Ativista trans se diz ‘filha’ das Mães pela Diversidade

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A produtora cultural Renata Borges trabalha em parceria com a associação no acolhimento de LGBTQIA+ no interior do Paraná, mas ainda sofre ameaças e desrespeito

Mariana Guerin

A produtora cultural e ativista trans Renata Borges, 38 anos, trabalha em parceria com a Associação Mães pela Diversidade no acolhimento da população LGBTQIA+ no interior do Paraná, em especial em Apucarana, onde reside. Ela se sente um pouco filha da professora aposentada Sonia Camargo e da costureira Edimara Buda de Paula Damas, que atuam pela associação na região de Londrina.

“Mãe Mara e mãe Sonia são minhas parceiras de movimento e enquanto filha, porque eu sou filha delas. Em determinados momentos, a mãe Sonia já me socorreu, até mesmo o pai Marcos, financeiramente, uma vez que eu briguei com meu pai. Minha família quer que eu volte para a Capital, mas hoje o interior é a minha casa. É onde existo e me sinto extremamente confortável, mesmo sabendo que existe uma barreira gigantesca, uma lacuna de direitos humanos.”

Diferente de outras pessoas transexuais que são abandonadas pelos familiares pela falta de informação e preconceito, Renata foi acolhida pela família quando se descobriu trans, na década de 1980.

“Não tinha muito debate sobre transexualidade. Tudo era muito exótico e novo. Eu não me encaixava enquanto corpo de menino e por mais que a sociedade e meus pais me tratassem como menino, eu não me sentia”, relembra a ativista, que aos oito anos começou a fazer tratamento psicológico. “Nem sei porque eu fazia, mas vejo que era porque eu era uma criança diferente.”

Ela lembra que mesmo o pai sendo “um homem do interior, bancário, com ranço machista e fundamentalista”, foi para ele que ela contou que não era menino, aos 12 anos. “Aos 14 anos, eu falei para ele que talvez eu poderia ser um menino gay e ele enfartou. Com 16, eu falei que era mulher e meu pai me deu tratamento psicológico.”

Naquela época, não se falava em transexualidade e sim em transexualismo e Renata começou sua transição sentindo-se mais segura com o apoio do pai e o acompanhamento de um psicólogo. “Eu me senti muito protegida pelo meu pai, por mais que ele fosse aquela figura machista e conservadora. Quando eu comecei a frequentar boate, danceteria, meu pai me levava e me buscava na porta. Isso é uma coisa única.”

Apesar do acolhimento familiar, a ativista nunca esteve imune ao preconceito da sociedade. O último atentado sofrido por ela teve suas investigações encerradas pela polícia de Apucarana. Em outubro de 2019, a casa dela foi invadida. Renata teve seus objetos revirados e encontrou facas embaixo da cama.

Caso de furto é arquivado pela polícia

“Para quem acompanha as violências destinadas à população trans e travesti sabe que as mortes mais cruéis são as das lâminas. Somos cortadas, mutiladas e temos nossos pedaços espalhados”, adverte Renata.

No momento da invasão, ela estava em Curitiba, palestrando sobre modelos de cidades seguras para LGBTs, em um evento da Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR) em parceria com a ONU Habitat. “Ao retornar, vi o pior inferno da minha vida.”

“Fiz o boletim de ocorrência e só tive resposta em 2021, porque a Comissão Permanente De Direitos Humanos (COPEDH) do Paraná solicitou, por meio do Ministério Público Federal, a colocação do meu nome no serviço de proteção. No Brasil, apenas 40 pessoas estão sobre proteção desse serviço, segundo dados do MPF de Londrina”, cita Renata.

Ela já perdeu as contas de quantas ameaças sofreu por seu trabalho defendendo minorias. “Em resposta à investigação, pedi à COPEDH para que a delegacia onde fiz o BO continuasse a investigação. Na minha concepção, a resposta da delegacia foi extremamente superficial.”

Renata conta que durante a perícia em sua casa, as facas que estavam debaixo da casa não foram coletadas. “Uma violação gigantesca para a prova do crime. Relutaram até quando puderam. Na verdade, elas queriam que eu recolhesse.”

A ativista explica ainda que, por intermédio da Liga Brasileira de Lésbicas e do Ministério Público de Curitiba, foi encaminhado um papiloscopista de Londrina para retirar as facas que continham as digitais do agressor. “Me coloco a pensar: até quando eu serei ou nós trans seremos negligenciadas pela delegacia da mulher?”

Renata relata que sofreu ataques nas redes sociais, que a deslegitimaram como mulher. “Fui à delegacia fazer o BO e a delegada disse que se eu não alterasse meu nome, ela não registraria a ocorrência. Ela só fez porque liguei para o advogado da Aliança Nacional LGBT, que pediu que a delegada justificasse o motivo de não fazer o BO. Após esse questionamento, ela fez meu BO”, recorda.

Renata sente-se injustiçada pelo encerramento das investigações. “Até quando a população a qual eu pertenço terá casos de violações arquivados? Até quando eu ou qualquer outra travesti seremos materiais de descaso. Não aceito essa resposta da Delegacia de Apucarana porque a minha vida ou a de qualquer outra LGBT também é importante. E crimes merecem ser solucionados.”

À jornalista Jess Carvalho, do Plural, o Ministério Público informou que “o inquérito policial relacionado aos fatos foi analisado pela 5ª Promotoria de Justiça de Apucarana que promoveu seu arquivamento em maio de 2020 por ausência de indícios de autoria”. Em relação às facas encontradas, a Promotoria de Justiça acrescentou que elas “foram apreendidas no dia 31 de outubro de 2020, ao passo que o delito foi descoberto em 22 de outubro de 2019, o que inviabilizaria qualquer cadeia de custódia a ponto de submetê-las à perícia datiloscópica”. O processo foi instaurado como furto porque levaram um botijão de gás e dinheiro da casa de Renata.

‘Filho não é lixo que a gente joga no portão’

Durante muito tempo ela caminhou protegida, em sua bolha, achando que todos os pais fossem iguais ao dela. “Meu pai tinha vários preconceitos, mas eu era filha dele. No começo, na cabecinha dele, eu era um filho, até ele entender essas pautas identitárias. Então, ele me protegeu de tudo, de todos, menos das violências escolares.”

“Nós morávamos em Curitiba e quando eu vim morar em Apucarana, no interior, eu vi o quanto a pauta LGBT é excluída e o quanto existe uma religiosidade que, mais do que nos aproximar de uma figura cristã, de uma figura paterna, acaba nos excluindo de vários espaços e acaba sendo adoecedor”, opina Renata.

Ela sente muita dor quando vê não só no interior, mas também na Capital, muitos pais jogando seus filhos para fora de casa simplesmente por eles serem o que são. “A gente tenta ser avanço, fazer com que além da sociedade, os pais entendam que filho não é lixo que a gente joga no portão de casa para fora. Filho é algo eterno. Esse amor é incondicional e cabe aos pais aprenderem a amar essas identidades, essas orientações, porque é um pedaço seu.”

Ela aposta no amor para ensinar empatia aos preconceituosos. “A sociedade tem que entender que são seres humanos e seres humanos são construídos de sentimentos. E que são vidas e que vidas a gente não mata, a gente não apedreja, a gente não exclui.”

“Eu comecei a falar sobre empatia pelas coisas básicas. Vou pegar meu caso: nunca fui chamada para ir a um batizado de uma criança. Como se a minha orientação sexual, aquilo que eu sou, não pudesse acompanhar. Raramente me lembro de ser chamada para festinha infantil. É como se a gente não pudesse fazer parte dessas construções”, alerta Renata.

“Então eu começo a falar sobre empatia pelo básico, aquele rolê que você deixou de convidar uma mana trans porque, de repente, as pessoas falam que você não vai se sentir à vontade. Não é a gente que não vai se sentir à vontade, é a pessoa que não convidou a gente.”

Segundo a ativista, no interior, quando se pensa em desigualdade, em algumas cidades as pessoas nem sabem quem são os LGBTQIA+. “Para muitos ainda são todos gay. Sapatão é gay, gay é gay, travesti é gay. Então a gente tem que fazer aquela coisa meio Paulo Freire: puxar uma roda e fazer didática para explicar.”

“Às vezes a gente fica acadêmica demais, com teoria demais, mas é simples: as pessoas precisam entender essa simplicidade do que somos porque, resumindo, nós somos seres humanos e é exatamente essa essência de humanidade que as pessoas precisam entender. Se tiver que fazer colagem, cantiga, para explicar que somos humanos, tudo certo. Vamos em frente porque, no futuro, todas essas que vão nos suceder vão ter um mundo muito melhor”, ensina Renata.

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