O perigo dos supremacistas

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A final da Taça Libertadores da América disputada no último sábado entre Flamengo e Palmeiras, em Montevidéu, no Uruguai,  nos apresentou, mais uma vez, cenas lamentáveis e gravíssimas. E não estamos falando de jogador que simula falta até quando o árbitro encosta nele, embora lamentável também.

As cenas de que estamos falando, e que são graves de verdade, ocorreram em uma churrascaria, no estado de Santa Catarina, quando um ônibus levando torcedores do time carioca fez uma parada para o almoço. Alguns torcedores brancos entraram no estabelecimento, que estava vazio, tranquilamente, logo atrás deles dois torcedores negros, que estavam no mesmo ônibus, foram impedidos de entrar no estabelecimento pelo dono.

Sim, caros leitores, o dono do estabelecimento fechou a porta na cara das duas pessoas negras que tentavam almoçar em seu restaurante, junto de seus colegas brancos. O racista travestido de comerciante “do bem” alegou que não havia lugar para recebê-los, o que era falso, já que, pelas imagens, o local estava vazio. Quando confrontado com sua mentira, inventou que a comida do local havia acabado, o que também era mentira.

Diante dessa situação, a Polícia Militar do Estado de Santa Catarina foi chamada pelo estabelecimento, sim, o criminoso chamou a polícia, que concorreu para o crime de racismo, impedindo as pessoas de entrarem no estabelecimento.

Como se não bastasse tamanha barbárie, tentaram impedir os dois colegas brancos que estavam dentro do estabelecimento de sair do local e fecharam diversos acessos a outros restaurantes para a caravana flamenguista, que só conseguiu encontrar uma parada para se alimentar duas horas depois.

As imagens mostram os policiais auxiliando o dono do estabelecimento a impedir a entrada dos torcedore negros, fato estarrecedor e repulsivo. Mas, infelizmente, casos assim não são isolados.

Em setembro deste ano, outro policial militar do Estado, esse na reserva, aparece em vídeo ameaçando agredir uma mulher negra, desferindo ofensas racistas contra ela e seu filho e admitindo que tem ódio de negros.

O belo estado nos brindou ainda com a notícia de que uma adolescente teve suas tranças cortadas por uma colega de escola, que alegou que tomou aquele atitude porque o cabelo da colega era “negro e ruim”.

Todos esses fatos ocorreram em menos de três meses, no mesmo Estado, onde a polícia claramente coaduna com crimes cometidos contra pessoas negras, Estado onde a população tem orgulho de se dizer supremacista e comemorar aniversários com bolos estampados com a cara de Hitler. O mesmo estado que chegou a ser governado por uma Governadora cujo pai é abertamente nazista e que, quando questionada sobre a postura do pai, a então Governadora se esquivou.

Essa é a realidade monstruosa que o bolsonarismo nos trouxe; tirou-se do armário supremacistas, racistas e homofóbicos; retirou-se o véu de pessoas que guardavam no fundo do âmago os sentimentos mais estarrecedores, primitivos e condenáveis; libertou a violência e o ódio; colocou em estado terminal uma sociedade há muito adoecida.

Não há muito o que falar frente a tantas barbaridades, só que os sulistas estão redondamente enganados: o Sul não é meu país. O Brasil não é isso, essa mistura de ódio, violência e intolerância; o Brasil não é esse projeto fascistóide; o Brasil é acolhedor, amoroso. Basta perguntar para pessoas estrangeiras, eles lhe dirão. O brasileiro abraça, beija; o brasileiro ajuda o outro de graça, basta um carro parar na rua e um começar a empurrar para ver-se que outros chegarão para ajudar. Esse é o brasileiro, um povo cheio de esperança, de solidariedade, não essa sombra supremacista com nome europeu que se acha superior que todos os demais brasileiros.

Enfim, esperamos que todos esses casos de racismo sejam devidamente apurados e que os racistas sejam condenados, nas penas da lei – lei esta que, ressalta-se, está aí desde 1989 – viram, não foi coisa de petê não.

E que a esperança volte a brilhar nesse país tão machucado pela pandemia de ódio que se alastrou nos últimos anos.

*Paula Vicente e Rafael Colli são advogados especializados em causas de Direitos Humanos, minorias políticas e Direito Penal em Londrina

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