Se essa rua ramalhete fosse minha

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Não ladrilharia com as tais “pedrinhas de brilhantes”. Refloriria. No Dia do Jardineiro – 15 de dezembro -, com belas rosas, dálias, crisântemos, jasmins, petúnias, margaridas, para que ficasse com a cara dos “jardins do céu”. “…A beleza das flores realça em primeiro lugar/É um milagre do aroma florido/Mais lindo que todas as graças do céu/E até mesmo do mar…”.  Voltei na história-floricultura, dos cravos que aplacam algozes, do caminhar sem lenço e documento, neste Sol cáustico de dezembros, voltei ali em Ipanema, das moças coloridas pelo Sol. Ah Ipanema, Ipanema não há mais. A “Casa Futurista”, como escreve Joaquim Ferreira dos Santos; “Museu de Belas Artes da intimidade feminina” se foi.
A “Shaika”, se foi, o “Veloso” se tornou “Garota”, o “Gordon” virou cafeteria, o “Mau Cheiro”, e mau cheiro que vinha de lá, pura implicância dos frequentadores daquele memorável bunda de fora, deixou de ser point das madrugadas Leilianas. O Jangadeiro, embarcado pelo Dragão do Mar, foi para águas infinitas, está nos braços de Iemanja. Para aonde foram Caio Mourão, Roniquito, Leila e toda a intelligenza carioca?  Estarão lendo o “Sol” nas bancas de revista, que enchem meu coração de alegria? E escadaria da Saint Roman, em Copacabana, que tantas vezes subi para estagiar no brilho da contracultura. Saudades da Dona Neuma, do Eufra de Abreu, do Jagar, do Nani e do Henfil na redação d’O Pasquim.

Com “os amores na mente, as flores no chão/A certeza na frente, a história na mão/Caminhando e cantando e seguindo a canção…”, eu vou! Mas, onde estão as flores?

Aprendendo e ensinando uma nova lição, conversei com a minha querida Celina Carvalho, que eu chamo, carinhosamente, ‘Dama Ramalhete’, viúva do saudoso e inesquecível cantor-poeta Tavito, que colhia a pimenta e o sal com magnitude gigantesca e plantou muitos amigos do peito e nada mais, sobre as músicas que ele compôs, seus significados, suas histórias, suas mineirices e fontes de inspiração, bem como minha curiosidade sobre alguns temas e porandubas.

Papo foi, papo voltou alegremente, com histórias sensacionais de nosso amigo, ela me passou um depoimento, lírico e emocionante. Vi uma lágrima no canto daqueles olhos castanhos-esverdeados, falar do seu amado e sempre amadíssimo para todo e sempre, Luís Otávio. Companheiro de palco de nada mais, nada menos que Vinícius de Moraes, cujas cartas trocadas entre ambos ela guarda carinhosamente numa caixinha de marchetaria, ricamente ornada e decorada, como dizem os antiquários. 

O mais constante parceiro nas obras musicais, Ney Azambuja, sobre as narrativas de várias composições. Como nasceram, quem foi a musa inspiradora ou a fonte onde beberam, em que momento aconteceram, e por aí vai… Todas de muito sucesso, uma delas, “Rua Ramalhete”, “Sem querer fui me lembrar/De uma rua e seus ramalhetes/ Do amor anotado em bilhetes/Daquelas tardes//No muro do Sacré-Coeur…”, uma volta a adolescência de todos nós, gravada em versão até para o japonês, ficou imortalizada na voz do próprio autor e em interpretações memoráveis de um número enorme de bardos. Um deles, Wando, e sua polêmica em relação aos Beatles virem ou não ao Brasil. Mudou a letra de “…será que algum dia eles vêm aí, cantar as canções…”, para “…pois sei que eles jamais virão aqui, cantar as canções…”. Wando, fogo e paixão, era um romântico-rebelde incurável.

Relatou Ney: “— Sábado, casa do Tavito. Não tínhamos a menor ideia de por onde começar a compor. Não tínhamos um tema em mente, nada. Mas quando tem que acontecer, a vida sempre dá seu jeito. Tavito fazia alguns acordes no violão, eu rabiscava frases soltas numa folha em branco, quando toca o telefone. Era minha mulher avisando que estava recebendo uma amiga em casa. Essa amiga, isso nós já sabíamos, era mineira. Morou na Rua Ramalhete. Namorou o Tavito. Pronto, já tínhamos o caminho. Começamos a conversar sobre as experiências e sensações da adolescência… os versos e a melodia foram surgindo.

Cada palavra e cada acorde foi medido, pensado, revisto, para transmitir da maneira mais autêntica aquelas sensações. O sucesso da música, que mais de 40 anos depois ainda emociona, mostra que conseguimos. Cada um de nós tem a sua própria ‘Rua Ramalhete’. Ao seu tempo, a memória sempre surpreende trazendo de volta a nossa rua da adolescência, esteja ela onde estiver.”

A rua Ramalhete fica em Belo Horizonte entre os bairros Anchieta e Serra. Tem esse nome singelo, envolto em certo lirismo de memórias guardadas numa adolescência especial, em tremores, tardes fugidias.

Noutras palavras sou muito romântico encontro-me na rua das Flores em Bonsucesso, na rua das Rosas que graceja em três bairros cariocas: Vila Valqueire – na verdade Vila V Alqueire – cinco em romanos-, São Cristóvão e Cidade Universitária e não briga com a rua do Cravo na Penha Circular. É um Rio florido de rua das Hortênsias, das Orquídeas, do Lírio, das Violetas e das Margaridas.

Sabe de uma coisa? Eu vejo flores em você. Da alma, a mais linda flor!

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um
apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

Um comentário

  1. Impossível não me emocionar, lendo essa crônica. Obrigada querido amigo, pela sua sensibilidade. ‘Dama Ramalhete’!🌷

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