Poder e memória das mulheres negras são tema de mestrado na UEL

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Dissertação da professora Sandra Mara Aguillera, idealizadora do Black Divas, vai virar livro no próximo ano

Nelson Bortolin

Foto Black Divas/Divulgação

Coletivo Black Divas: ações para o empoderamento da mulher negra e a memória do movimento de mulheres negras em Londrina. Esse é o título da dissertação de mestrado defendida dia 19 de outubro, no Departamento de Ciências da Informação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), pela professora Sandra Mara Aguillera, idealizadora do Black Divas. O trabalho acadêmico vai se transformar em livro, com lançamento previsto para março de 2022.

“Meu trabalho fala sobre a memória do movimento de mulheres negras de Londrina e sobre ações de empoderamento da mulher dentro ou fora dos coletivos”, explica a professora, que dá aulas de inglês na rede pública estadual.

O Black Divas atua em 14 comunidades de Londrina em ações que visam a melhora da autoestima da mulher negra e também com treinamentos e capacitações para a população mais vulnerável. E ainda vem trabalhando com distribuição de alimentos.

Fundadora do coletivo em 2003, Sandra Aguillera ressalta em sua dissertação a importância da oralidade e o resgate de memórias que não estão registradas no papel ou em outras mídias. “Histórias dos bisavós, tataravós vêm à tona e as mulheres começam a comparar a vida das gerações anteriores com a delas hoje. A oralidade é muito forte. As contações de histórias das nossas bisas, das nossas avós, e tudo que elas trouxeram enquanto cultura, nós conseguimos preservar.”

Convidada para participar de bancas de seleção de cotistas para programas de pós-graduação da UEL, a professora se emociona ao destacar o pioneirismo da universidade na qual se formou. “O fato de a UEL ser a primeira do Paraná (a reservar cotas de pós-graduação) mexe muito comigo”, diz Sandra Aguillera, que só no mestrado foi ter a primeira professora negra: a docente do Departamento de Ciências da Informação Ana Cristina de Albuquerque.

“Eu chorei quando ela entrou na sala de aula”, recorda. “A vida inteira eu queria alguém com quem eu me identificasse enquanto negra e nunca tive”, complementa.

As novas gerações, na opinião da professora, têm mais exemplos para se inspirar. “Fico imaginando as crianças negras quando nos veem entrando em sala, empoderadas, falando inglês. Acredito que elas têm orgulho da gente porque não nos veem como escravas ou domésticas.”

Sandra Aguillera lembra que sofreu muito quando criança, na escola. “Na sala de aula, éramos tratadas como senzala, lá atrás. As professoras gritavam e diziam que não daríamos nada que prestasse. Muitos desistiram de tanto ouvir coisas terríveis.”

Mas a professora tinha uma mãe que não a deixava desistir. “Não foi fácil para minha mãe, que faleceu há três anos, todo sacrifício que ela passou. Meu pai abandonou minha mãe, quando eu tinha 9 anos. E ela fez de tudo para que todas nós (são quatro irmãs) nos formássemos na universidade. Quando entrei na UEL, a universidade ainda era paga. Minha mãe trabalhava o dia inteiro numa república de meninos que faziam medicina e à noite ela amassava pães para a gente vender na vizinhança”, recorda.

A professora teve de começar a trabalhar aos 13 anos, numa fábrica de rami.

A vida poderia ter sido mais fácil, já que o pai era empresário e tinha uma condição financeira privilegiada. Mas, segundo ela o pai deixou a família e foi para São Paulo morar com uma outra mulher.

Mesmo assim, ele teve importância na formação humanista da professora. “Meu pai ensinou a gente a trabalhar no coletivo. Quando criança, cheguei um dia para ele e perguntei por que nós tínhamos um quintal e dois banheiros e os vizinhos moravam num quintal com nove casas e um banheiro coletivo”. Sócio de uma construtora, o pai pediu autorização para o dono do terreno e construiu um banheiro para cada família. “Ele fez com que a gente tivesse responsabilidade pelo outro.”

Esse foi um dos motivos levou a professora a perdoar o pai, que hoje, aos 93 anos, mora com ela. Sandra Aguillera pretende dar continuidade em seu trabalho, agora em curso de doutorado no qual vai se inscrever no próximo ano. “Já recebi convite de duas universidades, uma em São Paulo e outra em Minas Gerais”, conta.

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