Mulheres abrem espaço na arte do grafite

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Ainda minoria, artistas presentes na 6ª edição do Festival CapStyle de Graffiti em Londrina falam de conquistas e planos para o futuro

Ana Maria Alcantara

Foto em destaque: Artistas mulheres reunidas durante o Festival Capstyle/CapStyle Festival

O grafite é uma das artes urbanas mais democráticas que existe. Ela é feita na rua e para a rua, sendo assim, qualquer pessoa pode acessá-la. Mas se o acesso a ela é incontestavelmente democrático, nem sempre podemos dizer o mesmo de sua execução. Prova disso é que dos 65 artistas que participaram neste fim de semana do Festival Capstyle de Grafitti, organizado pelo coletivo Capstyle de Londrina, apenas oito eram mulheres.

A 6ª edição do festival movimentou a cena cultural em Londrina de sexta (29) até este domingo (31), com mais de 400 metros de extensão de arte nos muros do Cemitério Municipal Jardim da Saudade, na zona norte da cidade. Foram 480 inscrições recebidas de todos os Estados e também do exterior. A escolha dos artistas se deu por meio de curadoria com base na representatividade de cada trabalho.

Fotos: Ana Maria Alcantara

Para a artista Kenia Kuriki, do coletivo CapStyle, é preciso pensar o espaço da mulher no grafite. “Historicamente nós mulheres estamos buscando espaço e, sobretudo no grafite, é muito importante conquistar esse respeito. O grafite é uma arte que nasceu na rua e a rua é um local muito perigoso para a mulher, então precisamos colocar a nossa fala sobre isso, para que os homens também entendam o que nós passamos e para que possamos trabalhar unidos, como está acontecendo aqui no festival”.

Para a artista Sayuri a arte do grafite exige resistência. “Sempre gostei de pintura e de arte e isso fez com que eu entrasse nessa área, mas antes não tínhamos oportunidade por causa do machismo mesmo. Os próprios grafiteiros não gostavam de ceder espaço, mas percebo que a nossa conquista por espaços tem se concretizado e estamos avançando bastante”.

A artista Mônica (PR) sintetiza a postura das mulheres na arte do grafite. “Na minha opinião artista já tem uma opinião muito forte. A gente precisa se impor no sentido de conquistar nosso espaço. As meninas aqui passam respeito. Aqui estamos seguras, mas não é em qualquer lugar que dá para a gente pintar, não é qualquer horário. Não é com qualquer roupa, sabe?”

Roda de Conversas

Pensando nas experiências gerais dos artistas, na sexta-feira (29) foi realizada uma roda de conversas na qual os artistas participantes do festival puderam expor pontos coletivos. Um dos tópicos abordados foi as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na arte do grafite. 

Dentre as reivindicações relatadas pelas artistas estava a urgência de um olhar mais atento às necessidades delas como, por exemplo, um espaço para deixar as crianças no evento, para proporcionar que as mães consigam estar perto dos filhos.  

Para Belle Provençano (RJ), do coletivo Mangueta, as mulheres já começam no saldo negativo. “Ser mulher nesse rolê do grafite não é fácil! Esse ambiente ainda é muito masculino. Eu e outra colega temos filhos pequenos e ainda amamentamos, então para estarmos aqui em outro Estado exige muito empenho, muita organização. Não adianta só as mulheres batalharem e botarem a cara na rua. Os caras têm que entender nosso lado também, entender o que passamos para conseguir estar aqui. Precisa uma mudança de olhar, uma mudança de atitude, espaços que acolham nossas necessidades”.

Belle Provençano

Para a artista Valéria (SC), nem sempre as mulheres são consideradas apenas como artistas quando estão executando sua arte na rua. “Uma das coisas que mais amo fazer é pintar na rua, mas para estar neste espaço existem várias outras preocupações que não apenas a arte em si. Tenho sempre que estar preocupada com que roupa vou estar, em que posição vou ficar para pintar. Se estou segura, me preocupa a questão do assédio, da vulnerabilidade…Uma mulher passa muita coisa pintando na rua”, desabafa.

Um dos idealizadores do evento, o artista Carão pontua alguns dos cuidados que foram pensados para receber as artistas no CapStyle Festival.

“Este é um festival que é referência em nível nacional. Ele é muito requisitado e para receber nossas colegas mulheres nós disponibilizamos o alojamento, mas também a opção de elas ficarem em um hotel para terem mais privacidade e para serem melhor atendidas em suas necessidades. Estamos cada vez mais conscientes das dificuldades que nossas colegas artistas enfrentam até chegarem diante do muro, mas uma vez aqui, o tratamento aos artistas é igual. Elas recebem o mesmo tanto de material que os homens e têm espaços seguros para executar sua arte”, explica.

Carão conta, inclusive, que desde o início de sua carreira já havia mulheres no grafite. “Desde que eu iniciei no grafite há 20 anos, já havia mulheres, poucas, mas havia. Tinha a Nina Pandolfo, por exemplo, a Anarkia Boladona e com o tempo o número de mulheres vem aumentando e isso é ótimo, porque o grafite é mesmo uma arte que é para todos, ela é democrática”. 

Poder transformador da arte

Mas nem só de desafios relacionados ao gênero se resume a vida das mulheres no grafite. O brilho no olhar de Mônica traduz sua paixão pela arte. “Eu amo a liberdade que a arte me traz e é muito interessante porque na rua não são as pessoas que me conhecem, sou eu como artista que tenho a oportunidade de conhecer as pessoas! Eu amo isso!”

A artista Mônica

A artista Jay, de Cascavel, tem dois filhos e relata que executa sua arte como uma forma de gerar mudanças. “Quando eu decido sair da minha casa e vir pintar, eu também estou olhando para os meus filhos, para a minha filha em especial, para abrir caminhos para que ela no futuro possa realizar os sonhos dela e também fortalecendo e abrindo caminhos para as mulheres que querem chegar. Na minha cidade (Cascavel-PR) eu fui a primeira artista mulher no grafite e hoje já tem mais de 50 meninas pintando na rua. Ou seja, eu posso fazer a diferença”. 

Ela acrescenta: “Há dificuldades de vários níveis até conseguirmos chegar aqui diante do muro, mas uma vez que estamos aqui é muito massa. A gente coloca nossa alma, nosso sentimento. É muito amor. Não existe arte maior ou menor. É sempre um pedaço de nós aqui”, explica Jay.

Esse é o primeiro grande festival de grafite que a artista Julia (SP) participa e ela já guarda boas memórias. “Ser artista não é um papel muito fácil, mas acho que a arte tem espaço para todo mundo. Claro que para alguns é mais difícil, por questões financeiras, e para nós mulheres é um caminho longo, mas a gente chega e chega muito bem, na raça! Para mim, conhecer a galera que é líder é muito massa! A troca é muito gratificante!”

A grafiteira Julia

Alegria de pintar ‘em casa’

O CapStyle Festival foi organizado pelo coletivo Capstyle, que é formado por seis artistas homens e uma artista mulher. A maioria dos integrantes é da zona norte de Londrina, por isso Carão explica a alegria do coletivo em ter conseguido realizar o evento na região.

“Muita gente acha que grafite é talento e eu digo que tudo relacionado ao grafite envolve disposição! A maior alegria nossa é que conseguimos trazer esse festival aqui para a zona norte de Londrina, trazer para cá significa descentralizar a arte. Nossa ideia com o festival é realizá-lo todos os anos. Queremos colocar o Festival Capstyle na agenda de cultura da cidade de Londrina e para isso não nos falta disposição”, finaliza.

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