Lizzie

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Era uma garota, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones. Amava tanto que não perdeu tempo e foi cantar com os rapazes de Liverpool. Gravou com os meninos de Abbey Road, “Across the Universe”. “…Jai guru deva. om./Nothing’s gonna change my world…”. (Glória ao maestro do Universo/Nada vai mudar meu mundo).

Foi registrada em áudio em 1968, quase por “acaso” e, todos sabemos que o acaso não existe. Chovia, fazia frio, era quatro de fevereiro. Lá estava ela, mais uma vez, junto aos estúdios da EMI onde, Lennon, McCartney, Harrison e Ringo gravavam. E quem à porta chega buscando uma menina que sustentasse uma nota aguda, ninguém mais que Sir Paul. Ela e a amiga Gayleen, não só toparam o desafio, como revezaram os microfones com Paul e John. Ela tinha 17, um prodígio jamais realizado por outra brasileira.

Tavito, grande parceiro de Rodrix, questionava: “…Será que algum dia eles vêm aí/Cantar as canções que a gente quer ouvir…” Ela foi lá e fez. Cantou pelo Universo sem fim de seus sonhos, pela imensidão de sua delicadeza, pela paixão em notas musicais. Seu coração batia em metrônomo, compassado de amor e luz. Ficou imortal no álbum “Let it Be”, é imortal em sua história.

Elisabeth Vilas Boas Bravo – “Lizzie” pelos acordes ouvidos na voz de Lenon cantando “Dizzy Miss Lizzy” de quem era fã dos Beatles desde 1964. Voltou ao Brasil, diretamente ao Rio de Janeiro no final de outubro de 1969. Foi morar com a mãe e trabalhar como secretária no centro da cidade em plena Avenida Rio Branco; não era ela, definitivamente não era Lizzie. Em 1970, mais precisamente no mês de dezembro, se casou com o cantor e compositor Zé Rodrix que, junto com o também cantor e compositor Tavito, criaram a obra prima “Casa no Campo”, imortalizada na voz de Elis Regina.

Para ela, Zé buscou inspiração nos acordes de Tavito e na iluminação das estrelas, os versos: “…Eu quero a esperança de óculos…”. Era a própria com seu jeito terno, voz macia e olhar penetrante. A esperança de mundos melhores, de que lhe cabia os limites do corpo para ficar do tamanho da paz. Para Marya Bravo, a perpetração do amor vivido por eles, “…a filha de cuca legal…”; e que filha!

Partiu cedo, por demais cedo, não era hora ainda. Ontem pela manhã o metrônomo descompassou aos 70 anos. Foi encontrar o Zé na Pátria Espiritual, para colher e plantar a pimenta e o sal com seu amor e, juntamente com seus muitos amigos que já partiram. Estão numa roda musical compondo os tais rocks rurais infinitamente. Por cá o silêncio das línguas cansadas, os anjos solenes desafinaram, os corações saudosos e a dor de ver seu amigo partir.

Levou seus discos, seus livros – “Do Rio a Abbey Road” publicado em 2015, e com segunda edição, revista e ampliada programada para ser relançada ainda este ano -. Deixou sua história que será eternamente lembrada na voz, nas fotos incríveis, nos papos geniais, no ser humano inesquecível.

Look for the girl with the sun in her eyes. And she’s gone…”

Lizziein the sky with diamonds.

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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