Meu corpo ciborgue dilacerado: como viajar sem o celular?

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Estou imerso em viver as férias pandêmicas modo Ômicron. Nas próximas colunas partilharei com vocês como tem sido a experiência incrível de viver esses dias insólitos, numa tentativa de “Descansa Militante”. É possível? É tanta afetação que resolvi escrever pra dar conta, já que o divã está suspenso faz um tempinho. E porque não dividir com vocês, pra ficar mais leve e quem sabe rirmos juntes das próprias desgraças. Fazer graça da desgraça tem sido meu lema. Às vezes dá certo.

Ir deixando-me e me recolhendo… dinâmica do espalhar-se por aí. Coloquei o aparelho para carregar até o último instante sobre a cama do quarto de hóspedes da casa da irmã. Juntei todas as coisas com rigor de ritual. O encontro com o amigo merece tal dedicação. Celebrar a vida que pulsa, mas também passa. Vi nos olhos da matriz anciã uma saudosa lenta despedida. Procurei esse sentimento nos meus. O lacrimejar embaçou esse encontro.

Fui para o primeiro embarque, dos muitos que faria para chegar ao destino final, depois da carona da mana. E quase que simultaneamente ao tchau/boa viagem, dou conta que um celular havia ficado para atrás (depois soube que ela até tentou trazer o celular num ônibus que já nem era mais o que havia embarcado). E o que significa um celular esquecido? É como deixar um braço, um órgão qualquer… Qualquer não. É a memória afetiva ativada deixada para lá… Como viajar sem o celular que é extensão de mim? Corpo ciborgue, deixei a prótese em casa. Uma cybertragédia. Mas se a opção é seguir ou seguir… Senti em segundos a dor pelo esquecimento, substituída pelo reconhecimento de minha humanidade falha. Orgulho-me disso. Mas tem seu preço. Segui sem a prótese. Tudo que vi nas falhas de memória de minha mãe meses atrás, ali escancarado em minha atitude relapsa de meia idade. Alzheimer? De quem?

Andei de táxi. Fazia tempo que só usava transporte por aplicativos. Comprei o livro de Letrux “Tudo o que já nadei”. E a mim, faltam quantas braçadas? Nadar me reconecta. Sem temer espero pelo próximo embarque. O amigo vai me buscar no aeroporto. Espero que ele me veja (logo hoje que vim discreto). A conversa com a amiga que faria agora na sala de embarque. Uma chamada de vídeo para o amor. Promessas de registros fotográficos pelo caminho… Tudo se fez analógico!

Retiro o caderno capa dura da bagagem de mão. Resgato da agenda de 2021 uma caneta preta, que está borrando um pouco. Num susto foi acionada para o ano que começou há pouco… um Rio em janeiro a me esperar… Máscaras pandêmicas em todo trajeto. Sufoco. Álcool gel. Álcool gel. Álcool gel. Ômicron pelos ares. Tempo nublado em São Paulo. Tomara que dê para ver o Pão de Açúcar na aterrissagem.    

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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