Bolsonaristas mentem sobre mortes de crianças com covid

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Número de óbitos em pessoas com até 11 anos no País é mais de 2 mil vezes maior que o divulgado em vídeo

Foto: CDC

Nelson Bortolin

Para tentar manter o voto dos conservadores e negacionistas, vale tudo para o bolsonarismo. Inclusive apavorar os pais e colocar em risco a vida das crianças. Em vídeo publicado nas redes sociais pela deputada federal e presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, Bia Kicis (PSL-DF) um tal Dr. Nasser diz que o “índice de sobrevivência” das crianças ao coronavírus é de 99,997%.

Na narrativa do profissional, que é integrante da organização negacionista Médicos pela Vida, apenas 0,003% dos pequenos infectados pelo Sars-CoV-2 teriam morrido. Mentira. Dados oficiais do próprio Ministério da Saúde apontam os óbitos de 1.449 pessoas entre zero e 11 anos com a doença entre 2020 e 2021 (até 6 de dezembro), de um total de 23.277 que tiveram diagnóstico positivo. Isso dá um porcentual de 6,2% de mortes – mais de 2 mil vezes maior que o apontado pelo médico bolsonarista.

Quando o recorte estatístico é menor, entre crianças de 5 a 11 anos – faixa etária para a qual a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de autorizar a vacina da Pfizer/BioNTech -, a mortalidade é menor proporcionalmente. Das 6.163 crianças oficialmente infectadas, 301 morreram, ou 4,8%.

Não contentes de mentirem sobre os números, os bolsonaristas relacionam uma série de doenças que, segundo eles, vão acometer mais cedo ou mais tarde as crianças que se vacinarem. “Vão ter problemas cardiológicos, câncer, infertilidade, imunidade”, jura o médico no vídeo.

CONTESTAÇÃO
Em documento no qual referenda a vacinação das crianças entre 5 e 11 anos, a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19, criada pelo próprio Ministério da Saúde, cita a ocorrência de seis casos de miocardite ocorrido em crianças vacinadas nos Estados Unidos, num universo de 7 milhões de doses aplicadas. Segundo o texto, todos os casos foram “classificados como de evolução clínica favorável”.

Médica pediatra londrinense, Najat Nabut não quis entrar em polêmica. Disse que não viu o vídeo bolsonarista e não teria tempo de ver. Mas ressaltou que está à frente do Comitê de Pediatria da Associação Médica de Londrina (AML) e que buscou “informações científicas” sobre o assunto junto à Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e à Sociedade Brasileira de Infectologia. E encaminhou à reportagem carta em defesa da vacina para a faixa etária de 5 a 11 anos assinada por três médicos: Marco Aurélio Palazzi Sáfadi (presidente do Departamento Científico de Infectologia da SBP), Renato de Ávila Kfouri (presidente do Departamento Científico de Imunizações da SBP), e Rosana Richtmann (diretora do Comitê de Imunizações da SBI).

O documento diz que os testes realizados com a vacina da Pfizer no mundo demonstraram eficácia de 90,7% para a prevenção da Covid sete dias após a segunda dose na faixa etária de 5 a 11 anos. “Não foram observados nestes estudos eventos adversos graves associados à vacinação, com um perfil de reatogenicidade favorável.”

Os especialistas ressaltam que o tempo de estudo da vacina é “relativamente curto” para determinar sua segurança a longo prazo. Mas que as duas sociedades médicas têm entendimento que, “à luz dos conhecimentos ora vigentes”, os benefícios da vacinação na população de crianças de 5 a 11 anos, com a vacina Comirnaty, superam os eventuais riscos associados à vacinação, no contexto atual da pandemia.”

Londrina abriu, na semana, cadastramento para crianças entre 5 e 11 anos. Ainda não há data para início da vacinação.

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