A consciência é negra

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Inicio a coluna de hoje propondo uma reflexão sobre o que houve no Brasil para que os negros reivindicassem um Dia da Consciência Negra.

A história desse dia começa com um sequestro. Ou melhor, com o sequestro de mais de treze milhões de homens, mulheres e crianças do continente africano, que foram trazidos em condições sub-humanas para serem explorados como mercadoria nas Américas.

Ao contrário de povos europeus, como italianos, alemães ou espanhóis, que tiveram suas passagens pagas pelo governo brasileiro para que viessem habitar terras no Brasil, os negros foram arrancados de seus países no continente africano para serem escravizados. Cerca de dois milhões deles morreram na travessia, dada a crueldade das condições que enfrentavam nos navios negreiros a caminho das Américas.

Aqui já acrescento um parêntese de que sim, havia escravização entre povos na África, mas não havia a desumanização desses povos.

A estratégia do colonizador europeu ao escravizar povos africanos foi e de construir um discurso do negro como um ser desprovido de humanidade. Um ser primitivo.  Um objeto.  Uma mercadoria.

Objetificação de corpos negros e a irracionalidade do racismo

A exploração baseada em raça criou uma relação irracional de sujeitos brancos com o sujeito negro. Brancos querem o que pertence ao negro, exceto o próprio negro. E nos odeiam por isso.

Apropriam-se de nossa cultura, de nossa música, nossa comida, demonizam nossas religiões. Reproduzem em seus corpos brancos nossos lábios carnudos, nossas nádegas grandes, nossos quadris largos. Bronzeiam artificialmente a pele para que fique mais escura, tudo numa tentativa de tomar para si atributos do negro. Blackface, apropriação cultural, cosplay, blackfishing…e assim vão tentando novas estratégias de expropriar nossa negritude.

A crueldade de povos europeus em desumanizar e explorar corpos negros vem de longa data. No início do século XIX a jovem Saartjle Baartman, da etnia khoikhoi, foi levada da África à Europa para ser exibida por causa de sua aparência e anatomia. E, após sua morte, seus órgãos sexuais, seu cérebro e seu esqueleto ficaram expostos no Museu do Homem, em Paris, até a década de 1970.  Só em 2002, os restos mortais dela foram devolvidos ao continente africano para serem sepultados.

Dois séculos depois, a mesma lógica violenta que objetificou, desumanizou e expôs Baartman como uma atração de um espetáculo circense, fez com que o afro americano George Floyd fosse asfixiado até a morte por 8 minutos e 46 segundos em frente a uma câmera nos EUA. E também com que, no Brasil, uma mulher negra com um bebê no colo fosse imobilizada pela polícia no chão e pisada, sem constrangimentos, por um policial, também diante de câmeras.

Esses são apenas dois de centenas de casos de violência que se reproduzem diariamente contra pessoas negras nas Américas. Noticiados e transmitidos como espetáculos, chamam a atenção pela tentativa de esvaziamento da humanidade das vítimas.

Extermínio, genocídio, necropolítica, racismo. Sistemas de opressão que atuam invadindo, subjulgando, expropriando e eliminando nossos corpos.

A miscigenação do povo brasileiro vem de uma postura eugenista e higienista que autorizava o estupro de mulheres negras e indígenas a fim de embranquecer a população brasileira. A previsão dos “sábios doutores europeus” era que em duas ou três gerações a população brasileira seria, enfim, branca. Enganaram-se.

Imagino o quão constrangedor é para o sujeito branco, brasileiro, descendente de europeus aceitar que vovô e vovó, ilustres senhores que dão nome à ruas e escolas Brasil afora, são os mesmos que se beneficiaram e se beneficiam até hoje da estrutura que sempre explorou, da maneira mais cruel possível, pessoas negras.

Mas a mim não importa tais constrangimentos, ou a dificuldade do sujeito branco de lidar com o luto colonial.

O negro e sua consciência

Desde o sequestro na África, houve uma tentativa sistemática de invadir o sujeito negro, mas para ocupar é preciso antes desocupar, e aí já reside a falha e a frustração do colonizador, porque o negro jamais foi ou será esvaziado de si mesmo. Todas as tentativas de tornar o negro um ser menor, uma mercadoria, um objeto não passam de histórias estrategicamente construídas para a manutenção de poder de uma estrutura colonial.

Ainda que nossa imagem tenha sido elaborada historicamente para que fôssemos odiados e desprezados, somos e existimos muito antes de qualquer história que tenham inventado a nosso respeito. 

Nós negros temos consciência de quem somos. Consciência de nosso passado de grandes civilizações, de nossa sabedoria ancestral, de nossa força para resistir e persistir. Em nossa essência, continuamos os mesmos seres de inteligência e sabedoria refinadas. Em outro plano, aqui e lá existimos numa outra dinâmica. E numa outra ordem epistemológica vibramos com mais potência do que nunca.

Há o negro que se apresenta para o mundo do colonizador e há um negro que só outro negro conhece. Somos espíritos livres. Dentro de nós há sempre algo que não pode ser expropriado. Há sempre algo que outros povos jamais conseguirão alcançar. É nosso segredo. Nosso axé. 

Há um fenômeno que é curioso entre nós, povos negros de toda parte do mundo. Nós nos olhamos e nos saudamos com o olhar. Não importa a idade, não importa se é homem, mulher ou criança. Dois negros supostamente estranhos se cruzam em qualquer parte do mundo e ocorre uma troca de olhares que diz tanta coisa. Reconhecimento, pertencimento, respeito, irmandade. Embora estranhos entre si, somos conectados por nossa história de dor, mas também pela nossa história de resistência, pela nossa sabedoria ancestral, que nos faz sobreviver.

Há sempre no negro algo que jamais será alcançado pelo não negro e somos muito conscientes disso. Nós nunca seremos retirados de nós mesmos e esta é a riqueza e a força de nosso povo.

Então, respondendo de maneira muito pessoal à questão proposta no início deste texto, digo que reivindicamos um Dia da Consciência Negra como uma data para celebrarmos quem somos, apesar do Brasil. Para celebrarmos quem somos, apesar da experiência traumática da colonização. Uma data para celebrarmos a força interior, a inteligência e a sabedoria que nos fez existir e resistir até aqui enquanto povo. Um dia para lembrar e agradecer a coragem de nossos ancestrais e honrar essa caminhada.

Ana Maria Alcantara é mulher preta, mãe, jornalista e feminista negra. Ligada no rolê de skincare nas horas vagas.

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