Professoras relatam agravamento da pobreza e da fome entre alunos

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“Estamos juntando moedas para ajudar nossos alunos a comer”, conta docente da rede estadual em Londrina

Cecília França

Foto em destaque: Annie Spratt/Unsplash

A Lume já mostrou como se alimentar de maneira equibilibrada é uma dificuldade para famílias vulnerabilizadas e como a escola se mostra fundamental neste cenário. Não se trata de algo novo, mas profundamente agravado durante a pandemia. Com o retorno integral dos alunos às escolas nos últimos meses, professores e professoras constatam essa triste realidade. “A questão da insegurança alimentar entre os alunos e suas famílias está muito evidente e latente”, afirma a professora de língua portuguesa da rede estadual em Londrina Maria Alves Moreira.

Segundo ela, os docentes têm se organizado para tentar suprir as demandas mais graves nas duas escolas em que ela atua. “É algo para enfatizar: nós, professores e professoras, estamos há quase 6 anos sem nenhum reajuste, estamos juntando moeda para ajudar nossos alunos a comer. Todo mês são três, quatro, cinco cestas básicas”, conta ela.

A professora relata um episódio recente que a comoveu. “Um aluno do nono ano desceu até a sala da pedagoga e disse ‘Fulano não vem na aula porque teria que vir a pé e ele não tem comida em casa. Vocês têm que ajudar ele!’. No dia que o coleguinha foi ele lanchou junto. Achei linda a atitude dele, de pedir socorro para o colega e dar esse suporte emocional de sentar junto na mesa do lanche. Montamos uma cesta e pedimos que o pai fosse buscar”.

Insegurança alimentar é um conceito técnico cujos níveis (leve, moderada ou grave) definem a privação de alimentos de determinada pessoa ou família. Estudo mais recente da Universidade Livre de Berlim mostrou que, em dezembro de 2020, 15% dos lares brasileiros eram atingidos por insegurança alimentar grave, ou seja, pela fome.

Outra situação recente comoveu a professora Maria, mostrando o empobrecimento da população. Um senhor que costuma buscar leite na escola para levar para a vizinha, cuidadora de uma criança com deficiência, desmaiou na saída da escola. “Quando ele voltou do desmaio ele disse ‘Há dias que eu não como’. Eu cheguei no momento em que a professora de educação física estava aferindo a pressão dele. Perguntei se ele conseguiria ir à UPA, eu o acompanhei e ele foi atendido. A enfermeira e o médico não tiveram dúvidas: ele desmaiou de fome”, comeve-se.

“Ele nem é de família de aluno, mas foi mais uma cesta básica que organizamos. Isso está sendo muito comum e faz muito tempo que a gente não via. Minha expectativa é que o retorno do emprego no fim do ano amenize”.

‘A gente vê o desespero no olhar da criança e das famílias’

Professora das redes estadual e municipal, Olienne Maria de Oliveira diz que a precariedade entre os alunos do Estado é mais evidente e sempre ocorreu, mas foi agravada com a pandemia. “O que eu percebi no momento que nós retornamos para a escola: dá para perceber a ânsia das crianças para a hora do recreio, para comer. É o tempo todo ‘Tia, que hora que é a hora do recreio?’ Aí eles vão, pegam aquelas marmitinhas, repetem 2, 3, 4 vezes. Isso, no meu entender, faz um apontamento evidente da necessidade que eles passam”, avalia.

“Eu digo para você, daquilo que eu sempre vivenciei dentro da escola pública, que não mudou. As famílias permanecem carentes, permanecem passando necessidades e a escola, felizmente ou infelizmente, muita vezes é a garantia de alimentação minimamente balanceada para crianças e adolescentes. É um tanto quanto desesperador. Mas a gente continua não sabendo lidar com isso. Com a pandemia agravou? Agravou. E a gente vê o desespero no olhar da criança e da família que chega procurando uma cesta básica”.

“A pandemia mostrou como a escola é um lugar de proteção”

Almerita de Paula, professora mediadora

“Houve um empobrecimento geral. As famílias que já eram pobres ficaram mais pobres”, acrescenta a professora mediadora no município Almerita Jurema de Paula. “Fui fazer uma visita esses dias e vi fogão à lenha. Passaram a usar lenha para ter condição de fazer seus alimentos, porque o gás está muito caro. A lenha que é queimada, talvez, nem seja adequada para fazer a alimentação. Eu percebo que há um novo movimento em relação à questão alimentar”.

Durante a pandemia o município forneceu cestas básicas às famílias dos alunos e as moderadoras levavam até aquelas que não podiam buscar nas escolas. A chegada de muitas famílias de imigrantes a Londrina, especialmente venezuelanas, trouxe outro ponto de preocupação, tanto que a Secretaria Municipal de Educação preparou os professores para receber e se comunicar com eles de forma empática.

“A gente está recebendo de fora, mas a gente tem dentro do nosso município a precariedade. Isso não quer dizer que o serviço não está acontecendo. Está acontecendo, mas não é suficiente”, afirma Almerita.

‘Janeiro é um mês que nos preocupa’

Martinha Clarete Dutra, coordenadora de mediação e ação intersetorial (COMAI) da Secretaria Municipal de Educação, que inclui o projeto de professoras mediadoras, conta que desde o momento em que aulas remotas foram decretadas, em março de 2020, a equipe não ficou nem um dia fora do trabalho presencial.

“Ficamos o tempo todo monitorando as crianças em situação de vulnerabilidade social porque a gente já sabia que cerca de 35% da nosssa rede não possui conectivadade. Por essa razão teriam ampla dificuldade para acompanhar atividade pelo whatsapp, ou qualquer outra plataforma. Nossa equipe foi reforçada para manter as crianças com os materiais impressos e orientar essas crianças”, relembra.

No decorrer da pandemia, Martinha diz que a equipe identificou “a insegurança alimentar cada dia mais agravada, pela falta de emprego, pela falta da atividade informal que muitos desenvolviam e pela política pública de assistência social não ter tido o investimento necessário nesse período”. “Então a secretaria de educação agregou ao orçamento da assistência o recurso da alimentação escolar e nossa equipe passou, inclusive, a entregar esses alimentos nas casas dos estudantes. E essa demanda vem crescendo”, afirma.

Com o retorno presencial da maioria dos estudantes, em agosto, e a retomada da alimentação escolar ficou óbvia a importância dessa merenda. “Atendemos famílias em que a alimentação principal é essa, feita na escola”.

“Claro que o impacto de tudo isso é muito forte na vida da criança, elas relatam para nós a falta do alimento, a falta de diversidade”

Martinha Clarete, coordenadora do COMAI

O mês de janeiro, de férias escolares, causa grande preocupação na coordenadora. “Nos preocupa bastante, não só por conta da falta do funcionamento da escola, mas pela segurança alimentar da criança e pela segurança física também. A gente tem recebido um número grande de notificação de violência física, psicológica, sexual, se agravou muito nesse período”, lamenta.

O COMAI atua em parceria com a assistência social e demais serviços de proteção e segurança para que crianças em vulnerabilidade social fiquem o menor tempo possível expostas a situações de violência e precariedade. Sobre uma retomada da economia que possa diminuir a pobreza, Martinha avalia:

“É muito gradual, porque a maior parte dessas famílias vivem de trabalho informal. E esse trabalho informal surge aos poucos, e aí a famílias acabam indo para a reciclagem, ficam dependendo, muitas vezes, de um trabalho de diarista, quando tem, e de modo geral isso desorganiza muito o funcionamento da família e o atendimento das crianças”.

Aumento da pobreza em números

Durante a pandemia 11 mil famílias de Londrina foram adicionadas ao Cadastro Único (CadÚnico) do Governo Federal, que integra famílias com renda de meio salário mínimo por membro, até um total de três salários mínimos. Eram 52 mil em 2020 e passaram para 63 mil no mês de novembro de 2021. Destas, 17.411 recebiam o Bolsa Famílias e estão aptas a receber o Auxílio Brasil, novo programa social do governo. Para ter o benefício debitado é preciso estar com o cadastro atualizado. A prefeitura orienta que, caso não receba o valor até o dia 30 de novembro o benefíciário deve procurar a Central Telefônica da Assistência Social ((43) 3378-0420, (43) 3378-0425, (43) 3378-0426 ou (43) 3378-0431) ou o Centro de Referência da Assistência Social (Cras) mais próximo de sua residência. De acordo com a secretária de assistência, Jacqueline Micali, desde 2019 não há inclusão de novas famílias no programa social do Governo Federal, gerando uma fila de espera de 13 mil famílias.

Crianças podem ter sequelas permanentes

A médica residente em Medicina da Família e Comunidade, Flora Passini, que atua em Unidade Básica de Saúde (UBS) do município, explica que o imapato imediato da falta da alimentação no organismo é a hipoglicemia, que pode causar dor de cabeça, estômago, com risco de desmaio ou queda. Os efeitos da falta de alimentação podem ser nefastos a longo prazo para crianças.

“O corpo precisa de energia, em primeiro lugar, para fazer suas atividades básicas cerebrais, motoras, funcionamento dos órgãos também. Primeira fonte que o corpo vai sentir falta é a glicose, energia, que vem de todos os alimentos, principalmente carboidratos. (Com a falta) Ele começa a procurar nas reservas. Se a pessoa tem pouca gordura, depois vai procurar na própria musculatura. Pode até prejudicar o estoque de ferro, vitamina…”, explica.

Em crianças com algum déficit proteico, de ferro, vitamina D, pode ocorrer perda de atividades mental, motora, de desenvolvimento, crescimento. “Pensar no ferro, por exemplo, causa uma anemia e a criança pode ter até sequela permanente. Ela pode ter uma restrição da inteligência, da motricidade, de aprendizado, pode ter sequelas em alguns órgãos do corpo. É muito mais grave para a criança porque não está desenvolvida ainda”, ressalta a médica.

Merenda escolar é única refeição para muitas crianças. Foto: Vivian Honorato

Ativista da Rede Nacional de Médicos e Médicas Populares (RNMP), Flora diz que os pedidos de cestas básicas são constantes, e se angustia com a diminuição nas doações. “Parece que agora que está mais precisando – mais que antes até – tem menos doação para conseguir amparar. A gente tem percebido num contexto de avaliação das famílias, muitas que têm dificuldade de manter uma alimentação mais saudável. Muitas vezes ficam ali num fubá, em uns alimentos muito carentes de nutrientes”, lamenta.

Segundo ela, os quadros de obesidade infantil aumentaram muito, mas se trata de uma “desnutrição invisível”, quando “provavelmente, a criança não está comendo proteína, vegetais”. Quadros de anemia e de deficiências nutricionais apontadas em exames também estão mais frequentes, na população em geral.

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