Mães pela Diversidade: ‘Ser o que nascemos para ser não tem preço’

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Associação Mães pela Diversidade reúne familiares de pessoas LGBTQIA+ na luta por direitos e contra o preconceito e a violência

“Ser o que nascemos para ser não tem preço”. Esta frase é de uma mãe, mas bem que poderia ser a bandeira da Associação Mães pela Diversidade, que começou como um movimento de familiares de pessoas LGBTQIA+ e hoje já está presente em 23 estados brasileiros, nos quais atua localmente e em apoio aos grupos de diferentes regiões do País. Está presente também em Londrina.

A associação nasceu em 2014 como uma organização não-governamental, fruto de um encontro espontâneo de mães e pais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais de todo o Brasil, preocupados com o avanço do fundamentalismo religioso, a insegurança jurídica, o preconceito e a violência contra a população LGBTQIA+.

Conforme a descrição na página maespeladiversidade.org.br, a princípio, funcionou como um grupo informal de encontros, mas cresceu tanto que adquiriu identidade jurídica. “Trata-se de um movimento político suprapartidário que tem por objetivo trabalhar em prol dos direitos civis de nossos filhos”, informa o site.

A história do movimento em Londrina se confunde com a da professora aposentada Sonia Camargo, que ingressou na associação em 2016, quando seu filho contou à família que é homossexual.

“No início de 2016, a coordenadora da associação no Paraná, Marise Silva, criou um grupo de WhatsApp, onde cada mãe ou pai se apresentava, e isto possibilitou que nós, aqui de Londrina, nos conhecêssemos. No início, éramos em cinco mães em Londrina: eu, Mara, Andreia, Elis e Cristiane. Essa identificação nos aproximou e começamos a nos reunir e planejar ações. Foi muito importante para nós a acolhida que tivemos dos movimentos LGBTs de Londrina”, relata Sonia.

Amigas da associação vão à luta em Londrina

Ela explica que a associação possui uma coordenação nacional em São Paulo, que atua nas redes sociais e no site, onde acontece o primeiro contato com as famílias, que são redirecionadas aos coordenadores regionais, que realizam o acolhimento. “Para Londrina foi muito importante porque criamos um vínculo de amizade que impulsionou a gente a ir para a luta, porque descobrimos que não estávamos sós.”

Sonia reforça que o objetivo das mães é permanecer ao lado dos filhos. “Falamos sempre que acabamos nos tornando meio mães de todes”, diz a professora aposentada, destacando não só a ação política da associação, mas o acolhimento, principalmente em Londrina, “que é uma cidade bastante conservadora, onde muitas mães ainda têm receio”.

“Esse acolhimento é muito importante porque as mães normalmente são mais temerosas. Foi assim que eu me senti, meio sem saber o que fazer, e a atuação da associação foi muito importante nesse momento. É um momento de ser solidário, de dizer uma palavra para a pessoa não se sentir só. Quando você encontra outras mães e outros pais e sabe que eles têm as mesmas angústias que você, é muito importante”, avalia a professora.

Para a costureira Edimara Buda de Paula Damas, que é mãe de três filhos bissexuais e também atua na associação em Londrina, “o trabalho do Mães pela Diversidade é, por vezes, de formiguinha, com pequenas ações cotidianas, mas muito valorosas para nós e para as pessoas envolvidas”. Ela destaca ações como ativismo social em prol de leis, campanhas de movimentos não-governamentais, apoio a entidades, entre outras, que têm como principal ação proteger, incluir, valorizar e acolher pessoas LGBTQIA+.

Edimara e os filhos/ Arquivo Pessoal

“Aqui em Londrina, por exemplo, apoiamos o Fórum LGBT, participamos de ações propostas pelo Fórum, estamos sempre juntos em momentos de lutas por direitos ou mesmo em momentos de denúncias, como a votação do projeto sobre conceito de gênero na escola, na luta pela criação do Conselho Municipal LGBT etc.”, cita Sonia.

Segundo ela, o movimento participa ainda da Parada LGBT, mesas de debate e trabalhos com grupos de universitários. “Quanto ao acolhimento familiar, quando somos procuradas, procuramos ouvir, compreender e dialogar, sempre buscando amparar a família, sem esquecer do filho, filha, filhe. Se for necessário acompanhamento psicológico, sempre corremos atrás.”

Rede de proteção atua no Brasil inteiro

“Às vezes funcionamos como uma rede de proteção. Já atendemos pedidos de ajuda de mães de Brasília, Santa Catarina, Curitiba. Já fizemos acompanhamento médico e psicológico de mães e de LGBTs. Londrina tem suas especificidades e creio que cada localidade se adapte às suas necessidades”, comenta Sonia, citando que aqui a associação conta com a participação de apenas um pai, o companheiro dela.

Segundo Edimara, por vezes as famílias se encontram num momento de conflito, “não por falta de amor e acolhimento, mas sim porque é um processo que leva tempo: saber que seu filho, filha ou filhe terá uma vida um pouco mais difícil só por amar quem ama ou ter uma identidade de gênero não aceita amplamente na sociedade”.

Para Sonia, a escuta é uma das maiores necessidades da família: “Ela sente necessidade de ser ouvida, pois é um momento delicado. Normalmente, a família fica confusa, em conflito, seja por conta de suas crenças e valores familiares ou até mesmo pela não aceitação de um familiar. A religião e a família influenciam muito neste momento”.

“O ideal é ter um acompanhamento psicológico. Em alguns casos, a terapia deveria ser familiar, mas infelizmente a realidade socioeconômica nem sempre condiz com a necessidade”, lamenta Sonia.

Acolhimento faz diferença na aceitação das famílias

A importância de associações como a Mães pela Diversidade está na identificação, no acolhimento e em ser referência para as famílias de LGBTQIA+, na opinião da professora. “A maior importância do Mães, tanto na esfera familiar como na social, é quando tocamos as vidas das pessoas envolvidas. Ver esse movimento mudando as coisas de fato é a nossa maior gratificação”, completa a costureira.

Edimara carrega consigo o medo da violência. “Aceitar não foi um problema. Somos uma família muito unida e alegre, temos uma casa bem movimentada, com os filhos, os amigos, amigos dos filhos, namoradas e namorados.”

Já para Sonia, ser mãe de dois filhos LGBTQIA+ trouxe momentos de culpa. “Acho que eu sempre soube. Meu coração me dizia e por inúmeras vezes tentei conversar com meu filho, mas ele tinha dificuldade em se aceitar e dificuldade em se abrir. Só mais tarde pude ter a dimensão do sofrimento dele e por muito tempo me senti culpada por não o ter ajudado.”

“Ele se abriu num momento de intenso sofrimento e nós acolhemos toda a dor e reafirmamos o nosso amor por ele. Não tínhamos problemas com aceitação, mas eu comecei a sentir muito medo, pois sabia da realidade dura da população LGBT e agora era o meu filho. O temor foi grande. Passou? Não, mas aprendi a lidar com esse temor e a transformar o medo em luta”, ensina Sonia, que tem uma filha bissexual.  

“Depois do meu filho, minha filha se descobriu bissexual. Acho que para ela foi mais fácil, já estava mais madura e já havia acompanhado o irmão e suas descobertas”, avalia a professora, destacando que a rotina da família é “normalíssima”. “Somos uma família com os mesmos problemas, alegrias, decepções de qualquer família. Se eles têm problemas em seus relacionamentos, se abrem com a gente. Aqui ninguém precisa chorar escondido. Sempre deixamos claro que amor é amor, que a felicidade deles seria nossa também.”

‘A chave de tudo é o amor’

As mães aconselham aos jovens que ainda vivem com medo do preconceito a não pular etapas no processo de aceitação. “É preciso desconstruir toda uma cultura heteronormativa e isso leva tempo, mas depois de se aceitar não recue, ser o que nascemos para ser não tem preço”, sugere Edimara.

Já para os pais, elas aconselham acolhimento, proteção, escuta. “Não joguem seus filhos ao mundo, sujeitos à violência”, pede a costureira, endossada pela professora: “A chave de tudo é o amor. Não confunda aceitação com acolhimento. Acolher de verdade é abraçar e ter orgulho e estar presente na vida dele. Façam de tudo para não serem os primeiros a machucar seu filho”.

“Pense que você gerou, amou e cuidou quando criança e que agora, crescido, ele continua a precisar do seu amor e de seus cuidados. Eles continuam sendo nossos, então, por que não participar da vida deles? É preciso que eles saibam que são aceitos e amados como são por sua família, porque a violência do preconceito eles já encontram na sociedade. Sempre falamos que as famílias que acolhem seus filhos os estão protegendo”, completa Sonia.

Para elas, empatia e respeito deveriam ser encorajados por políticas públicas. “É preciso combater as falácias de que a população LGBTQIA+ deve ser tratada com igualdade e não com privilégios. Para que seja atingida a igualdade, precisamos, sim, proteger essa população, que tem entre as mulheres trans uma expectativa de vida de apenas 35 anos. Que moram no país que mais mata LGBT, que são atingidos diariamente pela violência, falta de oportunidades e discriminação”, reforça Edimara.

Para ela, o poder público falha em não promover ações que protejam a todos igualmente. “As leis têm caráter também educativo, como sabemos, e, com isso, o respeito e proteção dos nossos filhos podem, sim, serem fomentados pela implementação de cada uma dessas ações.”

Segundo Sonia, a rede de proteção em Londrina ainda atua muito mais junto à comunidade LGBT do que com os familiares. “Eles resistem em sair do armário, mas a gente tenta mostrar que não vai fazer o filho deles voltar para o armário.”

“Vivemos numa sociedade extremamente conservadora e preconceituosa, por isso essa família fica extremamente fragilizada com esse enfrentamento, mas é aí que está a importância do movimento. Dá visibilidade, faz com que pais e mães se identifiquem. Para que haja um engajamento familiar, é importante que os pais vejam outras famílias engajadas, que existem outras famílias que têm coragem de ir à luta”, opina a professora.

Sua missão é mostrar à sociedade preconceituosa que os filhos LGBTQIA+ são muito amados. “Nas paradas LGBT, as mães são reverenciadas justamente porque vivemos, infelizmente, numa sociedade tão preconceituosa, que as pessoas acham que os nossos filhos não são amados. Elas são tão pretensiosas de achar que como eles não amam, como eles não gostam, como eles não suportam, nossos filhos não são amados. É muito importante a sociedade saber que eles são amados sim e que têm família. Que eles são família, que eles formam famílias e que as famílias são diversas.”

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras. Siga @bolachinhasdamari

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