Homofobia, transfobia, LGBTfobia, mesmo que seja contra fascista, continua sendo fobia

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Diante do cenário de guerra, de genocídio, de censura, de miséria instaurada, de venda do país para os norteamericanos, das queimadas de nossas florestas, nossos museus, nossos direitos, nossa educação, das perdas trabalhistas, da precarização social, dos precatórios, das rachadinhas… o que mais importa são as pregas de certo alguém. Sério mesmo? É esse tipo de ataque rasteiro que vai desqualificar a conduta necropolítica em curso?

Homofobia, transfobia, LGBTfobia, mesmo que seja contra fascistas, continua sendo fobia, não perde sua força de destituição do outro pela sua orientação sexual e afetiva. Mas parece que para muitos, inclusive que se consideram da esquerda, essas pautas, que muitos ainda classificam identitárias, são irrelevantes, atravancam a revolução de classes, como se uma coisa não estivesse atravessada pela outra. O patriarcado e o machismo são presentes nas falas e atitudes de muitos machos hegemônicos, inclusive esquerdomachos, uns que até batem na mulher, ou rejeitam seus filhos LGBTIA+ e Queer, violentam a existência alheia e, por vezes, até suas próprias existências, enfiando-se num armário e frequentando os aplicativos de pegação ou saunas gays.

Desde quando ser noivo de Aristides ou do Arnaldo, João, Claudionor… é ofensa pra alguém? Tem parte da esquerda que ainda acha ofensivo. E tem gente da direita e extrema-direita que se ofende a ponto de mandar prender quem assim o chama. Homofobia não tem partido, não é mesmo?

Vocês fazem ideia de quantos meninos sofrerão bullying, a partir desta semana, e serão piadinha da turma, chamados de “noivinha de Aristides”? Inclusive, alguns podem até ser filhos de quem faz a chacota nas redes sociais, ou sobrinho, amigo, filhos de amigo ou até mesmo ele próprio.

Percebam que a “ofensa”, o “insulto” vem no feminino. Trata-se de noivinhA e não noivinhO de quem quer que seja. Percebam que a homofobia vem acompanhada de misoginia. Não se trata somente de ser homossexual ou não, o que está em jogo nesta cena é a lógica da passividade.

A grande maioria das violências e mortes provocadas a partir do sistema de classificação sexo/gênero estão ligadas a lógicas da passividade, numa sociedade que categoriza, classifica, disciplina, vigia e pune, com diversas tecnologias de exclusão e negações de direitos, corpos que não se enquadram nos padrões do que se considera como normal.

A lógica normatizadora, no caso do Brasil, é herança da colonização sobre os nossos corpos, que desde a invasão dos portugueses foram vistos como selvagens, relatados na carta de Pero Vaz de Caminha à Coroa, justificando a invasão das terras, mesmo que habitada pelos povos originários, pelas premissas da civilização. Em outras palavras e no que tange à sexualidade e ao gênero, nem homens e mulheres os corpos originários foram considerados pelos invasores, mas selvagens, que necessitavam se enquadrar nos moldes europeus, cristãos e brancos, para a partir daí conseguirem almejar à categorização de homens e mulheres. Em nome disso, muito se matou historicamente, primeiro pela colonização e posteriormente pela inquisição, numa tentativa de encaixotar os corpos que consideraram dissidentes, dissonantes, mais ou menos humano, inumano, humanamente inconcebível: os corpos abjetos.

A produção do humanamente inconcebível, inumano, justifica, aos olhos colonizadores e inquisidores, ainda hoje um processo de extermínio contra os corpos que julgam, classificam e punem, impedindo de terem vidas dignas de serem vivíveis, e quando morrem, dignas de luto.

A lógica do extermínio está ligada, para além da generificação dos corpos, à aparência destes corpos não passáveis como homens e mulheres. A lógica da passividade é o parâmetro binário da sociedade do imperativo heterossexual, da sociedade cis-heteronormativa. Para além das identidades LGBTIA+, o que se nega é o direito à performatividade de gênero e suas performances diversas.

Para essa sociedade, tudo o que se assemelha às lógicas da passividade, da feminilidade, são indignas de vida plena. O cu é o grande patrimônio da heteronorma das masculinidades hegemônicas, sobre o qual se constroem as políticas de preservação das pregas frágeis de uma sexualidade mal resolvida e hipócrita. Mata-se os corpos, não pelo fato de serem LGBTs, mas pelo fato de traírem a sociedade machista patriarcal e negarem suas masculinidades ou feminilidades hegemônicas, de acordo com as normas estabelecidas. Não é raro encontrarmos expressões como “pode ser viado, mas não precisa dar pinta”, “seja discreto” e esse discreto traz em si toda uma rede de significações das lógicas amedrontadoras da passividade, que a norma impõe. A norma é machista e patriarcal. Em nome da preservação desse cu inviolável, mata-se e também se morre, basta ver o alto índice de câncer da próstata ainda presente, por insegurança de homens que temem o exame do toque.

É a partir desse terror que se aumenta as tecnologias de violência contra os corpos que performam suas feminilidades, como das travestis, mulheres transexuais e das bichinhas pintosas, que são consideradas passivas, mesmo que muitas vezes sejam as ativas da relação sexual, principalmente com a grande maioria dos clientes que procuram as travestis e mulheres trans para ser os passivos da relação.

Enquanto isso, com essas “contribuições” todas da mídia, inclusive as que se dizem contra hegemônicas, como também fez o Pasquim no passado, colaboram com as mortes dos LGBT em curso, por meio de piadinhas, charges “super engraçadas” e nas falas dos preconceituosos, inclusive os esquerdomachos. Parece que ao subjugar o outro, isso aumenta seu nível de testosterona e afasta uma possível associação de sua postura macho alfa das bichas no país que mais mata os LGBTs no mundo, que mais mata travestis e mulheres transexuais no mundo. As noivinhas dos Aristides da vida e das calçadas continuam a ser exterminadas.

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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