Deixem-nos em paz com nossos cabelos

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Sou uma mulher negra e mudei os meus cabelos recentemente. Assumi os fios crespos e os pintei de loiro.  Desde então o comportamento das pessoas é, invariavelmente, o mesmo: elas tecem algum comentário sobre meus cabelos e me comparam a alguém.

Para além do fato de que cada vez que sou comparada a alguém eu deixo de ser eu mesma para ser – em parte – outra, há vários aspectos a serem considerados quando se trata das considerações aos meus cabelos ou aos cabelos de qualquer outra mulher negra.

Quero acreditar que as pessoas fazem isso com boas intenções, mas o ditado popular já anuncia que de boas intenções o inferno está cheio.  E Rousseau, o filósofo iluminista, me lembra do aspecto cruel que o ser humano assume em sociedade. O homem é bom, dizia ele, a sociedade é que o corrompe. Tendo o comportamento social em vista, me proponho a analisar criticamente o que provavelmente está por trás dos comentários sobre a estética e, sobretudo, sobre aos cabelos da mulher negra.

Cabelos

Cabelos são fios que contam histórias. Eles trazem em si significados que vão muito além da estética corporal ou do gosto pessoal. O tópico cabelo é, no mínimo, sensível para muitos. Complexo para as mulheres em geral. E quase que um assunto interdito quando se trata de mulheres negras.

Na história mundial sempre existiram figuras cujo poder e destino estavam relacionados aos seus cabelos. Medusa, Afrodite, Sansão, Rapunzel… Nas culturas africanas os cabelos não figuram apenas o campo das lendas, fantasias, ou mitologias, eles abarcam diversos significados e simbolismos. Black power, rastafaris, dreads, tranças e penteados comunicam diferentes aspectos da cultura dos povos africanos e da diáspora, como: a religião, posição social, a região da qual a pessoa origina, o estado civil e várias outras nuances subjetivas.

Pensando no contexto da colonização do Brasil e falando especificamente de cabelos, perversa e intencionalmente, houve um processo de silenciamento e apagamento deste aspecto cultural tão forte nos povos de origem africana. Por isso, os cabelos dos negros foram estrategicamente elaborados socialmente para serem associados à inferioridade, à desordem, à sujeira, à primitividade, tudo isto sintetizado na ideia de “cabelo ruim”.

Retirar os atributos humanos do negro foi apenas uma das articulações realizadas, já no período escravocrata, para tornar justificável ao sujeito branco as atrocidades que cometiam com os corpos negros escravizados e não apenas com os corpos, mas com a sabedoria, a cultura, as religiões e as subjetividades desses povos de origem africana.

Passados séculos, na minha experiência enquanto mulher negra, percebo que no imaginário das pessoas não negras, os cabelos crespos ainda carregam este estigma. Por esta construção desumanizada da negritude, há uma objetificação de nossos corpos, por isso as pessoas sentem-se na liberdade de estender a mão para tocar meus cabelos, isentando-se de assumir que com isso violam a minha intimidade e invadem o meu corpo. Sentem-se na liberdade de perguntar como eu lavo, associando a minha estética à sujeira, isentando-se de considerar que não fariam tal pergunta a uma loira de cabelos lisos. Questionam com indignação e comiseração por que não aliso meus cabelos, fazendo uma relação direta deles a algo que precisa ser domado, corrigido, apagado.

O racismo é discursivo e suas facetas são tão perversas e sutis ao mesmo tempo que essas violências vêm disfarçadas de elogios, dissociando assim tais atitudes da crueldade que elas de fato são. Mascarando que a censura à estética negra é uma tentativa de manutenção da colonização do corpo negro.

Padrão de Beleza

O padrão de beleza no Brasil considera como características físicas ideais a mulher branca, de cabelos lisos, nariz fino, sem muitas curvas, um corpo magro. A perfeita antítese da estética feminina negra, com pele que vai de bronzeada à retinta, cabelos crespos, lábios volumosos, nariz largo e curvas pelo corpo.

O padrão de beleza no Brasil é tão irreal e opressivo que faz até com que mulheres brancas, de cabelos lisos e corpos magros queiram embranquecer-se mais, alisar-se mais, afinar-se mais.

Pensando criticamente em relação à estética capilar, há mulheres negras adultas e idosas que foram obrigadas a alisar os cabelos desde tão tenra idade que sequer se recordam da textura natural de seus cabelos. Um trauma que atinge níveis tão profundos que muitas delas jamais conseguirão descobrir o prazer de reconhecer-se e de encontrar beleza em si mesmas – e não há nenhum demérito nisto. Para essas mulheres, não ter os cabelos crespos é também um ato de afeto, de acolhimento e de amor consigo mesmas.

Para aquelas que conseguem romper com a ditadura do alisamento, encontrar beleza em seus cabelos crespos representa um movimento de liberta-se das amarras estéticas que prendem a mulher negra a este lugar de oposição ao belo.

Mas por que o cabelo crespo incomoda tanto?

O cabelo crespo incomoda porque ele é uma das mais incontestáveis expressões de negritude de uma pessoa negra. Para os povos africanos da diáspora, os cabelos são um instrumento de resistência, de fortalecimento da identidade, de comunicação, de luta. Um ato político que devolve nossa capacidade de nos enxergarmos enquanto sujeitos completos que somos.

Sinal de liberdade, os cabelos crespos transmitem a mensagem de que aquele ou aquela pessoa está conscientemente fazendo seu próprio caminho de descolonização do corpo negro. O cabelo nos diferencia pelo processo de discriminação, mas também nos empodera.

Mulheres negras
Quanto a mim, confesso que embora a minha mudança tenha sido muito consciente, achei bem arriscado assumir os fios crespos e pintá-los de loiro, devido ao nível de violências estéticas escancaradas que mulheres negras sofrem por causa da aparência.

Só me aventurei em tal desafio porque encarei como parte fundamental do meu processo pessoal de torna-me negra. E como parte de um desejo genuíno de não parecer com ninguém a não ser comigo mesma.

Uma mulher negra, definitivamente, não precisa da aprovação ou da chancela de ninguém para ser aquilo que ela é ou quer ser. Então, por favor, deixem-nos em paz com nossos cabelos. Já temos o suficiente com o que lidar.

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

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