Professores estaduais temem contaminação na volta às aulas

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Obrigatoriedade das aulas presenciais na rede estadual preocupa professores, que lidam com a falta de infraestrutura e a quebra dos protocolos de biossegurança

Mariana Guerin

Foto em destaque: Divulgação/SEED

Apesar de o Estado garantir que a capacidade máxima dos espaços escolares respeita o distanciamento físico de um metro entre os ocupantes e garante o retorno seguro às salas de aula, professores da rede estadual do Paraná afirmam o contrário. E, diariamente, sentem medo da contaminação pelo novo coronavírus, enquanto priorizam o aprendizado dos alunos que já estavam há quase dois anos fora da escola.

Uma resolução publicada pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) em 23 de setembro dispõe sobre novas medidas de prevenção, monitoramento e controle da covid-19 nas instituições de ensino públicas e privadas no Paraná. A resolução nº 860/2021 prioriza o retorno presencial às atividades de ensino e informa que a oferta da modalidade online será mantida apenas para os estudantes que estiverem em isolamento ou quarentena para covid-19 e para alunos com comorbidades.

A resolução aponta ainda que a adoção e o cumprimento das medidas de prevenção e controle para covid-19 são de responsabilidade das instituições de ensino, alunos, pais e colaboradores. Mas com poucas semanas de retorno ao ensino presencial obrigatório, os professores já observam que as escolas não têm infraestrutura para dar conta de manter os protocolos de biossegurança. Além disso, controlar o comportamento dos alunos também é missão impossível.

Professores afirmam que escolas não estão preparadas

“As escolas não estão preparadas para esse retorno conforme os protocolos de biossegurança. Falta funcionário, não é respeitado o distanciamento entre os alunos. É comum os alunos tirarem a máscara. Na sala de aula, é uma luta incessante, mas saiu para fora da sala, fica impossível controlar, uma vez que eles estão comendo, conversando, comprando lanche”, descreve um professor da rede estadual de Londrina que preferiu não se identificar.

Segundo ele, no colégio onde atua, na hora do intervalo, muitos alunos vão para a quadra de esportes jogar bola e esquecem dos protocolos. “Mesmo dentro da sala de aula não tem distanciamento social. Hoje, a sala de aula tem de 25 a 27 alunos. Uma sala extremamente pequena, então os alunos já estão um atrás do outro, como era antigamente.”

“Na atual circunstância, claro que a gente sente medo. O que me tranquiliza é que eu tenho as duas doses da vacina, mas, entre os alunos, pouquíssimos são maiores de idade e já tomaram uma dose do imunizante. Eu sou extremamente sistemático, uso a máscara N95 e o face shield, mas é, sem dúvida, totalmente perigoso”, confessa o professor, destacando a realidade dos alunos que estão na escola por necessidade.

“Muitas vezes, o principal alimento do aluno é na escola e nós, professores, temos consciência disso”, declara o educador, que é contra a obrigatoriedade da volta ao ensino presencial. “Acho que a volta deve ser uma decisão espontânea da família.”

Volta às aulas presenciais está atrelada à vacinação de adolescentes

O governo do Estado informa que a volta obrigatória às aulas presenciais ocorre ao mesmo tempo em que o Paraná inicia a imunização dos adolescentes. A Sesa justificou ainda que o cenário da pandemia também é outro, com ocupação estável de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e enfermaria e queda na média móvel de casos (55%) e óbitos (45%).

A Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (Seed) manteve a modalidade remota apenas para turmas de colégios onde existe o revezamento de estudantes, pela necessidade do distanciamento. Optar pelo ensino remoto não será mais uma opção dos responsáveis pelas crianças e adolescentes.

Conforme determinação da Seed, as escolas tiveram uma semana para se adaptar à nova determinação e informar aos pais e responsáveis sobre a volta obrigatória do ensino presencial. Antes da resolução, pouco mais de um milhão de alunos já frequentavam presencialmente as aulas no Paraná.

Ainda segundo informações da Seed, o protocolo de biossegurança continua válido para toda a rede, como vem acontecendo desde o retorno presencial gradual das aulas, em maio: obrigatoriedade do uso de máscaras, adoção do distanciamento físico entre pessoas, não compartilhamento de objetos e utensílios pessoais e limpeza e desinfecção do ambiente e superfícies.

Perspectivas mudam semanalmente

Para a professora Oliene Maria de Oliveira, que desde maio retomou suas atividades na rede estadual de modo híbrido, sua perspectiva sobre as aulas presenciais muda a cada semana. “Novas soluções vão chegado, vai aumentando o número de alunos em sala, aumentando a demanda de trabalho do professor, considerando essa questão de atender o presencial e na plataforma também. Mas, de uma maneira geral, há preocupação maior com o número de alunos dentro das salas de aula e dentro da escola. Eu confesso que no momento eu me sinto um tanto quanto dividida.”

“Ao mesmo tempo que eu tenho a preocupação da contaminação, do número de alunos por metro quadrado já estar ultrapassando o limite e já não ter mais o distanciamento necessário e a escola acaba sendo um espaço de grande possibilidade de contaminação, por outro lado eu tenho a preocupação com o aprendizado, de realmente eles terem essa possibilidade de aprender como eles de fato sempre aprenderam, porque com o modelo remoto, o ensino ficou bastante prejudicado”, opina Oliene.

No colégio onde ela atua, as turmas já estão com 27 a 30 alunos em sala. “Fica nítida a necessidade de eles estarem ali, de terem esse contato com o professor, de ter essa explicação. Fica nítido também o perigo que nós estamos correndo. Não dá para ter o controle com adolescentes e crianças. A gente chama atenção dentro da aula, se afasta, evita contato e da porta da sala para fora, no pátio, antes mesmo de sair do ambiente da escola, já estão se agarrando, tirando a máscara, com a mão no olho. Não dá para amarrar a mão de crianças e adolescentes”, completa a professora.

Ela se diz dividida. “De um lado eu tenho uma preocupação gigantesca no que diz respeito à contaminação. Eu trabalho com duas máscaras e face shield e toda hora lavo a mão. Já estou com as duas doses da vacina, mas isso não significa que eu posso baixar a guarda. Mas existe também a preocupação com uma necessidade evidente que nós estamos percebendo dos alunos no aprendizado. A gente fica bem angustiado, sem saber exatamente o que se deve fazer, e tudo que a gente está fazendo é pensando em acertar. Meu desejo é que tudo dê certo.”

Tempo em frente ao computador causou comorbidades

Leandro Correia é professor de Ciências na rede estadual e se sentiu bastante perdido no ano passado, quando teve início o ensino remoto. “Inclusive ficamos um tempo sem aulas, até retomar o trabalho no ambiente online, aos poucos. No começo, era apenas um auxílio de atividades no Classroom, um sistema organizado pela Seed com as ferramentas do Google”, recorda.

Com o passar dos meses, o uso do Classrom já não era obrigatório, mas a diretora do colégio onde Leandro leciona passou a incentivar reuniões semanais entre professores e alunos pelo Google Meet. “Nesse momento, o maior problema, além de todo o caos da pandemia, foi trazer os alunos para as reuniões semanais no Meet e lidar com o fato de que muitos não tinham acesso. Esses recebiam atividades impressas em casa, sem auxílio pedagógico.”

Segundo Leandro, normalmente, cada turma tem três aulas semanais de Ciências, mas como o número de aulas foi reduzido por conta da pandemia, ele passou a realizar uma reunião semanal por turma, além do auxílio virtual pelo Classroom para dar continuidade às atividades pedagógicas.

“Foi possível dedicar tempo de trabalho em elaborar atividades específicas para o ensino remoto. Não tive muita dificuldade nessa parte, pois sempre utilizei ferramentas virtuais nas aulas, mesmo nas presenciais, e tenho certa familiaridade com essas tecnologias. Também participei de um grupo de estudos organizado pela Seed com professores da disciplina, para conhecer e trocar experiências com atividades online, como simuladores, espaços de museu virtual, Google Earth e outros”, comenta Leandro.

Para ele, foi interessante a criação e elaboração de atividades autorais para as aulas. “Terminamos o ano dessa forma, com muitos alunos sem acessar as reuniões do Meet, mas realizando atividades pelo Classroom, e alguns recebendo atividades impressas.”

Já em 2021, o ano letivo começou totalmente online, com o professor lecionando todas as aulas semanais pelo Google Meet. “São três aulas semanais por turma, tenho cinco turmas. Peguei menos aula esse ano, pensando que seria complicado. Foi bem desgastante, sem tempo para elaborar atividades. Praticamente usei as que tinha elaborado no ano anterior”, conta.

“Passei muito tempo sentado na frente do computador, tive até problemas nas veias das pernas por conta disso. Depois de julho, as aulas começaram híbridas, alguns alunos em sala, principalmente aqueles sem acesso à internet e que estavam recebendo atividades impressas em casa, e outros em reunião pelo Meet, porém eu continuei apenas com aulas online por indicação médica devido às comorbidades”, pontua o professor.

Com as duas doses da vacina e o decreto que obriga a volta das aulas presenciais e revezamento entre os alunos, Leandro confessa que “o receio da contaminação é permanente”.

“Estou indo de máscara PFF2 adquirida particularmente porque o Estado não ofereceu nenhum equipamento de proteção individual. Permaneço de máscara o tempo todo, inclusive é incômodo para lecionar. Os estudantes foram orientados na recepção e são orientados diariamente sobre os protocolos de biossegurança, porém, pelo que observo, a maioria não se preocupa com distanciamento, usar a máscara correta de forma correta e, nos corredores, geralmente há aglomeração. Na parte pedagógica, volta o que era antes: aulas no quadro negro.”

No início do mês, um grupo de pais de alunos da rede estadual de Londrina protocolou um pedido ao Ministério Público, reivindicando a manutenção do ensino híbrido até o final do ano letivo. O pedido ainda não foi analisado pela Promotoria da Infância.

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