Minha criança queer

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Mora em mim um menino
Crescido
Domesticado
Alfabetizado
Colonizado
Civilizado
Normalizado
Será???…

– Será que não!
Foram todas tentativas frustradas
Eu nunca me encaixei em nada por inteiro
Sempre sobrou de mim

Nos moldes que mal coube
Sempre deslocado
Deste imperativo hétero-cis-normativo
Nas bordas
Que me constituem
A criança queer relegada
Hoje é potência existencial
Viro a mesa
Viro os olhos
Me viro
Vingo
Não no sentido de desforra
Porque longe em mim está
O recalque dos desamados
Muito pelo contrário
Vingo por que a vida vicejou
Vingo porque brotei
Ali naquela fresta
Naquela rachadura
Naquela greta
Garbo grito
Danço infinito
Sacolejo nos desencaixes
Orgulho-me de quem me tornei
De quem me torno
De quem me trans-torno
Desenquadro da moldura
Essa que sempre me disse
“Sua obra não cabe nesse encaixe”
E não caibo mesmo
Desencaixo
Vazo
Liquidific-ando
Apesar de minhas águas
Parecerem mansas na superfície
Ando correnteza
Caudaloso
Fluxo intensivo
Vou
Com esse erê queer
Atravesso.

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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