Júri de feminicídio é adiado e mãe clama por justiça

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Acusado pela morte de Elaine Cristina só será julgado em março de 2022 em Londrina: “Estou sofrendo muito”, diz mãe da vítima

Cecília França

Foto em destaque: Nadine Shaabana/Unsplash

Foi adiado para 17 de março de 2022 o júri popular do feminicídio de Elaine Cristina de Brito, que ocorreria nesta quinta-feira, 2 de dezembro. Elaine foi encontrada morta em 3 de fevereiro de 2019, quando tinha 44 anos, na casa de Marcos José Bisterso, com quem estava vivendo há cerca de uma semana, e, desde então, a mãe espera por justiça. “A gente não conhece esse assassino. Ele tirou ela da minha casa, levou minha filha para o meio do mato para fazer isso com ela. Eu quero justiça”, declara Elenita Rodrigues de Brito à Lume.

Foi a mãe de Elaine quem informou à reportagem sobre o adiamento do júri. Para ela, o novo prazo representa mais tempo de sofrimento intenso para a família. “Eu emagreci 10 quilos, tenho 71 anos. Ela era minha companheira. Eu estou sofrendo muito. Meu marido é cadeirante, ficou com problema no coração por causa disso”, conta.

Mãe de 10 filhos, Elenita contesta a versão do acusado de que Elaine teria cometido suicídio por enforcamento. “É mentira. O oficial de justiça veio aqui e disse que ela foi estrangulada. Ela era uma menina bonita, gostava de se arrumar, por que ia se matar? O povo disse que ele tinha ciúme dela”, conta mãe.

O feminicídio de Elaine ocorreu por volta das 9h do dia 3 de fevereiro de 2019, dentro da casa de Marcos, em uma ocupação na Zona Norte de Londrina. O réu afirma ter encontrado a mulher enforcada por uma corda amarrada em uma viga, tendo, então, gritado por ajuda. Um vizinho adentrou na residência e cortou a corda com um facão.

Para o Ministério Público, no entanto, Marcos foi o responsável pela asfixia de Elaine e teria adulterado a cena do crime para simular suicídio. Ele foi denunciado em setembro de 2019 por feminicídio e fraude processual e preso preventivamente em 1 de novembro do mesmo ano.

No processo um dos policiais que atendeu a ocorrência destaca ter estranhado a presença de manchas de sangue no chão e de lesões no abdômen e no rosto de Marcos, que alegou ter se ferido com lâmina de barbear, enquanto as lesões constantes nas mãos teriam sido ocasionadas durante seu trabalho.

No relatório de local do crime consta outra informação que parece contradizer a versão do réu: a corda no pesçoco da vítima estaria aparentemente de forma reta, e não perpendicular, como geralmente ocorre de situação de enforcamento em decorrência da tração pelo peso do corpo.

Feminicídio “invisível”

O caso de Elaine não teve cobertura da imprensa na época, tampouco agora, às vésperas do julgamento, que acabou adiado. As Néias-Observatório de Feminicídios Londrina abordou o caso em seu Informe n.7 e avalia a invisibilização da história de Elaine como uma consequência de seu perfil racial e social.

“Sendo mulher negra, pobre e em situação de desproteção social, esses casos, como de Elaine, nem sempre atraem interesse da imprensa. Ao invisibilizar certas vítimas da violência doméstica contra mulheres, dificultamos o enfrentamento a este que é um problema estrutural e que, apesar de atingir mulheres de todas as condições sociais, todas as faixas etárias e nas diversas condições de classe, manifesta-se com maior frequência vitimizando mulheres negras e pobres”, apontam as Néias do documento.

“Néias trabalha para que Elaine, que não teve voz quando sua foi ceifada, em 3 de fevereiro de 2019, tenha vos agora por ocasião do júri popular”, complementa o Informe. O Observatório só soube do adiamento do julgamento no fim da tarde desta quarta-feira. O pedido teria partido da defesa do réu, motivado por problemas de saúde da defensora.

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