Uma segunda chance na vida: nunca fui tão feliz em terra firme

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A saga das férias pandêmicas modo Ômicron…

E não é que deu pra ver o Pão de Açúcar… Bem no começo de janeiro, início do ano, eu na janela da aeronave, aquela que recusei ceder ao pai da família que queria sentar juntinha. – O senhor se importa em trocar… – Me importo sim. Ainda se fosse por outra janela. Mas trocar pelo corredor… ah, não. Com toda educação do mundo, expliquei o quanto desejava ver o pãozinho doce de pedra.

Até chuvoso o Rio de Janeiro me emociona. Todas as montanhas, o mar, Corcovado, Dois Irmãos, (aquela é a Pedra da Gávea?), barcos, bairros, a ponte… que intensidade quase romântica na chegada à cidade maravilhosa. Não fossem os trechos de Rio 40 graus, na voz de Fernanda Abreu, que insistiu em lembrar das truculências. Num mix com o Samba do Avião, na voz de Gal. “Minha alma canta/Purgatório da beleza e do caos”. Mas a beleza estava ali, escancarada pela janelinha, que eu praticamente monopolizei com a cabeça grande coberta pelo chapéu. Cheguei a quase chorar. Lembrei dos amores cariocas, ex-amores e do amor atual, que não gosta tanto da cidade. Por que? Pensei mais uma vez. No aeroporto, o abraço do amigo irmão a me esperar.

A bandeira do arco-íris nas areias de Copa, a Bolsa de Valores, a barraca do Seu Paulinho e do Paulo (filho dele), do Beto… Será que o Seu Paulinho ainda vive? A única certeza das areias é o mate gelado e os biscoitos Globo. Aqueles que nem em SP são chamados de bolacha.

E nessa descida cinza, entre montanhas e memórias, o Rio me pareceu cinematográfica… quando o avião se aproxima da pista de pouso do Santos Dumont, mas peralá, que velocidade é essa que ele está. Tá acelerando muuuuuuuito e a pista tá logo aliiiiiiiiiiii! Um berro interno e uma sensação de estar vivendo os últimos instantes da minha vida, previ o avião se estabacando ao chão. Foi como se o tempo parasse num instante. Pensei em tanta coisa. Lembrei de Marilia Mendonça. E num barulho não esperado, as turbinas foram acionadas com a milésima potência e antes de encostar na pista a nave arremeteu. Desacredito em tudo. Viro pro lado e comento com a senhora com pinta de madame decadente arrependida de ter votado no coiso: – Arremeteu? Ao que ela, dura e precisa, responde: Sim, arremeteu!

Gente do céu, só quero terra firme. Obrigado deus por ter me livrado dessa. Me vi morrer e nascer novamente e lá vamos nós… pra onde, mesmo? O comandante nos informa num som chiado e baixo, no qual algumas palavras ficavam inaudíveis e a imaginação tinha que completar o raciocínio. – A torre pediu para que sobrevoássemos mais um pouco, devido à falta de condições climáticas para o pouso. Eu ainda tentei me recompor, já que tinha acabado de ganhar uma segunda chance de vida. Pensei comigo mesmo: – Que presente! Vamos ganhar um voo panorâmico no Rio. Sabe quando custa um voo desses? Não faço ideia, mas sei que barato não é. E eu ganhei. Que presente! E voa, voa, voa, voa… No que a madame ao lado suspeita em alto e bom tom, com sua voz rouca: – Será que esta aeronave está com problemas? Porque não segue pro Galeão? Tirando-me do devaneio que tentava ainda me apegar… E voo, voo, vooooooooooo… meu dels, ele praticamente despencando em direção ao maaaaar. Agora fudeu!  Logo comigo que tenho medo de roda-gigante, montanha-russa e outros tais, desde que voei da carroceria de uma caminhonete quando jovem e dei com a cara no barranco. Mais panorâmico e eu já completamente tenso. Rio, Niteroi, região dos Lagos, água, água, água. Chuva e morada de Iemanjá. Tripulação em polvorosa. Gritos de protesto. Conversas atravessadas. Aeromoças e comissário distribuindo água. Tomo um copo sem sede. Vai que é o último copo da minha vida. Pelo menos não morro com sede. Comandante: – A torre pediu que retornássemos para São Paulo. Estamos em direção à Congonhas. Oi? É isso mesmo que ouvi, comento com a madame, ao que ela precisa como sempre, responde: – Sim, foi o que ele disse: estamos voltando para São Paulo! Uma passageira totalmente apavorada grita: – Esse piloto nunca ouviu falar no Galeão? E entre protestos e respostas nervosas também da aeromoça, que justifica com os 31 anos de voo do piloto, o avião segue o caminho de volta e eu tenho uma crise de riso, aquele incontrolável, meio proibido… como rir alto no meio daquela desgraça toda? Fudeu. Meu amigo a me esperar no aeroporto. Cadê meu celular? Comento de novo com a madame: – Acho que ele está voltando para eu pegar meu celular que esqueci em casa. Ela faz cara de poucos amigos, preocupada com os pais idosos, um com Alzheimer, que ela tinha que cuidar ainda naquela noite. E pra acabar com aquela algazarra toda e uma distribuição de água sem fim, o voo começa a passar por uma área de turbulência. Tudo pode piorar. E o comentário da madame vem feroz: – Será que esta aeronave tem combustível suficiente para chegar em SP? Eu acho impossível que o piloto tomasse a decisão de voltar sem combustível. Mas ela é implacável: – Não sei não. Hoje em dia as cias economizam em tudo!

O que fazer quando chegar em SP? Não deram opção de descer do voo. Ninguém diz mais nada. – Não sei dizer senhor. É uma situação completamente inusitada. Repete a aeromoça à chuva de questionamentos. Meu amigo lá esperando. Meu celular na casa da irmã. E eu sem saber de cor nenhum número de telefone. Alguém aí guarda algum? Só lembro do número da casa da mãe, que está de férias na casa da irmã e do número antigo da casa da irmã, que nem existe mais. Telefone fixo? Uma raridade. E no meio desses atravessamentos surge SP e o pouso em Congonhas é realizado com sucesso. UFA! Terra firme, finalmente.        

*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.

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