Hora do conto fez de Nicole uma leitora assídua

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Jovem londrinense foi uma das dezenas de milhares beneficiadas pelo projeto Palavras Andantes

Nelson Bortolin

Na foto, Claudete e Nicole Brito

Sem hábito de leitura disseminado na família, Nicole Carvalho Brito só teve contato com a literatura na Escola Municipal Neman Sahyun (zona norte), onde cursou o ensino fundamental. A hora do conto do projeto Palavras Andantes, realizada na biblioteca escolar, fez com que a jovem se tornasse uma leitora assídua.

Atualmente, ela se prepara para ingressar no ensino médio. E sua mãe, a podóloga Claudete Carvalho Brito, é muito grata ao projeto da rede municipal de ensino. “Minha filha nunca mais parou de ler”, afirma.

A paixão pelos livros passou a ser compartilhada em casa. A jovem está terminando de ler para a mãe ‘A menina feita de espinhos’, livro que conta a história de uma garota com grave doença de pele, escrito por Fabiana Ribeiro e publicado pela Universo dos Livros. “Estamos quase no final do livro.”

Nicole é uma entre dezenas de milhares de londrinenses que se beneficiaram do Palavras Andantes, iniciativa criada há 19 anos e que está sendo reformulada pela Secretaria Municipal de Educação. A pasta nega, mas professores da rede temem que o projeto esteja sendo desmontado.

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A professora e doutora em literatura infantil aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Neuza Ceciliato, também acredita que está acontecendo um retrocesso. “Estou estarrecida”, afirma.

Uma das alterações em curso é que não haverá mais professores exclusivos para o Palavras Andantes, como acontecia em todas as escolas até o início da pandemia. A partir do próximo ano, o responsável pelo projeto também vai realizar outras atividades, como substituir professores regentes em sala de aula.

A hora do conto, que era apenas presencial, agora também passa a ser gravada em vídeo e transmitida para a sala de aula.

Para Neuza Ceciliato, o formato digital não tem a mesma eficácia. “A hora do conto é a hora do encontro na formação do leitor. É um momento muito importante, um espaço de descoberta, de liberdade de interpretação.” Esse encontro, segundo a especialista, não deveria ser por meio de uma tela e sim com a presença de quem conta e quem ouve a história. “A hora do conto implica em diálogo, em olho no olho.”

Segundo a professora, a biblioteca ou as salas de leitura devem ser mantidas como prioridade nas escolas. “São espaços de liberdade, de aconchego, de partilha, de lazer, prazer e emoção, onde as crianças não têm a obrigatoriedade de assimilação objetiva do conhecimento. Uma biblioteca diverge muito do ambiente da sala de aula”, compara.

Devido ao aumento da demanda nas escolas públicas, estão sendo transformadas em salas de aula 9 das cerca de 90 bibliotecas escolares. A secretaria de educação diz que a medida é temporária.

Neuza Ceciliato conhece bem o Palavras Andantes pois foi orientadora de mestrado do professor que criou o projeto: Rovilson José da Silva, que dava aulas na rede municipal e hoje é docente da UEL. “Houve toda uma preocupação do professor Rovilson com relação às salas de leitura que não eram ambientes preparados para a contação de histórias”, recorda.

Com participação de arquitetos, o projeto reformulou as bibliotecas escolares, com mobiliário e decoração adequados às crianças. Além disso, a iniciativa, que ganhou o prêmio nacional Vivaleitura do Ministério da Educação em 2008, prevê a formação continuada dos professores que promovem a mediação da leitura nas escolas.

“Não deveria haver um retrocesso num projeto que deu tão certo, com resultados tão positivos nesses 19 anos”, lamenta Neusa Ceciliato.

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