Geógrafo disputa uma das primeiras vagas de doutorado por cotas na UEL

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Neste ano, pela primeira vez, 30% das vagas dos programas de mestrado e doutorado da universidade são reservadas a pessoas pretas e pardas

Nelson Bortolin

O geógrafo e professor universitário Fábio Aparecido Vaz Dantas, 39 anos, está entre as 122 pessoas pretas e pardas que disputam a primeira seleção de pós-graduação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) com cotas. Neste ano, pela primeira vez, 30% das cerca de 900 vagas de mestrados e doutorados são reservadas para esta população. Ainda há 5% de cotas para pessoas com deficiência e mais 5% para indígenas.

As bancas para deferimento das inscrições dos cotistas já foram realizadas no mês de novembro, mas os processos seletivos ainda estão sendo realizados. Dantas, por exemplo, faz entrevista com a banca do doutorado do Departamento de Geografia nesta quinta-feira (2). Ele terminou o mestrado em 2015.

“A implantação dessas cotas foi uma conquista para todos nós. A população afrodescendente já passou por muitas dificuldades neste País e geralmente vem de escolas públicas, como no meu caso”, afirma.

Quando foi aprovado no mestrado, o professor concorreu no sistema universal, já que não havia cotas. Questionado se teme ser alvo de críticas nesta nova etapa da carreira acadêmica, ele diz que não se importa. “Quando eu entrei na graduação, no início, eu tinha um certo constrangimento de dizer que fiz vestibular por cotas. Não foi o meu caso, mas vi cotistas de outros cursos serem menosprezados”, recorda.

Fábio Dantas, durante aula para alunos de arquitetura na Unopar

Logo ele entendeu que, ao contrário de privilégio, as cotas são um reconhecimento pelo processo histórico pelo qual os afrodescendentes passaram no País. “É só a gente olhar em volta. Na universidade particular onde dou aulas para o curso de arquitetura, sou o único professor negro. Entre os meus alunos, dá para contar nos dedos os negros”, relata.

“Será que os negros não querem ir para a universidade? É claro que querem. O que acontece é que a gente não tem a mesma qualidade de educação (em relação aos brancos ricos e de classe média). Eu nunca pude fazer cursinho. Então, os negros não conseguem concorrer de forma igualitária”, declara.

Dantas concluiu a graduação como segundo melhor aluno da turma.

No doutorado, ele pretende dar seguimento à pesquisa que já realiza com mapeamento das escolas municipais por meio de drones. “O projeto visa dar melhores condições para o planejamento do Poder Público. Pretendo criar um banco de dados disponível para a sociedade com imagens que possam ajudar a tomada de decisões (em relação à rede pública escolar)”, alega.

Diretora de pós-graduação da UEL, Silvia Márcia Ferreira Meletti conta que, além das 122 inscrições de pessoas pretas e pardas, 11 candidatos se apresentaram como pessoas com deficiência e três buscaram a cota de indígenas.

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