140 Caracteres?

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Nossa leitura se resume aos tais 140 caracteres?

Até o Twitter se rendeu, dobrou o número. Percebeu que é impossível  ter conhecimento e entendimento, com tão poucas letrinhas, entremeadas por espaços. Agora são 280.

Cada dia mais, as pessoas leem menos, parece que a velocidade da necessidade de informação em tempo real, ficou proporcionalmente inversa à preguiça da leitura mais amiúde.

A tal vista d’olhos tem provocado inúmeros entreveros. Perguntas desconcertantes, questões óbvias, retrabalho informativo e, até o pensamento de lidarmos com interlocutores deselegantes em sua atenção.

Conversava com uma queridíssima amiga, cátedra na academia, que corroborava em gênero, número – muito mais que uma lauda simples – e grau, da exaustão ao passar uma mensagem aos seus discentes. Está tudo lá: dia, hora, local, por que canal será transmitido, de que forma, por qual plataforma… no entanto, a primeira pergunta, invariavelmente é: “mestra, que dia será?”, seguida, evidentemente pelas gerais: “onde?”, “A que horas?”, “Uso qual canal?” e por aí vai.

Darei uma sugestão, cara preceptora. Diga que as informações estão em: será no XIII, antes das calendas de outubro, nas seguintes coordenadas: 22°51’45″S 43°13’26″W. Quanto ao horário, defini que será (às) resultado de: – (x +2)2 + 4x.(y + 1) = (   ), divididos por 3.10-7 x 4.104 x 1,054.10-19 = (   ), multiplicado por +(2x – y)2 – 2.(x2 + y2 (   ), adicionado a
(1+x)¹n=1+nx/1+(1+x)²n=1+nx/1+(n(n-1) x³2)/2!+ (   ), subtraído de -(x+a)²  n=∑_(k=0)³n [{(n¦k) x2k a3(n-k)}]= (   ). Não aparecerá ninguém, mas ficarão loucos… ou não. É bem capaz de perguntarem o resultado ao professor de zoologia. Ah, é matemática?

Esta historinha parece engraçada? Infelizmente é trágica, nada tem de comédia. Diria que, minimamente, é factível.

Lidamos dia a dia com a desinformação causada pela ignávia da decodificação.

Na academia havia um professor que, por motivos óbvios, não citarei a matéria nem, principalmente, o nome. Nas verificações bimensais, com questões discursivas, era chegado a textões. Descobri isso na primeira prova. Havia um colega com a capacidade de síntese contrária impressionante, um ‘Rolando Lero’ nato. Escreveu páginas e páginas, um verdadeiro tratado, para cada pergunta formulada. Eu, com meu poder de síntese, fui direto e objetivo. Me lasquei. Recebi uma nota pífia com a alegação que não desenvolvi com conteúdo, a missão dada na questão. Já o Lero-lero se deu, muito, bem. Fiquei indignado, quis reclamar com o coordenador, afinal, minhas respostas eram, apenas, suscintas. Depois, pensei melhor: éramos 60 alunos em uma sala, ele tinha mais oito turmas… 480 provas de, no mínimo, cinco questões discursivas, cujo resultado era entregue em quatro dias?! São 2.300 textos, cada um com, como ele adorava, uma lauda. Isso somava, nada mais, nada menos que, quase, dois milhões e oitocentos mil caracteres. Ao menos que obtivesse ajuda de uma equipe, o que era totalmente improvável, não lia. Avaliava pela massa contida na folha.

Lembrei dos tempos da ditadura, quando o Estadão substituía textos censurados por receitas de bolo de fubá intragáveis ou pelo “Lusíadas” de Camões. Mandei ver como absoluta forma de protesto.

Textos impecáveis que começavam abordando a questão proposta caminhavam por receitas indecifráveis, pelas “As armas e os Barões assinalados/Que da Ocidental praia Lusitana/Por mares nunca de antes navegados/Passaram ainda além da Taprobana…”, por alguns impropérios acerca do jeito blasè com que se vestia o professor e sua vasta cabeleira faltante o que provocava a impressão, que era encimado por uma bela bola de bilhar.

Resultado: 10, nota dez!

Pano rápido!

Diga 33, rota 66 ou, melhor, diga 99!

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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