Aos 47 anos e vivendo na rua, Paulo conclui o Ensino Fundamental

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Em situação de rua há décadas, ele conta como lidou com o vício e a precariedade e revela sonho de se tornar enfermeiro

Cecília França

Foto em destaque: Paulo nas proximidades da Concha Acústica/Isaac Fontana

Paulo César Rodrigues, 47 anos, vive um dia de cada vez. Quando nos encontramos na Concha Acústica de Londrina ele estava em um dia feliz, comemorando a aprovação no Ensino Fundamental pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Não foi um caminho fácil, mas cheio de tropeços e recaídas comuns entre quem está em situação de rua. A esperança de realizar os sonhos interrompidos pelos vícios tomava conta dele.

Com a conclusão, Paulo passa a integrar uma parcela inferior a 50% da população de rua em Londrina. De acordo com a Pesquisa Pop Rua, realizada em 2019 pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e parceiros, 50,6% das 930 pessoas entrevistadas eram analfabetas ou não haviam completado o Fundamental. Paulo seguiu um caminho tortuoso até chegar ao segundo grupo.

Nascido em Jandaia do Sul, veio pequeno para Londrina. “Meu pai separou da minha mãe, devido a droga e álcool. Minha mãe foi morar com uma pessoa em Astorga e eu fui para lá com ela. Aí dividiu a família. Eu brigava lá com minha mãe, vinha pra Londrina; depois brigava aqui, voltava. Isso foi uma parte da minha infância, até os 8 anos de idade. Aí minha mãe ia para Minas Gerais colher café, com meu padrastro, eu queria ir junto. Eu ia trabalhar com eles lá, limpar tronco, acendia o fogão a lenha, que eu gostava muito. Aí todo ano a gente ia, atrasou meus estudos. Com 12 anos comecei a beber pinga, porque eu via eles bebendo e, por curiosidade, acabei me envolvendo”, relata ele.

Assista a entrevista em vídeo, no qual Paulo recita um texto escrito durante as aulas na EJA:

“Depois tive uma fase de adolescência legal, mas me rebelei devido ao álcool. Aí voltei pra Londrina e aqui foi a perdição. Já conhecia a cola, fugia da escola e ficava com a galera. Onde é a Praça do Japão tinha um pé de seringueira, a gente ficava ali. Como meu pai tinha minha madrastra, não tinha tempo, às vezes eu ficava três, quatro dias aqui para o Centro, moleque ainda. Minha mãe vinha, me levava pra Astorga de novo”, relembra.

O único irmão foi criado como ele, mas não se envolveu com álcool ou drogas. Acabou concluindo os estudos e se formando em educação física. Em 2017, faleceu em um acidente de carro que trouxe imensa dor ao irmão. “Era um irmão que me dava o maior apoio. Por isso que hoje estou muito feliz, porque recebi a notícia que eu passei de ano, morando na rua. Eu tenho um sonho de me tornar enfermeiro, ajudar o próximo. Já me ajudaram tanto na minha vida, então meu sonho é ajudar quem já me ajudou”, revela. Paulo também perdeu a mãe e a esposa em um curto espaço de tempo.

Agora, pretende ir para Curitiba, talvez trabalhar no litoral durante as férias, levantar recursos para continuar os estudos e cursar técnico em enfermagem. No futuro, quem sabe, até uma faculdade de enfermagem. Nas imediações da Concha Acústica ele exibe uma placa com os dizeres “Olá, meu nome é Paulo, estou precisando de ajuda para uma passagem para ir a Curitiba”.

“Esse plano está traçado há muitos anos, só que a droga me interrompeu várias vezes na minha vida. Depois que eu conheci o crack, aí tive essas perdas na minha vida e, ao invés de eu ‘firmar o cavalo’, eu me afundei ainda mais. Mas não é isso que a gente quer, ninguém quer isso. Eu sei que eu sou uma pessoa doente, não tem cura, mas tem a possibilidade de eu viver do lado dela e não usar ela. Descobri isso depois de 47 anos”, afirma.

O sonho de se tornar enfermeiro só não é maior que o sonho de dar orgulho para os filhos e netos. “Antes de morrer eu quero mostrar para eles que eu não nasci assim. Até antes de eu morrer isso é meu sonho”.

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