Na cadência do samba com a população de rua

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Roda de samba do projeto arte educação alegra e une as pessoas na Concha Acústica de Londrina

Cecília França

Darci é o mais animado. Toca pandeiro, chocalho, dança sem parar. Pergunto se ele gosta de samba e, em resposta, ele diz “Você acha?”, e aponta para o rosto e a roupa suados. Margarete entra na roda e samba aos primeiros acordes de “Cheia de Manias”, aparentemente feliz. Talvez aquele seja um raro momento de diversão para ela naquele dia, naquela noite. E no mesmo lugar em que ela vive desde os 10 anos: a rua.

O projeto de arte educação, uma parceria entre a Escola de Circo e a Secretaria Municipal de Assistência Social, é o responsável por promover a música que diverte e empodera a população de rua nas noites de quinta-feira na Concha Acústica de Londrina. Na última edição havia poucos. Por vezes o sambão atrai também moradores do entorno.

O arte educador Miguel Matoso explica que o projeto é desenvolvido em abrigos de crianças e adultos e que a pandemia levou a uma reconfiguração das atividades. Palhaço, malabarista, percusionista e ator de teatro, ele agora experimenta sua versão DJ.

“Ando me sentindo um DJ deles. Às vezes tem uns que estão mais alterados, coloco uma música mais leve, baixa o ânimo. Cada dia é um aprendizado”, conta. Miguel enxerga na música a possibilidade de promover a arte do encontro.

“Na música, tanto quanto no malabares, na dança, no teatro, você precisa estar no aqui e agora, se começar a viajar muito você perde o andamento de tudo, então as pessoas se concentram. Porque acho que a gente vive muito no passado e no futuro e quase nunca no presente. Todos eles têm uma vivência e essa movimentação conecta de uma forma que eu não sei explicar ainda e nunca vou conseguir”, avalia.

Para o arte educador, a importância da roda de samba vai para além da população de rua. “Você promove a cidade como um todo. Hoje ainda tem poucos, mas muitos moradores dos prédios descem, curtem, interagem. Você está colocando todo mundo no mesmo patamar. A música tem esse poder de unir as pessoas pelo encontro, pela diversão, pelo ritmo. Olha aquela senhora, o diálogo que ela está tendo com o morador de rua”.

A senhora a que Miguel se refere é a historiadora e poeta Claudinha Ferreira, que interagiu por horas com Darci e os demais participantes. À Lume ela conta ser uma amante de rodas de samba, mas ali, estava pela primeira vez. Claudinha diz que estudou por anos diversas ideologias políticas até constatar que apenas uma vale a pena: “a do amor ao próximo”.

É justamente o amor a saída para mudar a vida das pessoas em situação, acredita Paulo. Mesmo vivendo na rua ele acaba de terminar o ensino fundamental e estava comemorando a notícia na quinta-feira. “Fazendo com amor as coisas dão certo. Sabe onde eu fui ganhar amor? Através da Kelly, da Dani, da Clarice (trabalhadoras atuais e antigas do Centro Pop). Me ajudaram tanto na minha vida…”, agradece.

Mais de uma hora após o início da roda, com a noite já profunda, Darci ainda dança, e faz toda aquela movimentação ter sentido.

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