A peça publicitária tinha como cenário uma praia e jovens sorridentes em uma ‘pluralidade’ de corpos altos, magros, sorrisos perfeitamente alinhados e um dégradé de raças que ia do branco ao pardo, passando por um oriental e nenhum negro de pele retinta ou indígena, claro.

Mas quem se importa? O Brasil é um país de gente alegre e bonita, que se orgulha de suas riquezas naturais, da cultura, da música, da culinária… Estrangeiros vêm de toda a parte conhecer o país da diversidade, mas como bem sabemos, fora da sala de visitas há bagunças que só mesmo os de casa conhecem.

Construído sob o mito da democracia racial, o Brasil tem uma habilidade refinada em ignorar o quão excludente, racista e desigual é nossa sociedade. E nem precisamos ir até o quartinho dos fundos para ver que ali mesmo, na sala de estar, há uma quantidade enorme de problemas quando se trata de diversidade e racismo.

Pensando em mercado de trabalho, por exemplo, nenhuma empresa se assume racista, pelo contrário, a grande maioria se diz antirracista e aberta à diversidade. No entanto seus quadros de funcionários seguem sendo majoritariamente compostos por pessoas brancas.

Nos últimos anos as empresas passaram a montar Comitês de Diversidade e Inclusão. Um nome elegante para dizer que se tolera pessoas não brancas num certo ambiente. Afinal não dá para ter diversidade com tudo igual. Mas enfrentar o problema do racismo vai muito além de montar um grupo com pessoas de diferentes fenótipos.

O racismo está presente na vida cotidiana dos brasileiros e ele não é um problema apenas de ‘cor’, ele é um problema estrutural. Nesse sentido, o filósofo Silvio Almeida explica que a branquitude desfruta de vários privilégios por serem pessoas da raça branca. E pelas práticas culturais e históricas decorrentes do processo de colonização e do período escravocrata, as pessoas negras são atingidas por desvantagens sociais e opressões decorrentes do racismo.

Em termos de contratações nas empresas, o que primeiro se leva em consideração é se o sujeito combina ou não com o ideal que se tem em relação àquele cargo. Terno e gravata combinam com o branco; carrinho de limpeza e esfregão com o negro e nessa dinâmica indígena nem trabalha.

Empresas e instituições que insistem em ignorar a questão de diversidade são as que mais reproduzem as práticas racistas, que de tão frequentemente reproduzidas passam a ser naturalizadas por aquelas que não se atentam ao quão violentas elas são.

Em um país em que 56,1% da população é negra (PNAD, 2020), o mínimo era que houvesse nas empresas uma pluralidade de etnias, de culturas, de representações, de saberes, mas isso não ocorre. Há por parte das empresas a prática de ignorar essas questões e há também o descaso por parte dos governos em promover políticas públicas para o enfrentamento do racismo.

A questão racial é um grande elefante negro na sala de estar. Digo elefante negro, porque em um cenário tão ostensivamente racista, até um elefante seria tolerado na sala, desde que fosse branco.

Pensar em diversidade é apenas a primeira, de várias etapas para se alcançar equidade racial e o artista Orlando Guerreiro sabiamente exemplificou tais etapas. “Diversidade é quando você tem um lugar na mesa. Inclusão é quando você pode falar. E pertencimento é quando você é ouvido.

Em que estágio estão as poucas pessoas não brancas que trabalham na mesma empresa que você? Elas estão sendo ouvidas, estão só falando ou ainda nem conseguiram um lugar na mesa?

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

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