Bituca, dois rapazes latino-americanos e um parisiense carioca

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Milton, nascido-nascimento tijucano, se tornou três-pontano. Antônio Carlos Belchior, nascido sobralense, cantou as velas que aportam no Mucuripe, como uma ode a Fortaleza. Nasceram para o mundo e viveram em turmas distintas.

Nascimento, com seu “Clube da Esquina”, fez história nas Gerais, o Rei Mago e o seu “Pessoal do Ceará”, trouxe a musicalidade alencariana para terras paulistanas e cariocas.

Saíram do interior sem dinheiro no bolso. Soltaram a voz nas estradas, nas boleias de caminhão, seguiram viagem até onde o povo estava. Não se cansaram de cantar. Traziam na cabeça as canções do rádio em que ouviam Cauby e Ângela Maria. Carregavam os traços da musicalidade materna no coração. Coração de estudante, voaram com o canto que cada um lembrou. Nos caminhos de pedra, seixos rolados, nas estradas do lado, lá do sertão, sonharam Drummond, como quem sonha com a fé capaz de cegar até faca amolada. Caminharam seus caminhos em papo, som, dentro da noite, porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual.

Um dia, o mago resolveu partir em busca da estrela-guia, foi ao firmamento escrever canções corretas, brancas, suaves, muito limpas, muito leves. Buscar os sons e as palavras. Foi atrás dos compromissos da noite, foi em busca de fazer tudo e de novo, dizer sim à paixão, foi morar na filosofia.

Aqui ficou Bituca, ouvindo a canção que na América ouviu. Cantou, chorou ao ver o seu amigo partir com a lembrança do que o outro cantou.
Guardou o amigo no lado esquerdo do peito.

Redy, o mais carioca dos parisienses, aportou nas águas da Guanabara aos 17. Estagiou com Alfredo Agache – responsável pelo Plano Diretor da Guanabara que leva seu nome. Sua turma? A “Escola Carioca”. Com ideias lecorbusianas, faz parte da equipe que projeta o atual Palácio Gustavo Capanema, para ser sede, à época, do Ministério da Educação e Saúde, juntamente com Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Ernâni Vasconcellos e Jorge Machado Moreira, paisagismo de Roberto Burle Marx, revestimento externo em azulejos de Cândido Portinari, pinturas de Alberto Guignard, Pancetti e esculturas de Bruno Giorgi, Adriana Janacópulos, Jacques Lipchitz e Celso Antônio Silveira de Menezes. A obra tem consultoria de Le Corbusier. Outras obras vieram como Parque do Flamengo, Museu da Arte Moderna, mas, suas obras-primas foram os conjuntos do Pedregulho e da Gávea; uma nova visão da arquitetura moderna que une arte, bem-estar e lazer.

Darcy, traz antropologia e sociologia como sobrenome. Amigo de Anísio Teixeira foi um dos responsáveis pela criação da Universidade de Brasília sendo seu primeiro reitor. Ministro da Educação de Jango, realizou importantes e profundas reformas. Autor de vários livros, no governo carioca de Leonel Brizola, criou a Universidade Estadual do Norte Fluminense, que hoje leva seu nome, e os Centros Integrados de Ensino Público, conhecidos como CIEPs. Criou o Memorial da América Latina, no bairro da Barra Funda em São Paulo, sendo responsável por seu projeto cultural. Membro da Academia Brasileira de Letras, marcou seu discurso de posse com palavras memoráveis: “Estou certo de que alguém, neste resto de século, falará de mim, lendo uma página, página e meia. Os seguintes menos e menos. Só espero que nenhum falte ao sacro dever de enunciar meu nome. Nisto consistirá minha imortalidade”.

O que os quatro têm em comum além da genialidade? Nasceram num 26 de outubro, deixaram legados.

Escreveram parte da história do país. Poderiam assinar: “Milton Darcy de Redy Belchior”.

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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