Homem que atacou ex-mulher em via pública vai a júri popular

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Tentativa de feminicídio de Maria Goreti da Silva será julgada nesta segunda-feira (22); crime ocorreu após anos de relacionamento abusivo

Cecília França
Mariana Guerin

Será julgado nesta segunda-feira (22), em Londrina, Dilson Marques de Jesus, 48 anos, pela tentativa de feminicídio contra sua ex-esposa Maria Goreti da Silva. O crime ocorreu em março de 2020, quando ela foi atacada com golpes de faca em uma via pública, no Bairro Lago Parque, pelo ex-companheiro. O casal se relacionou por 25 anos e o histórico de violência é extenso. Na época do ataque Goreti contava com medida protetiva de urgência.

O caso é tema do Informe n.6 do Néias-Observatório de Feminicídios Londrina. De acordo com o levantamento da entidade, Goreti teria rompido o relacionamento com Dilson cerca de 1 ano antes do atentado. Um dia depois do ataque, o homem foi detido e liberado pelos policiais. No dia 4 de março de 2020, ele foi preso e ouvido pela primeira vez pela polícia. Três dias depois, Goreti realizou exames no Instituto Médico Legal (IML) e em 18 de março foi oferecida denúncia pelo Ministério Público.

Segundo apuração do Néias, o relacionamento do casal foi marcado por violência doméstica praticada pelo companheiro, denúncias de Maria Goreti às autoridades policiais, pedidos e revogações de Medidas Protetivas de Urgência, separações e reconciliações.

Vítima se escondeu na casa de patrões

Em 2020, Goreti hospedou-se por cerca de um mês na casa de patrões na tentativa de se esconder do ex-marido, enquanto organizava sua saída de Londrina. Ela sofreu o atentado no dia em que buscava documentos necessários para a transferência escolar do filho.

O crime ocorreu por volta das 16 horas quando a mulher retornava à casa dos patrões. Ela avistou o ex-marido na rua, dentro de um carro que vinha em sua direção. Ele a teria convidado para entrar no carro e oferecido ajuda com os documentos do filho, mas ela não aceitou. Dilson, então, saiu do veículo e a alcançou na calçada, desferindo-lhe diversas facadas.

O ataque foi interrompido, Goreti recebeu atendimento médico e hospitalar.

Conforme o Néias, o réu apresentou versões distintas entre os depoimentos à delegada e ao juiz. No primeiro ele alegou que pegou o carro para ir atrás da vítima, que eles discutiram e que não se lembrava de ter desferido as facadas. Justificou o lapso de memória pelo consumo de álcool. Dilson confessou que “portava uma faca de serra”, porém alegou que “jamais teve a intenção de matá-la ou feri-la”.

No depoimento em juízo, o réu afirmou que não se recordava de nada do que aconteceu. Ainda assim, afirmou que machucou a vítima com a chave do carro e não com uma faca. Declarou que jamais teve intenção de matar a vítima e que se arrependia dos fatos. Declarou, ainda, ter encontrado a vítima naquela rua por coincidência.

MP denunciou réu por ameaça e tentativa de feminicídio

O Ministério Público ofereceu denúncia contra Dilson pelos crimes de ameaça e tentativa de feminicídio. A denúncia inclui circunstâncias que podem aumentar a pena do réu caso ele seja condenado. Entre elas: motivo torpe (não aceitação do fim do relacionamento); crime praticado mediante dissimulação (para aproximação com a vítima, o réu lhe ofereceu ajuda para conseguir transferência escolar do filho); descumprimento de decisão judicial, a Medida Protetiva de Urgência.  O MP incluiu da denúncia o pedido de “reparação de danos materiais e morais à vítima, conforme previsão estabelecida pelo artigo 387, inciso IV, do CPP”.

A defesa pede o reconhecimento da inimputabilidade do réu em razão de sua dependência química. Segundo o advogado Rômulo Facioli Sakakura Gonçalvez, “sustentamos que não houve tentativa de homicídio, mas uma lesão corporal. Por isso, iremos pedir o que chamamos de desclassificação do fato para delito diverso de crime doloso contra a vida.” Dilson permanece detido na Casa de Custódia de Londrina desde 4 de março de 2020.

Assistência acredita na condenação

O defensor público João Ricardo do Carmo, nomeado como assistente da acusação, classifica o caso como “bastante triste, mas não complexo”. “É um caso bem triste em relação a perseguição e abusos cometidos por parte do ex-marido. A expectativa da assistência da acusação é que haja uma condenação do réu quanto à tentativa de feminicídio”, diz.

Para o advogado, a desclassificação do crime como lesão corporal não tem amparo nos autos. “Nesse caso acho que não vai proceder porque os ataques foram feitos com arma branca na região do pescoço. É uma região que você não consegue dizer que não tinha intenção ou noção que poderia causar um ferimento letal. Até o médico que fez o atendimento, durante o depoimento dele, diz que, apesar de não ter tido perigo contra a vida dela, por sorte, essa com certeza não era a intenção do réu”, conta.

O júri tem início às 9h e pode ser acompanhado pelo canal no Youtube do Tribunal de Justiça do Paraná.

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