Você se permite ver o racismo?

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Antes do início de um curso online esta semana, enquanto aguardávamos o professor, surgiu o assunto referente a Clifford Owensby, o homem negro e paraplégico que foi arrastado por um policial para fora de seu carro, no dia 30 de setembro, em Dayton, no estado de Ohio (EUA).

A conversa se deu entre dois colegas. Ambos brancos. E o que me surpreendeu no diálogo entre eles foi que, embora indignados com o ocorrido com Clifford, em nenhum momento consideraram que havia no episódio uma questão relacionada à raça. Para ambos o problema é que a polícia norte-americana é violenta e o que ocorreu naquela ocasião foi um infeliz incidente entre um cidadão e um policial.

Ora, um cidadão. Quem dera que ao sujeito negro – estadunidense ou brasileiro – fosse permitido livre acesso à cidadania. Somos privados de serviços essenciais, como saúde, educação, transporte, oportunidades de emprego, liberdade de ir e vir… Os acessos, mesmo a direitos básicos, estão restritos a um gênero, uma classe e uma raça específica, não a todos.

Em nenhuma esfera da sociedade, seja no Brasil, seja nos EUA, as pessoas negras conseguem acessar o status de humanidade que um homem cis hetero branco europeu desfruta, afinal estes são os considerados ‘cidadãos universais’.

Quanto à ação da polícia, me surpreendeu o desconforto dos colegas em admitirem as palavras violência e policial na mesma sentença. A tranquilidade de não enxergarem essas duas palavras obrigatoriamente juntas, mostra o privilégio que é ter a estrutura do Estado a seu favor e também o privilégio que é ter a polícia como seu aliado protetor e não como algoz e executor de um projeto genocida do próprio Estado.

O negro brasileiro, mesmo 133 anos após a Abolição da Escravatura, ainda não está livre. Os corpos negros são violados, brutalizados, invadidos ou eliminados por forças do Estado a qualquer momento, na rua, em casa, no supermercado, na escola…

A abolição da escravatura não gerou uma sociedade igualitária, pelo contrário, a discriminação racial e o racismo persistiram nas instituições e nas esferas econômica, social, política, religiosa, etc. O racismo sistêmico persiste e se aprimora, assim como o tratamento desumanizado e as violências contra os corpos negros, que foram ganhando contornos mais requintados e ainda mais degradantes.

Nesse ponto da conversa uma colega, também branca, se juntou para defender a pauta dos Direitos Humanos. Ela argumentava como a polícia brasileira é mais humanizada que nos EUA. Segui acompanhando o raciocínio do grupo, mas fiquei me perguntando dos direitos de quais humanos eles estariam falando.

Daqui, do meu lugar de mulher e negra, posso garantir que estou longe de desfrutar dos mesmos direitos que pessoas brancas. Ainda que diante da lei, sejamos todos, supostamente, iguais, pensando especificamente na polícia, o tratamento dispensado à população negra não se dissocia da violência, nem de discriminação baseada na raça.

Violência Policial e Privilégios da Branquitude

No Brasil, o Relatório Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou que o número de mortes por agentes policiais saltou de 2.212 em 2013, para 6.416 em 2020, um aumento de quase 200%. Em 2020, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 78% dos mortos pela polícia eram negros.

Por mais desconfortável que seja admitir, há um projeto do Estado de extermínio de corpos negros e um dos executores desse projeto é a força policial.

As desigualdades raciais foram se consolidando através dos séculos e seguem estabelecidas. O fato de falarmos sobre elas mais abertamente, não significa que suas estruturas racistas estão sofrendo grandes abalos, ou que o Estado esteja se responsabilizando pela negligência, violência e extermínio dos corpos negros.

Racismos

Nesse ponto da conversa perguntei se os colegas achavam que o problema poderia estar relacionado à raça e a resposta foi não. Nenhum deles relacionou o evento à raça sob o argumento que um dos policiais que abordou Clifford Owensby era negro também. E com relação aos casos da violência policial no Brasil, o argumento foi que cada caso merece uma análise.

De fato, cada caso merece uma análise, mas me surpreende que três pessoas instruídas não consigam ver que a mesma violência que ocorreu no caso dos EUA, ocorre diariamente no Brasil e com números ainda mais alarmantes. Fiquei pensando na repercussão deste caso e no porquê os corpos negros que morrem todos os dias no Brasil não geram a mesma comoção.

No Brasil, mesmo pessoas brancas que se dizem engajadas na luta antirracista não se sensibilizam ou se importam em saber a diferença entre racismo sistêmico, institucional ou estrutural e considerem apenas aspectos individuais das relações que envolvem raça.

O privilégio de não precisar saber sobre os tipos de racismo para manter a própria existência é um dos motivos que faz com que pessoas brancas enxerguem o caso dos EUA como um incidente isolado e deslocado da realidade do Brasil.

O mesmo privilégio faz com que pessoas brancas não ousem entrar no desconfortável âmbito de que sim, o caso de Clifford Owensby foi um caso de racismo sistêmico e não apenas um mero incidente entre um cidadão e um policial.

Admitir os privilégios enquanto branquitude e parar de negar os problemas relacionados à raça em nossa sociedade são passos essenciais e importantes para sairmos da ilusão de direitos humanos e avançarmos para fazê-los, de fato, valer para todos.

Fontes:
Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2020).

* Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

Um comentário

  1. Excelente reflexão Ana. Infelizmente ainda tem muito chão pela frente, no combate ao racismo e na re-educação da população… Vozes como a sua não devem se calar nunca… Excelente trabalho!!!!

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