Rapper transforma angústias em música e sororidade

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A rapper Amanda More tem apenas 31 anos, mas muita história para inspirar o coletivo Batalha das Minas Londrina

Fotos: Divulgação

“A música sempre fez parte da minha vida. Na infância, a influência do meu pai. Na adolescência, acordava e ia dormir ouvindo músicas. Comecei a cantar na igreja e de lá nasceu a vontade de estudar música.” O relato é da arquiteta paulistana Amanda Arias More, 31 anos, que hoje é uma importante rapper no circuito hip-hop de Londrina, destaque na construção do coletivo Batalha das Mina Londrina.

De forma independente, Amanda iniciou a gravação do EP “De volta aos 90”, em 2019, com o produtor Mike, da gravadora @modusoperandi1777, em Londrina. Em parceria com a produtora de audiovisual @criadaruaoficial, ela lançou ainda um vídeo álbum de apresentação do seu canal no YouTube e tem trabalhado em projetos envolvendo mulheres na cultura hip-hop, como o coletivo Elahs Crew, que trabalha com MCs, grafiteiras, skatistas, DJs e BGirls. “A música contribui para o autoconhecimento e motiva muitas mulheres a seguirem seus sonhos”, justifica.

Suas letras são inspiradas na sua jornada de superação. Quando pequena, Amanda perdeu um rim, vivenciou a separação dos pais e a mudança da metrópole para Londrina. “Minha inspiração são as pessoas em minha vida, minha própria jornada até aqui, tudo o que superei, dilemas, amores, medo, dor e perdão. Gosto também de ouvir músicas e assistir a referências musicais que me inspiram.”

Nascida em São Paulo, Amanda viveu na capital até os 6 anos, quando a família decidiu se mudar para o interior do Paraná, onde vivia sua avó materna. “Mudamos para Londrina em 1996 porque minha mãe queria um lugar melhor para a gente crescer. Nos anos 1990, São Paulo era muito violenta. Eu também tinha uma enfermidade no rim esquerdo e os médicos não achavam a cura. Meus pais se separaram logo em seguida e foi por isso que mudamos.”

Amanda vive com a mãe e o namorado em Londrina. Seu irmão mora em Matinhos com os dois filhos e o pai vive em Balneário Camboriú. “Hoje sou eu que cuido da minha mãe.”

Rapper teve infância conturbada

Por conta da doença e dos antibióticos à base de corticoide que tomava, Amanda vivia acima do peso quando criança. “Minha infância foi conturbada. Aos 9 anos, tirei o rim esquerdo e a recuperação foi lenta. Na adolescência, sofria diversos preconceitos por conta do peso, cabelo crespo, nariz largo e o fato de não ter um rim”, recorda.

“Foi quando eu conheci o teatro da Funcart, com 12 anos, em 2002, e comecei a me comunicar melhor com as pessoas e a cantar na igreja. Comecei a me interessar pela música e pelo teatro”, conta a rapper, que entre as poucas memórias de infância, tem boas lembranças do bom gosto musical do pai: “Ele colecionava fitas do Michael Jackson e Tim Maia para ouvir na Parati vermelha anos 90. Meu pai também cantava e tocava guitarra”, lembra.

Na adolescência, ela entrou para o Conservatório de Música de Itajaí (SC): “Mergulhei na MPB, bossa nova, jazz. Nessa época, 2009/2010, já estava envolvida nos projetos sociais em presídios, centros de recuperação, nas quebradas. Por um tempo pensei em desistir do rap e comecei a cantar blues”.

“Eu sempre gostei de cantar R&B, que é um ritmo que tem forte influência do blues com as batidas do rap. Hoje sigo como cantora de R&B e rap, também contribuo na construção do coletivo @batalhadasminalondrina, que tem como visão o espaço aberto para todes, minas, manas e LGBTQIA+. Um coletivo feito por mulheres, que busca mais diversidade no movimento hip-hop”, comenta Amanda.

Para Amanda, ser mulher MC é uma missão que exige respeito e sagacidade. “Mas também é um lugar de resistência. Lugar esse que encontrei, onde posso ser eu mesma, posso cantar minhas lutas, amores e dificuldades de vida e empoderando as manas.”

A rapper conta que sempre foi mais estudiosa do que baladeira: “Mas quando eu escrevia e cantava, sentia que podia ser eu mesma”. Ela ouvia muito Negrali, Cris SNJ, Mariah Carey, Beyonce, Jenifer Lopez, Lauryn Hill e Jill Scot. “A música sempre foi meu lugar.”

“Eu sempre fui mais na minha, por conta de tudo que sofri na adolescência. Mas após as aulas de teatro, comecei a fazer amigos e escrever poemas em diários e em um blog, que abri aos 14 anos. Lá contava como me sentia, como era difícil me adaptar fora dos padrões. Eu não me encaixava, me sentia deslocada.”

“Foi quando eu comecei a alisar o cabelo e fazer regimes malucos, que mais para a frente me causaram uma gastrite nervos. Na época, eu ficava sem comer por horas, às vezes até 7 horas ou mais. Emagrecia e engordava e o bullying não diminuía.”

A doença no rim a fez valorizar a vida. “Eu lembro até hoje o medo que eu tinha de morrer na cirurgia, era uma cirurgia arriscada. Tento viver um dia de cada vez, e da melhor forma que posso. Eu amo a vida, gosto de quem eu me tornei, tenho orgulho do que superei e quero que outras se encontrem em quem são”, ensina.

Amanda quer união entre mulheres do hip-hop

Nas horas vagas, Amanda gosta de escrever, gravar guias das músicas que escreve no celular e ouvir músicas novas. “Estudo música e programação no momento, além de liderar e organizar o coletivo @batalhadasminalondrina, onde a organização e produção é toda feita por mulheres e a galera LGBT. Tenho passado bastante tempo organizando e planejando os conteúdos do Instagram e a volta da batalha em breve. Além da produção e feats que estão por vir”, enumera.

Entre os sonhos já realizados, ela cita o elogio das rappers Cris SNJ e Nicole, do grupo Inquérito: “Duas grandes mulheres do rap feminino brasileiro que assim como eu inspiraram muitas. Foram duas grandes referências musicais para mim”.

Entre os sonhos ainda não realizados: “Ver mais respeito e união entre as mulheres do hip-hop, mais igualdade dentro do movimento, onde mulheres e galera LGBTQIA+ possam ter as mesmas oportunidades, que todas possamos receber pela nossa música e poder viver dela, sem ter que vender o almoço para comprar a janta. É por isso que tenho lutado através do nosso coletivo”.

Se definindo como alguém “mais do que se pode ver”, ela diria para as manas que virão depois dela: “Não pare, não desista de você, sua voz é única. Seja forte e não esqueça de chorar quando estiver angustiada”.

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras. Siga @bolachinhasdamari

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