Londrina Revelada: fotógrafo lança livro com retratos autorais da cidade

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Rei Santos fotografou bairros e distritos de Londrina e compilou 125 imagens em livro que mostra o documental e o imaginário, despercebidos na correria do dia a dia

Mariana Guerin

O fotógrafo londrinense Rei Santos lança hoje, às 18h30, no Sesc Cadeião (Rua Sergipe, 52), o livro “Londrina Revelada: Entre o Documental e o Imaginário”, que reúne 125 fotografias do acervo pessoal de Santos, produzidas entre 2006 e 2021. Além disso, conta com textos de Walter Ney, Paulo César Boni e Isaac Camargo.

Conforme o autor, as imagens contidas no livro não se limitam à área central de Londrina ou aos clichês turísticos, mas estendem-se por seus bairros e distritos, mostrando suas surpresas, contrastes, belezas, ou não, de suas paisagens, de seus personagens anônimos, dos desenhos geométricos ocultos em sua arquitetura, do bucolismo rural, das festas e costumes populares entre tantos outros detalhes despercebidos na correria do dia a dia.

Além de transformações urbanas marcantes, há também uma preocupação para o registro deste momento único na história: a pandemia da covid-19.

“De maneira afetiva, cuidadosa e respeitosa com a cidade, seus cidadãos e personagens, surge este compilado de 125 fotos autorais coloridas e em preto e branco que trazem em pequenas fatias instantâneas de tempo e espaço, o cotidiano e as paisagens londrinenses, onde o palco dos melhores espetáculos quase-vistos (da sutil diferença entre ver e enxergar), sem dúvida nenhuma, é a rua”, descreve a sinopse da obra. 

Na sequência do lançamento, às 19h30, haverá uma mesa-redonda com a participação do autor do livro, da presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Londrina (Compac), Vanda de Moraes, e do professor e coordenador do Instituto Câmara Clara, Edson Vieira. O debate abordará a importância da fotografia documental e artística, além de sua contribuição para a preservação da memória e seu papel na história patrimonial.

A presidente do Compac, Vanda de Moraes, destaca a qualidade do trabalho fotográfico realizado por Santos: “Londrina tem a sorte de contar, historicamente, com grandes fotógrafos que nos legaram seu olhar sobre a cidade. O acervo do Museu Histórico inclui nomes como Hans Kopp, José Juliani, Carlos Staenders, Yutaka Yasunaka, Oswaldo Leite e Haruo Ohara, só para citar alguns. E, na nova geração, um dos destaques é Rei Santos, com seu olhar apurado e poético, revelando momentos únicos da cidade e seu povo em permanente construção.”

Livro é patrocinado pelo Promic

Santos revela que há anos pensa em publicar um livro de fotografias. “Mas não um que tivesse fotos apenas da cidade de Londrina.” Isso só aconteceu porque ele teve seu projeto aprovado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), que garantiu o patrocínio para a publicação da obra.

“O tempo entre o começo de tudo, contando da escrita e envio do projeto até o enviar do arquivo final para a gráfica, levou em torno de cinco meses. Coloca-se aí todos os processos burocráticos e de criação”, conta Santos.

Segundo ele, a escolha das fotos foi um trabalho difícil. “Uma longa e árdua tarefa para dizer a verdade. Afinal, são 16 anos de registros realizados e milhares de fotos foram vistas e analisadas para compor a narrativa do livro. Além de um tempo razoável para revirar HDs, tem a questão afetiva, que pesa bastante neste momento”, comenta o fotógrafo.

Este é o primeiro livro de outros que Santos deseja publicar. “Agora que aprendemos muito sobre o processo de publicação, digo nós, pois trabalhamos em equipe. Somos eu, Laura Vicente e Gracieli Maccari, da Sua Produtora, e o Chico Santos, responsável por toda parte gráfica deste projeto, podemos dar outros passos, pois material tenho bastante, que, possivelmente, poderá render outras publicações.”

Fotógrafo confessa influência da escola bressoniana

Ele cita a frase do fotógrafo americano Ansel Adams (1902-1984) para definir suas influências: “Você não tira uma fotografia apenas com uma câmera. Você traz para o ato da fotografia todas as fotos que viu, os livros que leu, as músicas que ouviu, as pessoas que amou”.  

“São muitas, vindas de vários segmentos, de uma vida em si. Mas acredito que em minhas fotos autorais eu consiga (ou tente) expressar a admiração que tenho pela escola bressoniana, de Cartier Bresson, entre tantos outros fotógrafos, fotógrafas e artistas estrangeiros com os quais tive contato até aqui”, diz Rei Santos.

Como muitos fotógrafos, ele teve sua rotina de trabalho prejudicada pela pandemia, com pouca produção autoral. “De certa maneira, o isolamento e toda essa pressão sofrida por milhões, como falta de trabalho, incertezas e crises diversas, me fizeram retomar projetos pessoais. Um deles foi o “Foto Pedal”. Elegi a bicicleta como veículo antiestresse, o que deu muito certo, e nas minhas andanças pela cidade e redondezas, eu sempre me deparava com cenas interessantes.”

“Então pensei em unir o útil a o agradável: por que não levar a câmera comigo? E foi assim que fiz algumas fotografias muito interessantes, que inclusive estão neste livro. Uma é a foto da Kombi (página 126) banhada por um recorte seco de luz, que fiz embaixo de um pontilhão da PR-445, num domingo de manhã. Levei uma hora até acertar o timing e uma foto razoavelmente boa. E ela está lá, presente!”, destaca.

Ele conta que costumava levar sua câmera DSLR, de uso profissional, mas que a atual situação de risco e o fato de ir a bairros cada vez mais distantes, o fez ter mais cautela. “Então eu ando com uma camerazinha menor, menos potente e mais discreta. Assim posso fazer algumas fotos onde quer que eu vá, com menos qualidade, mas com mais segurança.”

Projeto fotográfico contou com a companhia da filha

Além do livro e do projeto “Foto Pedal”, Santos tem outros desejos que pretende colocar em prática, mas por enquanto tem vivido “um dia por vez”. “Botei em prática o projeto pessoal ‘Fotografáveis/Bairros’, que é a mesma proposta do ‘Foto Pedal’, mas sem a bicicleta. Eu saí durante a pandemia, de máscara, eu e minha filha pequena, caminhando a pé pelos bairros aqui da redondeza. E nesse tempo de apreciação maior, consegui enxergar coisas que não via antes.”

“Várias fotos bacanas foram capturadas durante estas andanças. Uma delas está no livro também, que é uma imagem de Jesus Cristo dentro de uma caixinha de luz 4×2 com vidro (página 92), no muro de uma casa no Jardim Coroados, Zona Oeste de Londrina”, cita.

Tendo a fotografia como sustento há 16 anos, essa profissão, para ele, é essencial. “Com o exercício da fotografia, acredito ter me tornado uma pessoa um pouco melhor. A fotografia me ensinou a observar mais e a falar menos e isso, colocado em prática no dia a dia, me ajuda a compreender e a enxergar as coisas e agir de uma maneira um tanto quanto diferente diante de certas situações.”

Primeiros contatos com a fotografia foram nos anos 1980

“Ali aconteceram várias oficinas culturais que foram levadas pelo pessoal do Projeto Gente, liderados pela Nitis Jacon. O Projeto Gente foi criado pelo Grupo Núcleo I, nascido do Grupo Proteu, de teatro. Foi durante a quarta série que, através deste projeto, tive minhas primeiras aulas de produção de texto, de sensibilização musical, de dramaturgia e de fotografia pinhole, onde as câmeras eram improvisadas com caixas de sapato e latas vazias.”

“Quem ministrou a oficina de fotografia foi o José Marques, mais conhecido como Negativo, que, décadas depois, fora meu instrutor, praticamente meu professor de laboratório e fotografia analógica na UEL, durante minha graduação em Artes”, recorda.

Em 2006, ele iniciou os trabalhos como fotógrafo amador e depois de quase uma década conseguiu se profissionalizar, com registro no Ministério do Trabalho como repórter fotográfico. “Me tornei pessoa jurídica e cheguei a trabalhar como fotógrafo freelancer na Folha de Londrina durante três anos, época de muito aprendizado.”

“Foi durante a graduação em Educação Artística na UEL que descobri que me apaixonara pela fotografia. Ver uma imagem surgindo num papel em branco ao ser submerso em uma bacia com um líquido transparente foi algo mágico que me motivou a chegar até aqui”, justifica.

História a um clique de distância

Questionado sobre a importância da fotografia para a cultura e história de um povo, Rei Santos devolve a pergunta: “Como seria o mundo, hoje, sem a invenção da fotografia? Acredito que sequer conseguimos imaginar o mundo sem fotos, que aos milhões nos são apresentadas diuturnamente, muitas das vezes sem o nosso consentimento”, opina.

“Com a ascensão da tecnologia e a dependência exacerbada das redes sociais e smartphones, hoje nós mesmos nos tornamos imagem e consecutivamente um produto, uma mercadoria”, filosofa o fotógrafo.

Para ele, as imagens como um todo, passando pelo desenho, pintura, a escultura, a fotografia e outras manifestações de cunho visual, entre outras expressões humanas, são como rastros, como pistas de uma época.

“É através destes símbolos que podemos nos conectar com o passado, assim como repensar um futuro. Sim, as fotografias nos ajudam a contar a nossa história e a manter a memória, a um clique de distância.”

Serviço:

Uma versão reduzida do livro “Londrina Revelada: Entre o Documental e o Imaginário” será disponibilizada gratuitamente, de forma virtual, no site da Secretaria Municipal de Cultura, após o lançamento da obra.

Já o livro físico está sendo comercializado com preço promocional de R$ 60 até hoje (1). Posteriormente, poderá ser adquirido por R$ 80. Os interessados em adquirir um exemplar poderão entrar em contato com Rei Santos, pelo número de WhatsApp (43) 99138-2034.

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