Um escultor transcendental

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Ao falar de seu talento, José Bezerra da Silva Neto intercala relatos de abdução, experiência pós-morte e vivência nas ruas de Londrina

Cecília França

Foto em destaque: José Bezerra mostra uma das esfinges esculpidas por ele/Cecília França

Ao falar de sua trajetória e seu talento para esculpir, o pernambucano radicado em Londrina José Bezerra da Silva Neto, 46, transcende o físico e busca explicações no universo e na religiosidade. Após 10 anos vivendo nas ruas, o artista superou a antiga vida, buscou acolhimento nos serviços assistenciais e hoje vive em uma casa nos fundos do Morada de Deus, instituição conveniada com a prefeitura para abrigar mulheres em superação da condição de rua. Estivemos lá poucos dias após o último temporal que atingiu a cidade e Bezerra ainda lidava com os estragos.

Ele conta que o vento forte quebrou algumas peças e os bichos com os quais divide a casa – gatos e galinhas – foram responsáveis pela quebra de outras. “Eu desanimei porque os gatos quebram, não tem onde queimar as peças. Aí fica só no pensamento de abrir uma loja”, diz o artista quando pergunto sobre seu atual momento. Mas o ânimo retorna assim que peço para ver suas obras, que ele apresenta com orgulho.

A escultura de Bezerra tem fortes referências das mitologias, especialmente egípcia. São muitas as figuras antropomórficas (metade animal metade ser humano), representações comuns de deuses do Egito. Há pirâmides, esfinges, sarcófagos. “Dava para decorar novelas, filmes”, sugere ele.

A origem do talento

Bezerra mistura relatos de experiência pós-morte, doença, abdução por alienígenas para explicar a origem de seu talento. “Minha primeira aula foi nas casas celestiais, aí eu tive que voltar aqui para a Terra para cumprir alguma coisa que tem que cumprir. A primeira peça que eu fiz foi um elefantinho, quando eu vim do céu. Depois que parei aqui em Londrina, morava em frente ao Cine Ouro Verde, aí me liguei nisso. Fui pro Caps (Centro de Referência em Assistência Social), comecei a fazer umas peças e estou até hoje”, relembra.

Em outro momento ele revela que a “ida para o céu” teria acontecido na infância após uma ingestão exagerada de remédios. Desenganado, ele acabou salvo.

Pergunto a Bezerra quantos anos ele tem e a resposta é enigmática: “Se eu falar para você que eu nem sei quantos anos eu tenho… Quer saber da carne ou do espírito?” “Do espírito”, digo. “Cinco mil anos”. Bezerra diz ter conhecido o Egito antigo e sua relação com os alienígenas – que ele acredita que habitaram a Terra – viria de lá.

“Se eu falar você não vai acreditar, vai achar que eu estou doido mesmo. (Alienígenas) me pegaram quando eu tinha 6 anos. Eu ia ser aquelas crianças que têm problema na cabeça, aí eles me pegaram, puseram um aparelho na minha cabeça, tipo um chip, está aqui até hoje, e tem uns aparelhos que eles botaram pra ficar me vigiando. Aí eu tava analisando porque aconteceu isso aí e foi porque eu vim lá do Egito”, conta.

Mito e religiosidade

Bezerra me mostra uma estátua e avisa: “Isso é um grifo, eles vivem na casa celestial. É corpo de leão e na frente, águia. Aqui tem os dragões do oceano”, diz, mostrando outra escultura. “Quando chegar o final dos tempos eles vão estufar das profundezas do mar e vir para a Terra, tudo em rebeldia do homem jogando lixo no mar”.

Além dos mitos egípcios, há, entre os trabalhos de Bezerra, uma Medusa, ciclopes (mitologia grega) e até imagens de São Francisco de Assis, que ele diz admirar porque “se dedicou aos pobres”.

Bezerra diz já ter exposto suas obras em espaços públicos de Londrina. Ele pensa em começar a vender, mas lamenta não ter local apropriado para expor e nem forno para queimar a argila ou o barro depois que se transformam em arte. Também diz sofrer preconceito de religiosos por causa da temática trabalhada.

“Estava pensando em deixar tudo organizado num lugar e ir lá ver minha família. Já veio muita gente deles aqui mas não falam comigo porque eu morava na rua”, lamenta. Quando pergunto sobre os anos na rua ele prefere me contar sobre como saiu dela.

Vida na rua e felicidade

“Eu era perdido no mundo, vivia nas drogas, aí eu peguei e abandonei o mundo perdido. Digo ‘vou parar com tudo e começar uma nova vida diferente’. Eu vivia no mundo perdido, mexia com coisa errada, aí Deus me ajudou, me deu o livramento, comecei a fazer esse trabalho e parei aqui”. Sobre sua rotina, descreve:

“Às vezes fico trabalhando aqui, cuidando das galinhas, às vezes vou trabalhar de servente, catar entulho. De vez em quando tem alguma discussão aqui, é assim a vida”. Pergunto se ele é feliz. Bezerra não conclui e demonstra saudade de amigos e familiares:

“Tõ legal, tô bem. Feliz, feliz…Eu vivo assim longe de parente, quase não tenho amizade. Ando pensando em conversar com minha família, mas às vezes também não querem…Essa é minha primeira esfinge”, diz, retornando seu foco para a arte.

Primeira esfinge esculpida por Bezerra

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