Novembro

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Novembro chegou
Estaria eu vivendo uma utopia?
Wakanda vive no meio do Brasil
E eu fui o último a ser avisado?

Meus irmãos estampam os jornais
Não são óbitos nem motivos criminais
Eles realmente estão lá
Estão comemorando suas conquistas.

Liguei a televisão
E estamos em todos os canais
Seria uma ilusão?
Um novo conceito de blackface?
Porque não é possível
Eu realmente me vejo na televisão
E isso me marejaria os olhos.

Mas eu olhei no calendário
Novembro começou
E a gargalhada maligna
Digna de um vilão de novela
Me preenche a garganta
E se mistura com o ódio.

Nós existimos
Os olhares enjaulados parecem dizer
Como eu ousei não perceber
ÓBVIO que não nos dariam espaço assim
Mas hão de fingir que gostam de nós.

Seremos seguidos aos montes
E dessa vez não só por seguranças em uma loja
Nos chamarão para falar
Obviamente que apenas o que eles quiserem
Repetiremos as mesmas frases
Ouviremos os mesmos absurdos
Os nossos continuarão morrendo
Mas nós devemos nos resignar à felicidade de que este mês é nosso.

Seja bem-vindo Novembro
Traga consigo suas desgraças
Traga consigo suas desesperanças disfarçadas
Traga consigo tudo que nós não queremos
Mas que um branco desgraçado
Jurou que é o desejo mais íntimo de nossos corações.

Nos dirão que somos reis
Nos dirão que somos deuses
Mas hão de ignorar que já destruíram nossa beleza
Hão de ignorar que não existiriam
Nem que houvesse 500 planetas a mais
Tronos o bastante para que ocupássemos
Seria pedir demais que apenas nos respeitassem
Não em apenas um mês dentre 12
Não em apenas um dia dentre 30
Apenas em todos os dias de nossas vidas?

Eu sei que é pedir demais
Quando, mesmo em novembro
Eu sei que se sair de casa
O medo de não voltar será maior
Que a certeza de que voltarei seguro.

Seja bem vindo novembro, mas vá embora logo.

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

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