Dia dos Professores: desabafo de uma educadora em tempos de pandemia

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Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, educadora da rede estadual de ensino expõe os medos e as conquistas em dois anos convivendo com a ameaça da covid-19

Era para ser um depoimento sobre a volta às aulas presenciais na rede estadual de ensino no Paraná, mas o áudio se transformou num desabafo da professora Aleteia (nome fictício). Pensei, então, que sua história merecia um texto especial porque, afinal, retrataria tantas outras realidades que não encontraram coragem para serem divididas.

Neste Dia dos Professores, muitos deles ainda sentem medo de enfrentar o sistema, de expor suas opiniões, de perder o emprego, de morrer de covid-19 e, principalmente, de deixar seus alunos sem conteúdo. Por isso, resguardam suas identidades, ainda que desejem contar a realidade de ser educador no Brasil.

Aleteia tem 42 anos e é professora de Filosofia do Estado há 18 anos, período em que já vivenciou inúmeras mudanças no cenário da educação brasileira. Mas nada tão complexo como os últimos dois anos de pandemia. “Passamos por diversas circunstâncias nesse período, não só pela questão da pandemia, mas também pela questão da educação, que vem trazer muitos conflitos e muita ansiedade.”

“Para começar, eu gostaria de falar um pouco sobre a questão da sobrecarga na nossa profissão e como isso vai repercutir na questão da pandemia, dentro das escolas, com os nossos alunos”, diz Aleteia, pontuando a redução da carga horária das disciplinas de Filosofia, Sociologia e Artes no Ensino Médio para apenas uma aula semanal, o que corresponde a 50% do que era antes da pandemia.

“No meio da crise econômica tem a crise na educação, com a redução dos conteúdos aos quais esses alunos não terão acesso durante o ano letivo de 2021”, avalia Aleteia. Segundo ela, a sobrecarga envolve ainda os atendimentos aos estudantes, que precisam ser realizados em momentos diferentes do horário de aula dos professores.

“A gente tem que atender a todos esses alunos, é uma questão de responsabilidade ética da nossa profissão. Então, isso demandou uma complexidade muito exaustiva em todos os professores das disciplinas de Sociologia, Filosofia e Arte”, opina Aleteia.

Pandemia: ensino remoto sofrido

Para ela, o início do trabalho remoto, em 2020, foi sofrido. “Uma formação muito forçada porque nós não tínhamos habilidade em lidar com o Google Classroom. Dava para contar nos dedos o número de professores que trabalhavam comigo na mesma escola que dominavam essa plataforma.”

“As formações eram muito fracas. A gente não teve um tempo adequado para conseguir aprender. Então, a gente fez um grupo de professores no WhatsApp com aqueles que sabiam lidar melhor com a plataforma e aqueles que não sabiam lidar com a plataforma, para que nós fizéssemos as nossas próprias orientações”, recorda Aleteia.

Conforme as dúvidas sobre o sistema iam surgindo, os professores contatavam os colegas mais experientes. “A inconstância em relação às aulas era muito grande também. Cada semana chegava uma resolução diferente, uma orientação diferente. A princípio, eram mensais, depois passaram a ser semanais, geralmente na sexta-feira.”

“Sexta-feira a gente já podia esperar que iria estragar o final de semana porque chegavam definições para a gente pensar já para segunda-feira. O que que a gente podia fazer? Não tínhamos os dias respeitados. Não tinha mais horário de trabalho: era uma orientação de manhã, outra à tarde, outra à noite”, conta Aleteia.

Ela chegou a receber e-mails de alunos durante a madrugada. “As atividades da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (SEED) chegavam aos montes. Eu lembro que teve um dia que chegaram sete ou oito atividades de uma vez e os alunos não entendiam que essas atividades eram enviadas a partir de um sistema programado, achavam que eram os professores que estavam postando as atividades às 5 horas da manhã. Então, as notificações de celular apitavam constantemente, em horários absurdos.”

Aleteia passou a viver por meio dos dispositivos particulares, como o WhatsApp: “Grupos de alunos, grupos professores. Grupos, grupos e mais grupos que eram constantemente acionados e comunicados das resoluções. Dá para entender que foi muito difícil lidar com toda aquela complexidade, com toda aquela mudança. E a gente cada vez mais tentando encontrar dentro disso tudo uma rotina de trabalho”.

Realidade caótica na escola e em casa

Além da realidade escolar caótica, a professora lida com uma realidade familiar complexa: ela é mãe solo de três – uma jovem universitária de 20 anos, uma menina de seis e um bebê de três. Com eles, vive a mãe dela, que é idosa. “Esse ano, nós deveríamos filmar, fotografar e enviar nos grupos de WhatsApp as atividades que vinham da creche todos os dias, porque deveria ser tudo registrado dessa forma para que as crianças não tivessem faltas e para que mantivessem as matrículas e a rotina de estudo. Ou seja, bem complicado.”

“Quando eu lembro agora me dá até um frio na barriga porque as crianças não têm um pai frequente. A minha realidade sou eu, os meus três filhos e a minha mãe de 69 anos, que é professora aposentada. Minha preocupação é também pela idade dela e por ela ser hipertensa. O medo de a minha mãe pegar covid é desesperador”, confessa Aleteia.

Como a filha mais velha cursa Pedagogia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), ela auxilia a irmã mais nova em seu processo de alfabetização enquanto a mãe dá conta das aulas e do bebê.

“A situação é muito complicada. Minha filha mais nova tem dificuldades, reluta em fazer as atividades online. Quando a gente pergunta, ela fala que não consegue, que não está aprendendo, que é muito difícil, que a cabeça dela dói. Ela não quer se concentrar, então é uma luta muito grande.”

Mudanças no cenário do trabalho e, consequentemente, na forma de educar os filhos durante a pandemia sobrecarregaram a rotina da família. “A gente foi tentando a melhor forma possível de lidar com essa situação para que a gente também não comprometesse ainda mais o nosso psicológico, que ficou muito abalado durante esse período”, comenta Aleteia.

Sala de aula remota que a professora que preferiu não se identificar organizou em casa/ Arquivo Pessoal

Estudantes se dividem entre aulas online e tarefas domésticas

Em meio às inconstâncias das atividades remotas, em 2020, ela realizou uma pesquisa de realidade com seus alunos, para entender como eles estavam vivenciando o ensino remoto. Segundo ela, de 70% a 80% dos seus estudantes assistiam às aulas pelo celular e 50% dividiam aparelhos como celular, tablet ou notebook com outras pessoas da casa. “Alguns tinham que cuidar de crianças ou de afazeres domésticos, então era uma realidade complicada para os alunos.”

“Era uma realidade muito densa para professores da escola pública também. E como eu disse, as resoluções e orientações eram modificadas frequentemente e quando a gente conseguia traçar uma rotina, mudava tudo de novo. Fora organizar as atividades dos filhos.”

Conforme a professora, eram necessárias pelo menos duas semanas para organizar as chamadas, as postagens no mural, as postagens de atividades. “Tínhamos um momento para estudar como usar a tecnologia para organizar a rotina de trabalho e quando a gente entendia como tinha que trabalhar, mudava e demorava mais umas duas semanas para a gente se organizar de novo. A gente trabalhava aos trancos e barrancos, tentando se virar nos 30, em horários cada vez mais arbitrários e sem uma organização efetiva. Isso foi todo o ano de 2020.”

Aleteia iniciou 2021 acreditando que retornaria a lecionar no modelo híbrido, mas foi surpreendida com o alerta de colapso sanitário no País. “Especificamente aqui no Paraná foi aquele colapso em março, então as aulas já começaram no Google Meet.”

Ela chegou a realizar aulões de 50 minutos pelo Meet em 2020 para todas as turmas do primeiro e do segundo anos, com explicações que auxiliavam os alunos nas atividades e nas provas. “Não eram horas-aula eram horas de Meet para todas as turmas. Esse ano, já começou hora-aula, que foi muito difícil. Com os filhos em casa – o pequenininho não entende –, às vezes eu tinha que parar, a conexão caía”, explica professora.

“Com a redução da carga horária, eu tinha Meet com 30 horas-aulas em turmas diferentes, uma aula por semana. Lidar com essa realidade de só ver os alunos uma vez por semana foi muito complicado, porque são mais chamadas, menos conteúdo, mais provas para corrigir. Foi bem complicado para esses alunos começarem a participar dessas aulas”, avalia Aleteia, que mais uma vez se adaptou à nova realidade.

“Eu consegui me adaptar ao Meet e organizei minhas aulas. Passei a utilizar certos mecanismos, certas plataformas, que me auxiliavam durante as aulas online. Foi toda uma formação que a gente fez durante esse período para conseguir se adaptar às aulas totalmente remotas, utilizando as atividades que vinham da SEED, postando atividades, organizando provas e formulários, para que pudéssemos, da melhor forma, nos aproximar desses alunos que, no ano passado, ficaram tão distantes”, diz.

A professora recorreu a livros online, livros didáticos em PDF, organizou seu computador com mapas e vídeos, gravou senhas, criou um ambiente de trabalho com escrivaninha e impressora novas e papel de parede para criar um ambiente propício para que seus alunos se sentissem bem durante as aulas remotas.  

“Acordava cedo e me arrumava para as aulas. Os alunos viam minha estante de livros e eu colocava recados para eles, usava lousa virtual, fazia com que eles interagissem nas aulas online. Eu posso dizer com toda a segurança que em minhas aulas de filosofia, apesar da redução de carga horária, eu fiz o máximo que eu podia para poder proporcionar aos meus alunos uma aula de qualidade”, descreve Aleteia, que interagia constantemente com os estudantes, mesmo remotamente.

Ansiedade na volta às aulas presenciais

“Eu estava realizando minhas aulas com toda segurança, com toda dignidade, com toda qualidade possível e, a partir de maio, nós tivemos a mudança para o híbrido”, recorda a professora, que, dentro da escola, passou a utilizar o equipamento disponibilizado pela Secretaria de Educação. “No primeiro dia de aula do modelo híbrido eu tremia. Cinco alunos na sala apenas, eu e os estagiários. Dá aquela sensação de insegurança, porque estava mudando tudo de novo.”

“Eu lembro que eu fiquei muito acelerada, muito ansiosa. Eu tremia, não sabia se eu usava a lousa, se usava online, se eu atendia mais os que estavam em casa ou os que estavam presentes. Eu senti que os alunos mudaram. Eles não tinham coragem de olhar nos nossos olhos. Se eu olhava para eles para explicar o conteúdo, eles desviavam o olhar. Foi uma experiência muito surreal.”

Quando atuava pelo Meet, Aleteia sempre deixou os alunos à vontade para manterem as câmeras desligadas, desde que acompanhassem a aula com atenção. “Foi uma mudança paradigmática muito grande durante esses dois anos, então foi muito difícil e muito inseguro. Até eu me adaptar foi bem complicado.”

Ela reforça que existe o medo constante do contágio com a volta de todos os alunos para as salas. “Conforme eles foram retornando, retornaram também o medo e as complexidades. Muitos alunos não faziam atividade no Google Classroom e sim atividades impressas, então a gente tem que lidar com material impresso, com o Meet, com o presencial.”

Entre as complexidades, Aleteia destaca a necessidade de resgatar conteúdos antes de iniciar novos temas. “Com uma aula por semana foi muito difícil lidar com todas essas realidades, com essa escassez de atendimento por uma aula por semana em três escolas com realidades totalmente diferentes.” Hoje ela leciona para 791 estudantes.

Covid-19 encontrou a professora apesar dos cuidados

Assim como seus alunos, seus filhos também retornaram à escola. E nesse processo, ela acabou se contaminando com o novo coronavírus. “Apesar de todos os meus cuidados, de não sair de casa, não frequentar bar, não frequentar templos religiosos, não levar meus filhos ao parque. Eu fiquei numa vida de confinamento durante todos esses dias, sem sequer ver minha irmã, e apesar de todos os cuidados, desinfetando todos os alimentos que chegam aqui em casa, de comprar tudo online, me contaminei.”

“Ainda não consegui rastrear, mas eu tenho impressão de que foi meu filho pequeno que pegou no centro de educação. Tenho impressão de que ele passou para a minha filha mais nova, que passou para mim. A única resposta que eu tenho para isso é que veio de escola porque não fiz o teste neles, mas a minha filha apresentou sintomas e o pequeno só o nariz escorrendo”, lamenta Aleteia.

Imunizada pelas duas doses da vacina, ela sentiu sintomas leves da covid-19, mas passou dias com dores de cabeça e no estômago. A professora teve ainda acompanhamento médico numa Unidade Básica de Saúde e retornou ao trabalho, após duas semanas de quarentena, aliviada porque a mãe não se contaminou por conta do isolamento.

“Eu me afastei durante duas semanas e retorno para a minha aula presencial com as salas de aula com um número muito maior e mais expressivo de alunos. Tive pesadelo, não consegui dormir direito. O medo da doença e a ansiedade com relação a tudo isso é grande.”

Em meio ao turbilhão de sensações experimentadas durante esses dois anos de pandemia, uma certeza restou: Aleteia tem orgulho de ser professora. E entende que a educação é responsável por construir a estrutura fundamental do indivíduo, tanto na sua perspectiva social quanto na pessoal.

“Quando eu falo de perspectiva social não falo só na questão da formação para o trabalho, porque nós não somos só mecanismos de trabalho, somos pessoas. O mundo do trabalho é uma parte da nossa existência. É parte significativa, desde que seja um trabalho consciente, escolhido, valorizado e para que a gente entenda que existem outras potencialidades nesse ser humano que precisam ser construídas.”

Educadora vê ‘burocratização’ do trabalho do professor

Segundo ela, a escola tem deixado de lado a formação crítica. “A burocratização no trabalho do professor é muito evidente. Esperam mais estatísticas do que realmente uma formação humana dos indivíduos que estão inseridos na escola. A gente percebe uma burocratização no trabalho do professor quando começa a se pedir índices de chamada, de presença, de notas, de aprovação, índices de alunos que foram aprovados por conselho de classe não por aprovação direta”, cita.

Para ela, o professor tem papel fundamental na formação do conhecimento científico, na socialização e de levar esse conhecimento para além do muro da escola. “A escola tem que construir a possibilidade de escolha, para que o indivíduo não seja escolhido, para que ele faça escolhas”, opina Aleteia.

“Nós temos as nossas construções culturais, as nossas construções espirituais, que cada um carrega da sua relação familiar, da sua relação com o divino, da sua relação com a natureza. E nós temos essa construção conceitual, que é tão importante. Desde as técnicas de aprendizagem para escrever, ler e somar, para desenvolver um raciocínio lógico matemático, como para enxergar o mundo”, completa a professora.

Para ela, a educação proporciona escolhas conscientes. “Quando a gente consegue se organizar e ser valorizado nas nossas escolhas, consequentemente toda a sociedade ganha. A importância do professor está nessa construção do significado do ser humano em sua existência.”

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras. Siga @bolachinhasdamari

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