Conexões Londrina celebra ‘Dia da Favela’ com programação intensa

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Serão quatro dias de ações educativas, entretenimento e entrega de cestas básicas para marcar o Dia da Favela, comemorado em 4 de novembro em todo o País

Mariana Guerin

Foto em destaque: Conexões Londrina

Para comemorar o Dia da Favela, celebrado em 4 de novembro em todo o País, o Conexões Londrina, representante da Central Única das Favelas (CUFA) na cidade, vai realizar uma programação intensa, de quinta a domingo, para a população do Jardim São Jorge, na Zona Norte.

“Onde muitos veem carência, nós vemos potência. Prova disso, é que as favelas brasileiras movimentam quase R$ 118 bilhões da economia anual do País, o que equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) da Suíça, sabia?* Quase 70% da população das favelas é negra e 51% das famílias são chefiadas por mulheres. Então, quando alguém tentar te convencer de que favela é carência, explique que Favela é Potência!”, diz o convite do Conexões Londrina, que completa: “Se você se identifica com essa pauta e pode somar nessa força, cola com nois!”.

Em Londrina, a programação de celebração do Dia da Favela terá ações educativas, de entretenimento e entrega de cestas básicas à população. Nesta quinta (4), a entrega de 100 cestas básicas será às 17 horas, na Praça da Rua Amélia Baptista Rabello, em frente ao número 130, no São Jorge.

Logo após a entrega dos alimentos, às 19h30, acontecerá uma Batalha de Rima com Mestre Damião e WMc. Pela manhã, das 8h30 às 11h30, o Tio Fred vai dar um Oficina de Cabelo e Barbearia para um público de até seis pessoas. A oficina se repetirá no mesmo horário na sexta (5).

Na sexta, das 14h às 17h30, será a vez da Oficina de Embelezamento e Autoestima, com a professora Sophia, que pretende receber até 16 pessoas. No sábado (6), acontece o Graffiti das Mina, do Elas é Zika!, na Favela do Aparecidinha, além da ação CUFA Contra a Pobreza Menstrual, às 10 horas, quando também serão distribuídos mais 100 kits de marmitas. Das 14h30 às 17h30, a professora Isabel dará uma Oficina de Saboaria Ecológica. E das 16h30 às 17h30, a professora Andrea ministrará uma Oficina de Sling e Cuidados com Bebês.

No domingo (7), a abertura das festividades acontecerá às 9 horas, e a partir das 9h10 começará o Aulão de alongamento – conhecendo Pilates, seguido, às 10 horas, pelo aulão de ioga. Às 11 horas, terá início a Feira de Negócios da Quebrada e a Oficina de Abayomi (bonecas de pano que são símbolo de resistência, tradição e poder feminino) e Contação de Histórias, com a Preta do Leite. O termo Abayomi significa “encontro precioso”, em Iorubá, uma das maiores etnias do continente africano.

Ainda às 11 horas, Edson Dutra fará um show sertanejo e ao meio-dia será servido um almoço comunitário. Das 14h às 16h, Mafiosa Hair e Leno oferecem corte de cabelo para a população. Às 14h, o Palhaço Arnica contará histórias para a criançada e às 15h haverá apresentação do DJ Dani Black e roda de capoeira. A festa continua com a apresentação do DJ Damião Milianos – Mic Aberto para o Rap Local, a partir das 15h40. Às 16h30, a Trupe Aero Circus faz seu show até as 18h, quando a programação se encerra.

“Dia da Favela” tem história

Desde o ano de 1900, o dia 4 de novembro é reconhecido internacionalmente como o Dia da Favela, pois foi nesse dia que, pela primeira vez, o termo “favela” apareceu em um documento oficial do Brasil. Em 2006, a participação da CUFA foi fundamental para que a data passasse a ser comemorativa no estado do Rio de Janeiro e entrasse no Calendário Oficial da cidade. Desde lá, essa determinação passou a valer em outros municípios e a CUFA continua, há mais de 20 anos, atuando em cerca de 5 mil favelas no Brasil e em mais 17 países.

A primeira favela do Brasil, segundo historiadores, teria se formado em 1897, a partir da ocupação do Morro da Providência, localizado na região central da cidade do Rio de Janeiro. Essa ocupação teria se dado pelos soldados sobreviventes da Guerra de Canudos, que retornaram ao Rio de Janeiro para reivindicar ao governador da época as moradias que haviam sido prometidas a eles em caso de vitória na batalha.

Como o governo não tinha recursos para cumprir a promessa, permitiu que os combatentes construíssem suas casas em um morro próximo ao quartel. Os soldados ocuparam o local e foram seguidos por ex-escravos que não tinham onde morar após a abolição.

Data reflete a existência dos periféricos

Para a representante da CUFA-PR em Londrina, Lua Gomes, o Dia da Favela é importante porque traz reflexões sobre a existência dos periféricos como um todo. “A primeira vez que se falou sobre a expressão ‘favela’ foi em 1900, num documento que falava sobre um território afastado que se chamava de favela justamente porque tinha uma referência a Canudos, uma região onde tinha um ponto estratégico de encontro na Guerra de Canudos, que era o morro do Faveleiro.”

“Essa planta, como é muito resistente, aguenta bastante no tempo seco e árido e em terrenos difíceis, ela fala muito sobre nós, sobre a nossa existência e a nossa capacidade de se reinventar”, opina Lua.

Ela destaca que entre as principais conquistas do Conexões Londrina está a capacidade de atendimento e alcance durante a pandemia. “Infelizmente, a pandemia trouxe necessidades muito urgentes e que descortinaram a pobreza e a desigualdade social. Essa é, de uma maneira até paradoxal, nossa maior vitória.”

“A gente vinha lutando nesse terreno já há muito tempo, não só com construções aqui nessa região, mas em muitos lugares do País, inclusive fora dele, para melhorar a vida das pessoas, para diminuir as desigualdades, não apenas ofertando recursos de maneira assistencialista e sim promovendo oportunidades e acessos a coisas que elas, até o momento, não tinham.”

Já a maior dificuldade do projeto é a adesão de voluntários. “Muitas vezes as pessoas começam o trabalho e acham que tudo que a gente faz é foto bacana, só que para a gente conseguir um resultado bacana, tem muito trabalho envolvido, muitas demandas a serem supridas, muitas horas de dedicação e esforço para obtenção desses resultados que a gente espera”, alerta Lua.

Em Londrina, a CUFA tem foco na educação social e na promoção de oportunidades, por meio da cultura, do esporte, da profissionalização e do desenvolvimento de habilidades, para que as pessoas consigam melhorar a sua condição econômica.

“A gente não está falando de um empreendedorismo liberal, a gente está falando de mexer com a autoestima das pessoas e valorizar a estabilidade, mostrar para as pessoas que para ser empreendedor, dá para ser autônomo economicamente, sem precisar inventar outra vez a roda, com os seus saberes ancestrais, com as construções que você traz de família, os aprendizados empíricos que a vida deu, você também é capaz de construir novos horizontes para si e para os seus”, completa a representante da CUFA.

Hoje, o Conexões atua regionalmente em 49 localidades do Norte do Paraná, incluindo a Reserva Kaingang, “que não é considerada favela dentro das estatísticas práticas, porque eles têm uma legislação diferente, mas que a gente sabe que as condições de vida de oportunidades são tão reduzidas quanto as do Flores do Campo e Aparecidinha. Talvez até um pouco mais por questões de barreira cultural e linguística”, avalia Lua.

Para contribuir com os projetos do Conexões Londrina, as pessoas podem acessar a página @conexoeslondrina no Instagram ou o WhatsApp (43) 9115-3182: “Na CUFA, a gente não constrói muros, a gente estabelece pontes entre quem tem a ofertar e quem pode receber melhor as ofertas e oportunidades”, finaliza Lua Gomes.

Censo aponta 12 milhões de brasileiros vivendo em favelas

Dados do Censo Demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que cerca de 12 milhões dos 213,8 milhões de brasileiros vivem hoje em favelas.

Ainda segundo dados do Censo, o número de domicílios particulares ocupados em “aglomerados subnormais” é de 3.224.529 unidades em todo o País. A média de moradores nesses domicílios é de 3,54 pessoas. No Paraná, são 61.807 domicílios, sendo 3,51 a média de moradores em cada um desses domicílios.

O Manual de Delimitação dos Setores do Censo 2010 classifica como aglomerado subnormal cada conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) e estando dispostas, em geral, de forma desordenada e densa.

A identificação atende aos seguintes critérios: ocupação ilegal da terra e urbanização fora dos padrões vigentes ou precariedade na oferta de serviços públicos essenciais, como abastecimento de água, esgotamento sanitário, coleta de lixo e fornecimento de energia elétrica.

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