Diário de um transeunte psiconauta em processo de flexibilização

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No último sábado, depois de minhas gotas homeopáticas e mágicas chegarem até minhas mãos, pela primeira vez, desde que a pandemia nos aprisionou dentro das casas, retornei ao aeroporto para uma viagem familiar.

Coração apertado, não tanto quanto a máscara PFF2 no rosto, que insistentemente forçava mais a vedação. Face shield, álcool gel na bolsa e vamos. Vi numa reportagem da TV que os protocolos estão sendo cumpridos pelas cias aéreas… E sabe qual é o protocolo? – Nenhum. Nenhum distanciamento entre os passageiros. Fui grudado com um moço do lado, que por sua vez estava grudado com uma senhora. Todos os assentos tomados. Nem um álcool gel foi entregue pela aeromoça – Juro que pelo menos por isso eu esperava, como quem dissesse, se cuide, viu?. A única diferença que notei no voo foram alguns avisos sonoros sobre a pandemia – aqueles protocolares – e o lanche que deixou de ser servido – o que para as cias aéreas deve estar sendo uma economia danada.


Em SP, aeroporto cheio, tudo tomado de gente, pelo menos, a maioria mascarada.


São Paulo estava no trecho de minha viagem viagem, fiz parada e passei o dia por lá. Resolvi me aventurar num metrô, já que era sábado e imaginei estar mais esvaziado. Fui apertado, como quando a gente compra um número de calça menor e luta pra vestir, isso mesmo, assim, vagão lotado. Olhava praquelas pessoas. Tentava prender a respiração… mas nada, estávamos todos muito próximos e quando desci, como não esbarrar. Inicialmente usei aquelas palavras educadas, como – com licença, vai descer?, deixa eu passar?… – porém me esqueci que em SP nem sempre isso funciona, pelo menos no metrô lotado, até porque as pessoas nem tinham como se mover pra você passar. Eu tive que usar meu corpo e ir abrindo caminho (mas acontece que eu não queria esbarrar em ninguém, tinha um pouco de pânico quando isso acontecia) porém lá fui eu esfregando ombro num, bunda noutro, braço aqui, costas acolá… ufa!, consegui descer no destino.

Feirinha da Liberdade. A ilusão persistia – tá chovendo, deve estar vazia. Acredito que as outras pessoas também tiveram a mesma ilusão que eu ou a pandemia acabou mesmo e esqueceram de noticiar. Estava bem cheia, mesmo com chuva. Como no metrô, a maioria mascarada, mas tem muitos jeitos incorretos de usar máscara, né. Nariz de fora, fraldinha de queixo, na mão, na testa, até no rabo alguém do desgoverno mandou a gente usar (confesso que no rabo – pelo menos visivelmente, não vi ninguém usando).

Fui procurar uma coisinha pra comer na praça de alimentação da feira e… deus meu… quanta gente sem máscara comendo seu yakisobas e outros tais, se equilibrando entre um guarda-chuva, um vírus e um monte de gente que passava. Fugi de medo.

Mas eu não estava pra brincadeira neste dia. Depois de comer a tradicional feijoada de um boteco clássico de esquina, perto do apartamento de minha sobrinha, que me acolhe em Sampa (pedi marmitex pra comer em casa – achei prudente), lá fui eu novamente pra rua. Destino: Cine Belas Artes – A Dona do Barato. Que saudade ir ir ao cinema que eu estava!

Poucas pessoas, lugar numerado e alternado, etc, mas lá dentro, pessoas comendo suas pipocas e refris e, obviamente, sem máscaras. Me afundei na poltrona, apertei ainda mais o fixador da minha, que chegou até a fazer marcas embaixo dos olhos… Passei pela Paulista, Consolação, metrô novamente, uma pizza e caminha. (minha dieta do dia foi super balanceada, né?)

No dia seguinte, enfrentei o Terminal Rodoviário Tietê. Tem ideia do que seja isso pra quem passou todo o período da pandemia em isolamento rigoroso e recentemente acabou de chegar de uma praia quase deserta? Pois então, busão cheio, algumas pessoas com as máscaras na cara, outras no colo e outras sei lá onde… lá vou eu, com toda educação, pedir pras duas senhoras, que estavam bem ao meu lado, colocarem, por gentileza, a tal indumentária – sempre faço isso com medo, porque a ignorância negacionista tomou conta de muitas pessoas. Desta vez deu certo, colocaram e seguimos a viagem.

Uma curiosidade e um detalhe super mega positivo do dia. Tomei dois Uber em SP. Um quando cheguei, com uma lésbica ma-ra-vi-lho-sa – queria ser amigo dela – super interada da pandemia e dos desgovernos em curso.  Fomos falando muito e lavando a alma. Precisamos desopilar com nossos pares, né? Depois no dia seguinte peguei outro motorista, esse com uma cara suspeita e eu costumo não puxar assuntos de política, pois onde moro, os uber/táxis e outros mais tem na testa uma bandeira do brasil (com “b” minúsculo mesmo, pois não é do país em que vivemos a bandeira que empunham – é do ódio e da intolerância – e o Brasil é bem melhor que esse povinho equivocado). Enfim, o uber era um eleitor do inominável, mas arrependido – clássico, né – o chamou de ignorante pra baixo, disse ter vergonha de sua representação e incompetência. E eu pensando – E não percebeu a merda antes de votar, não, é? Tava cego? – mas bora lá, desatei a falar tudo o que penso a respeito e ele ficou pianinho e compreendemos muitas coisas… Foram duas viagens revigorantes com motoristas que não votarão nelenão em 2022. Acho que o Brasil tem jeito. Vai ter. Vamos virar esse jogo dos infernos.

Depois de chegar na terra natal e encontrar a mãe com a costela trincada, com toda complexidade que isso significa, pinga-pinga gotinhas para dormir.

Um dia atípico na vida de um confinado em flexibilização. Haja homeopatias alternativas transeuntes psiconautas.

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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