Quem tem fome tem pressa

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O Natal nos mostra que Deus está na fragilidade e não no poder

Este foi um ano triste. Tentamos agradecer pelas bençãos de ter teto, comida, água, emprego, família. Mas em muitos momentos vivemos o desalento.

Ser empático é reconhecer-se um pouco no outro e abraçá-lo, ainda que sabendo que pouco podemos fazer para aplacar sua dor. A dor é algo muito particular. E não há amor sem dor. Ao mesmo tempo, quando ela se estende por tempo indeterminado, ela contamina como vírus. Todo mundo dói.

Pessoalmente, contei, em 2021, histórias de amor e dor que me colocaram diante de seres humanos admiráveis que me ensinaram e acalentaram. E em muitos momentos chorei de soluçar, questionando a “justiça divina”. E assim se passaram 12 meses de um ano que parecia interminável.

Para cada amigo que perdeu alguém nessa pandemia eu perdi junto. Perdi os amigos, que não vão mais sorrir com naturalidade. Eles estarão sempre meio quebrados, tentando juntar pedaços que nunca poderão ser reconstruídos. Só ressignificados. Com cada perda, perdemos todos, essa que é a verdade.

“Como você tira a tirania da mão do tirano? Fazendo com que todos se tornem irmãos. É uma luta histórica incrível e difícil. Mas sabemos que não existiriam tantos tiranos, se não existissem tantos cúmplices entre os opressores”, ensina o padre Julio Lancellotti, que atua na Pastoral de Rua de São Paulo.

Foi ele quem me deu a lição mais valiosa sobre a beleza da fragilidade humana experimentada repetidamente este ano: “O pão partilhado tem gosto de amor”.

Seguindo essa cartilha, conheci mais de perto pessoas com a mesma missão do sacerdote, mas que atuam perto de mim, mudando realidades no interior do Paraná. Me juntei a elas e cá estou: uma mulher modificada e ainda mais consciente de que a imperfeição nos pertence, mas não nos paralisa.

Testemunhei realidades tão distantes da minha e ainda assim descobri que carregamos, todos, algo em comum: somos gente. “Pessoas. Nem boas, nem más. Gente. Que ama”, como define o padre Lancellotti.

Segundo ele, o amor à maneira de Deus é um exercício de compaixão e misericórdia. E se dá em diversas dimensões: na interpessoal e, principalmente, na social, comunitária e política. “O Evangelho é proativo.”

Para o sacerdote, a pandemia potencializa as dores e as ações, mas não tem o “poder” de mudar as pessoas. “Quem entrou na pandemia egoísta ficou ainda mais, quem compartilhou, ajudou muito mais”, avalia.

Ele faz questão de reforçar que as dores são resultado do sistema neoliberal em que estamos inseridos. “Um sistema racista, machista, individualista, preconceituoso.”

Este ano, ele iniciou uma campanha em suas redes sociais contra a aporofobia, termo que se refere ao medo e à rejeição aos pobres,  criado pela filósofa espanhola Adela Cortina, nos anos 1990.

Nas cidades brasileiras, a aporofobia aparece no uso de grades, lanças e muros para impedir a aproximação de moradores de rua de residências e estabelecimentos.

Em Londrina, ficou explícita numa faixa colocada no terminal rodoviário que diz: “Não dê esmola. A esmola incentiva a permanência nas ruas, e o uso abusivo de álcool e outras drogas”. A imagem da faixa foi compartilhada pelo padre Lancellotti em seu Instagram e virou notícia na Rede Lume.

“Campanhas como as do ‘Não dê esmola’ pregam a criminalização do pobre. Uma ideia romântica para esconder a inadequação dos serviços de assistência social”, declara o sacerdote.

“A aporofobia mostra que só tenho empatia pela minha bolha. O preconceituoso não consegue perceber que aquela pessoa solitária na rua também ama.”

Lancellotti lembra que empatia e compaixão são conceitos ligados à natureza humana e não apenas à religiosidade. “A visão cristã do Natal mostra que Deus está na fragilidade e não no poder. Aporofobia, machismo, LGBTfobia, cárceres lotados, genocídio da juventude negra, tudo isso está longe de Deus.”

Em 2021, viveremos nosso segundo Natal em luto. “Sentimos, agora, a dor do amor. Estamos vivendo uma seca tão forte, que as sementes não conseguem brotar. É preciso humanizar”, diz o padre.

“Precisamos de força para resistir. A dor nos faz ter esperança e coragem. Empatia. Nos faz chorar, mas também sorrir. Nosso compromisso não nos faz desistir”, completa o sacerdote, reforçando que a humanidade precisa mesmo é de mais convivência.

“Não se preocupe só em dar coisas. Se preocupe em conviver. Você pode falar pelo olhar, pela pele, pela sua postura. Conversar sem palavras. Todo mundo tem uma história para contar.”

Outra lição que fica para 2022: o amor se exercita. O amor se divide. Se faz pela escuta. Pelo olho no olho. O pão partilhado tem gosto de amor e quem tem fome tem pressa.

Feliz Natal!

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